As pulgas saltam.
O percevejo nada.
E alguns besouros hibernam.
O tomate tem licopeno.
O melão tem potássio.
E as bananas têm silício.
A Casa Branca tem seu Steinway.
O mercado tem sua mão invisível.
E o WTC tem seu Bin Laden.
Os homens não são falastrões quando nada têm a pedir.
Os escritores tendem a colocar palavras onde faltam idéias.
E provavelmente meu bisavô morreu sifilítico.
28.11.02
Groucho Marx
Para aqueles de meus leitores que nunca viram um convidado, posso descrevê-los facilmente. São altos ou baixos, ligeiramente maltrapilhos e vêm em todas as cores. Um convidado pode ser identificado como aquele que vem a nossa casa a nosso convite. Aquele que vem sem convite ou é uma aranha viúva-negra ou um parente.
Há todo tipo de convidados. Há o convidado para jantar, a visita de fim de semana, o convidado mensal e, se você não tomar cuidado, o convidado permanente. Mas o mais inocente, o mais amigável e relativamente inofensivo de todos é o convidado para jantar.
Um jantar é geralmente composto por um grupo de seis, oito ou dez pessoas. O tamanho do jantar, é claro, depende muito do tamanho da sala de jantar. E, em muitos casos, do tamanho da cozinheira. (...) Em todo grupo de seis ou mais pessoas que vêm para o jantar, pelo menos quatro delas não só o detestam, como também à comida. Não gostar da comida é privilégio dos convidados. Eu quase sempre não gosto da comida da casa dos outros, e quando isso acontece, discretamente encho minha boca de pão e torço para que a sobremesa não seja pudim de pão. (...) Também há os casais que nunca vêm sozinhos. Sempre trazem um convidado extra, com muita elegância e esperteza. Mesmo assim, você encaixa uma cadeira extra, tira o seu belo serviço para seis e rearruma a mesa com uma miscelânea de louças de cerâmica que há anos vinha roubando de alguns dos melhores hotéis do país.
Para começar a noite com uma bomba, tem o espertinho que sempre chega uma hora antes que os outros. Se você disser: "O jantar é às sete", pode ter certeza de que ele estará lá às seis. Se disser "nove", ele chegará às oito. Não se sabe como ele entra na casa - ou é um ladrão ou um duende - ninguém jamais o escuta entrar, nenhuma porta bate, nenhuma campainha bate. (...) E existe aquele casal que sempre sai à meia-noite, mas que só chega até a porta da frente. É praticamente impossível tirá-los da casa - algo como um jogador de futebol que chega na área e não consegue marcar o gol. Esse tipo de gente que reluta em sair de perto da porta tem um rival à altura naquele outro que se levanta de vinte em vinte minutos, como se fosse ir embora. Cada vez que ele se levanta, você pula cheio de esperança e, como um cão de caça, aponta na direção do armário de casacos. Mas seu pulo foi em vão. Essa caixa de surpresas levará horas para sair!
Os métodos mais simples geralmente são os mais eficazes para se livrar dos convidados de fim de semana. Alguns comentários bem colocados durante o jantar em geral resolverão o problema. Por exemplo, quando o assado for servido, você pode se queixar:"A carne está ficando tão cara! Não é fácil manter uma família hoje em dia, sem falar nos convidados." Quando chegar à última parte desse discurso, encare o convidado. Se ele tiver algum orgulho ( e muito poucos o têm), irá para o quarto e imediatamente começará a fazer as malas. Se, no entanto, ele for o típico habitué de fim de semana, tais sutilezas são uma perda de tempo, é métodos mais esquisitos devem ser usados, mesmo e até e inclusive a força. (...) Cortar o suprimento de água e os fios telefônicos é geralmente muito eficaz. Botar fogo em sua correspondência (especialmente se for as do tipo que recebo) às vezes ajuda. Muita gente é alérgica a migalhas de bolacha na cama, e geralmente ficam prontas para partir se acordarem de manhã transformadas em costeletas de vitela empanada. (Um hóspede, contudo, ficou tão encantado com esse tratamento, que passou a comer as bolachas toda noite antes de dormir e, depois de uma semana, desfez todas as suas malas e começou a pedir queijo aos berros pelo buraco da fechadura.)
-- Em "Como se Livrar dos Convidados".
27.11.02
Alasdair Gray
COMECEI A FAZER MAPAS QUANDO ERA PEQUENO.
EU MOSTRAVA LUGARES, RECURSOS, ONDE O INIMIGO
E ONDE O AMOR ESTÃO. EU NÃO SABIA
QUE O TEMPO CONTRIBUI PARA A TERRA. ACONTECIMENTOS
AFUNDAM CONTINUAMENTE, APAGANDO MARCOS,
ELEVANDO NÍVEIS, COMO NEVE.
EU CRESCI. MEUS MAPAS JÁ NÃO SERVEM MAIS.
AGORA A TERRA ESTÁ SOBRE MIM.
NÃO CONSIGO ME MEXER. É HORA DE IR.
--- Em "Lanark".
EU MOSTRAVA LUGARES, RECURSOS, ONDE O INIMIGO
E ONDE O AMOR ESTÃO. EU NÃO SABIA
QUE O TEMPO CONTRIBUI PARA A TERRA. ACONTECIMENTOS
AFUNDAM CONTINUAMENTE, APAGANDO MARCOS,
ELEVANDO NÍVEIS, COMO NEVE.
EU CRESCI. MEUS MAPAS JÁ NÃO SERVEM MAIS.
AGORA A TERRA ESTÁ SOBRE MIM.
NÃO CONSIGO ME MEXER. É HORA DE IR.
--- Em "Lanark".
25.11.02
Nossa cruenta alma espanhola
A tauromaquia é praticada na Espanha desde o séc. 18, e no séc. 19 atingiu um alto grau de profissionalismo e controle estatal. No séc. 20 foram realizadas mais de 31 mil touradas oficiais, todas envolvendo a tortura e morte de touros. Paixão nacional, o evento mobiliza multidões, elevadas somas em dinheiro, a mídia, criadores e empresários e profissionais especializados na construção e manutenção de arenas. Toureiros e fabricantes de novos modelos de espadas costumam reunir-se em sigilo para discutir a qualidade das armas, testando-as em novilhos. Enquanto os animais agonizam, eles avaliam o grau de facilidade e dificuldade com que elas penetraram na carne. Não menos terrível é a preparação dos touros para o dia do espetáculo. Seus chifres são cortados, ficam sob pesados sacos de areia durante horas, até que as patas, inchadas, são mergulhadas em aguarrás para que eles não consigam ficar parados devido à extrema ardência. Seus olhos são untados com vaselina e para empurrá-los para o corredor, espetam-nos repetidas vezes. O touro, já enfraquecido, aterrorizado e enxergando apenas cores fortes e quentes, corre na direção do que julga ser a saída, onde é recebido pelos gritos da multidão. A tourada, um jogo de celebração da morte, divide-se em três etapas de tortura do animal. Cada uma cheia de truques e recursos para enganar o público de que o toureiro é que é o herói corajoso e destemido. Após a execução, "el matador" empina os quadris, faz caras e bocas e sorri, orgulhoso, para uma platéia que prefere não levar em conta que o animal já entrou quase morto na arena. Obviamente justifica-se tudo como "expressão da cultura espanhola" para mascarar a sofisticada tortura dos animais e tratá-la como algo natural e até apreciável. O estigma de bárbaros, no entanto, não está só no povo espanhol. Está um pouco em cada um de nós. E em Gisele Bündchen, sim. Por que não?
--- (sobre o artigo de Marco Frenette, "O Balé da Morte Lenta", in rev. "Bravo!", 2002.)
A tauromaquia é praticada na Espanha desde o séc. 18, e no séc. 19 atingiu um alto grau de profissionalismo e controle estatal. No séc. 20 foram realizadas mais de 31 mil touradas oficiais, todas envolvendo a tortura e morte de touros. Paixão nacional, o evento mobiliza multidões, elevadas somas em dinheiro, a mídia, criadores e empresários e profissionais especializados na construção e manutenção de arenas. Toureiros e fabricantes de novos modelos de espadas costumam reunir-se em sigilo para discutir a qualidade das armas, testando-as em novilhos. Enquanto os animais agonizam, eles avaliam o grau de facilidade e dificuldade com que elas penetraram na carne. Não menos terrível é a preparação dos touros para o dia do espetáculo. Seus chifres são cortados, ficam sob pesados sacos de areia durante horas, até que as patas, inchadas, são mergulhadas em aguarrás para que eles não consigam ficar parados devido à extrema ardência. Seus olhos são untados com vaselina e para empurrá-los para o corredor, espetam-nos repetidas vezes. O touro, já enfraquecido, aterrorizado e enxergando apenas cores fortes e quentes, corre na direção do que julga ser a saída, onde é recebido pelos gritos da multidão. A tourada, um jogo de celebração da morte, divide-se em três etapas de tortura do animal. Cada uma cheia de truques e recursos para enganar o público de que o toureiro é que é o herói corajoso e destemido. Após a execução, "el matador" empina os quadris, faz caras e bocas e sorri, orgulhoso, para uma platéia que prefere não levar em conta que o animal já entrou quase morto na arena. Obviamente justifica-se tudo como "expressão da cultura espanhola" para mascarar a sofisticada tortura dos animais e tratá-la como algo natural e até apreciável. O estigma de bárbaros, no entanto, não está só no povo espanhol. Está um pouco em cada um de nós. E em Gisele Bündchen, sim. Por que não?
--- (sobre o artigo de Marco Frenette, "O Balé da Morte Lenta", in rev. "Bravo!", 2002.)
22.11.02
Às três horas de uma manhã inquieta sonhei que a figura de um demônio com cabeça de galo, barriga descomunal e rabo cheio de nós me avisava que as formigas tinham uma missão. Que cada formiga tem uma missão. E como ele mais não detalhou, só ficava repetindo isso vezes sem conta, acabei me desinteressando e acordei. Eu havia suado muito e tive de me levantar para trocar de roupa. Sentada na privada, eu não conseguia mais dormir. Acendi um cigarro e peguei o caderno do penúltimo domingo para ler. Minha cabeça pesava. O coração batia acelerado. As letras se embaralhavam na minha frente. Desviei os olhos para o chão frio e vi a mesma fila de formigas de sempre. Rumando para o box. Eu as acompanhei. A formiga sempre foi um símbolo de organização, industriosidade e previdência. Antigos ritos de fecundidade eram associados à formiga: toda mulher estéril devia sentar-se em cima de um formigueiro para tornar-se fecunda. A terra de um formigueiro simbolizava a energia circulando nas entranhas da terra. Isso foi há muito tempo. Hoje, como se controladas por computador e alimentadas com drogas letárgicas, elas não passam de predadoras indestrutíveis designadas para fazer da Terra o seu posto avançado. Pouco a pouco elas invadiram comunidades pacatas, desertos inabitáveis, palácios reais, os quatro ângulos da Terra. O perecível e o imperecível. Por mais que as esmaguemos, elas se reproduzem a cada vez com mais vigor. Quanto mais as vaporizamos, mais elas mutam. Um dia elas pedirão a minha cabeça e eu não vou poder fazer nada. Um dia, em algum ponto do círculo, eu vou acordar e encontrar o mundo todo roído. Cuspida por um gêiser, descobrirei que nem a Islândia foi poupada. Nesse dia, eu vou deixar o medo de lado e me oferecer inteira ao doce repasto de minha rainha.
18.11.02
Jack Kerouac
NUM HORRÍVEL APOSENTO em Nova York, toda a minha família, composta por mamãe, papai & Nin e eu, se instala e "todos conseguiram emprego" -- aqui dentro já é noite, e há uma única luz, muito fraca, acesa -- a gente conversa, mas é um papo meio esquisito -- parece que não sei o que faço e sem querer, ou por descuido (porque não sinto medo da raiva das mulheres da família e já me esqueci da de meu pai; faz tanto tempo que ele morreu), começo a enrolar um baseado, continuando a falar com eles uma porção de maluquices, empolgado, louco (por causa da erva); nem sequer prestam atenção, preferindo debater solenemente a meu respeito, até que meu pai se levanta e pergunta: "Mas ele não tem medo da maconha? Hem?" se aproximando de mim -- vejo que vem vindo e fico cego, a escuridão toma conta por completo da cena, mas sinto, contudo, a mão dele no meu braço; é possível que tenha um machado, qualquer coisa, e não consigo enxergar -- caio desmaiado feito morto no escuro, com um rugido que me acorda e impede que seja encontrado morto (se é que existe uma coisa como a morte) de manhã, na cama -- pois meu sangue parou de palpitar quando o Viajante Amortalhado cravou finalmente as garras em mim -- se aproxima cada vez mais -- agora já sei como fugir dele -- não me preocupando nem acreditando na vida ou na morte, se é que isso pode ser possível num humilde Pratyeka a essa altura.
-- Em "O Livro dos Sonhos".
17.11.02
Drummond
Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite
é tempo sem hora
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba
veludo escondido
na pele enrugada
água pura, ar puro
puro pensamento.
Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
- mistério profundo -
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.
(Drummond, "Para Sempre")
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite
é tempo sem hora
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba
veludo escondido
na pele enrugada
água pura, ar puro
puro pensamento.
Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
- mistério profundo -
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.
(Drummond, "Para Sempre")
15.11.02
Nelson Rodrigues
Quando ando de táxi, sinto uma euforia absurda e terrível. Isso vem de longe, vem de minha infância profunda. Bem me lembro dos meus seis, sete anos. Meu pai deu um passeio de táxi, com toda a família; e eu, na frente, ao lado do chauffeur,teci toda uma fantasia de onipotência. Repito: o táxi ainda me compensa de velhas e santas humilhações.
O ônibus, não. Quando ando de ônibus (e às vezes só tenho o dinheiro contadinho do ônibus), viajo como um ofendido e sou, realmente, um desfeiteado. É uma promiscuidade tão abjeta, que eu diria: o ônibus apinhado é o túmulo do pudor. "Exagero", dirão. Paciência. Mas quando eu passava fome, queria ser rico, e não para ter palácios ou andar de Mercedes. A minha obsessão nunca foi a Mercedes, nunca foi o palácio. Simplesmente, queria andar de táxi e nada mais.
14.11.02
Há dentro de mim uma paisagem
entre meio-dia e duas horas da tarde.
Meu coração bate desamparado
onde minhas pernas se juntam.
Uma noite me dei conta de que possuía uma história
e de que era monótona com sua fieira de lábios, narizes,
modos de voz e gesto repetindo-se.
O que existe são coisas, não palavras.
Granito, lápide, crepe
nuvem, saudades, lembranças.
Em todo enterro choro com um olho só,
com o outro acho coisas no meu sonho:
os toquinhos de vela crepitam e morrem.
Quando eu sofria dos nervos
fiz curso de filosofia pra escovar o pensamento,
não valeu.
De dentro da geometria
Deus me olha e me causa terror.
As formigas passeiam na parede, sobre
a cômoda, num quarto
Elas querem me matar, me comer, me cagar.
Eu sei escrever.
Escrevo cartas, bilhetes, listas de compras
Assim escrevo: tarde. Não a palavra.
A coisa.
--- Montagem criada a partir de versos isolados de Adélia Prado ("Poesias Reunidas").
entre meio-dia e duas horas da tarde.
Meu coração bate desamparado
onde minhas pernas se juntam.
Uma noite me dei conta de que possuía uma história
e de que era monótona com sua fieira de lábios, narizes,
modos de voz e gesto repetindo-se.
O que existe são coisas, não palavras.
Granito, lápide, crepe
nuvem, saudades, lembranças.
Em todo enterro choro com um olho só,
com o outro acho coisas no meu sonho:
os toquinhos de vela crepitam e morrem.
Quando eu sofria dos nervos
fiz curso de filosofia pra escovar o pensamento,
não valeu.
De dentro da geometria
Deus me olha e me causa terror.
As formigas passeiam na parede, sobre
a cômoda, num quarto
Elas querem me matar, me comer, me cagar.
Eu sei escrever.
Escrevo cartas, bilhetes, listas de compras
Assim escrevo: tarde. Não a palavra.
A coisa.
--- Montagem criada a partir de versos isolados de Adélia Prado ("Poesias Reunidas").
13.11.02
Maiakovski
Da paixão de um cocheiro e de uma lavadeira
Tagarela, nasceu um rebento raquítico.
Filho não é bagulho, não se atira na lixeira.
A mãe chorou e o batizou: crítico.
O pai, recordando sua progenitura,
Vivia a contestar os maternais direitos.
Com tais boas maneiras e tal compostura
Defendia o menino do pendor à sarjeta.
Assim como o vigia cantava a cozinheira,
A mãe cantava, a lavar calça e calção.
Dela o garoto herdou o cheiro de sujeira
E a arte de penetrar fácil e sem sabão.
Quando cresceu, do tamanho de um bastão,
Sardas na cara como um prato de cogumelos,
Lançaram-no, com um leve golpe de joelho,
À rua, para tornar-se um cidadão.
Será preciso muito para ele sair da fralda?
Um pedaço de pano, calças e um embornal.
Com o nariz grácil como um vintém por lauda
Ele cheirou o céu afável do jornal.
E em certa propriedade um certo magnata
Ouviu uma batida suavíssima na aldrava,
E logo o crítico, da teta das palavras
Ordenhou as calças, o pão e uma gravata.
Já vestido e calçado, é fácil fazer pouco
Dos jogos rebuscados dos jovens que pesquisam,
E pensar: quanto a estes, ao menos, é preciso
Mordiscar-lhes de leve os tornozelos loucos.
Mas se se infiltra na rede jornalística
Algo sobre a grandeza de Puchkin ou Dante,
Parece que apodrece ante a nossa vista
Um enorme lacaio, balofo e bajulante.
Quando, por fim, no jubileu do centenário,
Acordares em meio ao fumo funerário,
Verás brilhar na cigarreira-souvenir o
Seu nome em caixa alta, mais alvo do que um lírio.
Escritores, há muitos. Juntem um milhar.
E ergamos em Nice um asilo para os críticos.
Vocês pensam que é mole viver a enxaguar
A nossa roupa branca nos artigos?
--- "Hino ao Crítico", 1915.
Tagarela, nasceu um rebento raquítico.
Filho não é bagulho, não se atira na lixeira.
A mãe chorou e o batizou: crítico.
O pai, recordando sua progenitura,
Vivia a contestar os maternais direitos.
Com tais boas maneiras e tal compostura
Defendia o menino do pendor à sarjeta.
Assim como o vigia cantava a cozinheira,
A mãe cantava, a lavar calça e calção.
Dela o garoto herdou o cheiro de sujeira
E a arte de penetrar fácil e sem sabão.
Quando cresceu, do tamanho de um bastão,
Sardas na cara como um prato de cogumelos,
Lançaram-no, com um leve golpe de joelho,
À rua, para tornar-se um cidadão.
Será preciso muito para ele sair da fralda?
Um pedaço de pano, calças e um embornal.
Com o nariz grácil como um vintém por lauda
Ele cheirou o céu afável do jornal.
E em certa propriedade um certo magnata
Ouviu uma batida suavíssima na aldrava,
E logo o crítico, da teta das palavras
Ordenhou as calças, o pão e uma gravata.
Já vestido e calçado, é fácil fazer pouco
Dos jogos rebuscados dos jovens que pesquisam,
E pensar: quanto a estes, ao menos, é preciso
Mordiscar-lhes de leve os tornozelos loucos.
Mas se se infiltra na rede jornalística
Algo sobre a grandeza de Puchkin ou Dante,
Parece que apodrece ante a nossa vista
Um enorme lacaio, balofo e bajulante.
Quando, por fim, no jubileu do centenário,
Acordares em meio ao fumo funerário,
Verás brilhar na cigarreira-souvenir o
Seu nome em caixa alta, mais alvo do que um lírio.
Escritores, há muitos. Juntem um milhar.
E ergamos em Nice um asilo para os críticos.
Vocês pensam que é mole viver a enxaguar
A nossa roupa branca nos artigos?
--- "Hino ao Crítico", 1915.
12.11.02
Federico Garcia Lorca
Calar e consumir-se é o maior castigo a que podemos nos condenar. De que me serviu a mim o orgulho, e o não te olhar, e o deixar-te acordada noites e noites? De nada! Serviu para abrasar-me. Porque tu acreditas que o tempo cura e as paredes tapam, e não é verdade, não é verdade! Quando as coisas chegam ao fundo, não há quem as arranque!
(...)
Que vidros cravam minha língua presa!
Porque eu te quis esquecer,
e pus um muro de pedra
entre a tua casa e a minha.
É verdade. --- Não te lembras?
E quando te vi de longe,
enchi meus olhos de areia.
Mas, se montava a cavalo,
em tua porta me achava ---
Tornou-se o sangue negro,
com alfinetes de prata.
E o sonho me foi cobrindo
as carnes de erva daninha.
Pois a culpa não é minha.
A culpa, a culpa é da terra
e do cheiro que desprendem
teus peitos e tuas tranças.
--- Em "Bodas de Sangue".
(...)
Que vidros cravam minha língua presa!
Porque eu te quis esquecer,
e pus um muro de pedra
entre a tua casa e a minha.
É verdade. --- Não te lembras?
E quando te vi de longe,
enchi meus olhos de areia.
Mas, se montava a cavalo,
em tua porta me achava ---
Tornou-se o sangue negro,
com alfinetes de prata.
E o sonho me foi cobrindo
as carnes de erva daninha.
Pois a culpa não é minha.
A culpa, a culpa é da terra
e do cheiro que desprendem
teus peitos e tuas tranças.
--- Em "Bodas de Sangue".
Jorge Luis Borges
Se não existe emoção, não pode existir poesia. Tampouco há necessidade de que haja esta poesia. Assim, eu diria que se escreve ungido pela emoção e melhor seria tentar desencorajar a emoção, porque se um tema não nos deixa sossegados, então o escrevemos para nos livrar dele ou, como disse Reyes, para que não passemos a vida corrigindo rascunhos.
(...)
O escritor deve ser submisso e não convém que tente compreender demais o que está fazendo, porque qualquer ato consciente pode deitar a perder a obra.
-8.11.02
Era uma vez uma cidade maravilhosa
cheia de praias, praças e mulheres gostosas
cidade bela vislumbrada pelo mundo inteiro
quem não conhece o famoso Rio de Janeiro
bonde, corcovado, cristo redentor
praia de Copacabana e circo voador
lugares bonitos que atraem os turistas
mas somente o que convém é o que mostram as revistas
e em nossas vistas
do outro lado o sangue tem manchado
nossos cartões-postais, nossos cartões-postais
quadrilhas rivais, matanças brutais
por isso e por outras coisas nem turistas tem mais
o que acontece aqui e lá, pá, pá, pá
tem influência no país inteiro, ra-tá-tá
um quarto mundo dentro de um terceiro
barril de pólvora pra explodir cadê meu isqueiro?
de São Paulo ao Rio são só 6 horas
é logo ali aliado não demora
e a chacina impera onde a lei não vigora
cartão-postal do futuro de agora
o pouco que ele passa estou certo não agrada ninguém
mas se o que mostra for verdade está tudo bem
bem te faço um convite, mas escuta o que falo
bem-vindo ao Rio, bem-vindo a São Paulo
a nossa vida desse modo está por um fio
bem-vindo a São Paulo, bem-vindo ao Rio
não tente viver um dia no Vietnã do Brasil
não tente viver um dia no Vietnã do Brasil
--- Pavilhão 9, fragmento do rap "Vietnã do Brasil".
cheia de praias, praças e mulheres gostosas
cidade bela vislumbrada pelo mundo inteiro
quem não conhece o famoso Rio de Janeiro
bonde, corcovado, cristo redentor
praia de Copacabana e circo voador
lugares bonitos que atraem os turistas
mas somente o que convém é o que mostram as revistas
e em nossas vistas
do outro lado o sangue tem manchado
nossos cartões-postais, nossos cartões-postais
quadrilhas rivais, matanças brutais
por isso e por outras coisas nem turistas tem mais
o que acontece aqui e lá, pá, pá, pá
tem influência no país inteiro, ra-tá-tá
um quarto mundo dentro de um terceiro
barril de pólvora pra explodir cadê meu isqueiro?
de São Paulo ao Rio são só 6 horas
é logo ali aliado não demora
e a chacina impera onde a lei não vigora
cartão-postal do futuro de agora
o pouco que ele passa estou certo não agrada ninguém
mas se o que mostra for verdade está tudo bem
bem te faço um convite, mas escuta o que falo
bem-vindo ao Rio, bem-vindo a São Paulo
a nossa vida desse modo está por um fio
bem-vindo a São Paulo, bem-vindo ao Rio
não tente viver um dia no Vietnã do Brasil
não tente viver um dia no Vietnã do Brasil
--- Pavilhão 9, fragmento do rap "Vietnã do Brasil".
Quando te encontrei, de que país estranho foi que imaginei mesmo que tu acabavas de regressar? (Emílio Moura)
Hoje em dia eu sei que o louco é aquele que se deixa afogar pelos símbolos do seu inconsciente, mas houve um tempo em que eu achava que cada um era de um jeito, e eu tinha o meu. Simples assim. Blake, por exemplo, gostava de desenhar pulgas. Ou melhor, espectros de pulgas. Isso mesmo, fantasmas de pulgas. Demóstenes, o mestre da oratória, para conseguir uma perfeita articulação das palavras, costumava encher a boca de pedrinhas, ia para a beira do mar e ficava lá duelando com o barulho das ondas para treinar os seus discursos. Lope de Vega passou a vida escrevendo cerca de 1.800 comédias e outras tantas centenas de histórias. Era tão profícuo que Cervantes o chamava de "monstro da natureza". Pascal, por sua vez, cismava que humor e ironia na literatura eram sinais de mau caráter. Zoilo, antigo crítico dos poemas de Homero, era um comentarista tão azedo e invejoso que ficou para a posteridade como um crítico faccioso e medíocre. Rui Barbosa, sempre vigilante nos cuidados com o vernáculo, fazia de tudo para evitar o encontro de consoantes dentais. Em vez de "dentro do", tascava um "dentro no". Já Cassiano Ricardo chegou a não admitir a existência do verso livre: "Basta ser livre pra não ser verso." Manias? Loucura? Pode ser. Tem gente cuja profissão é estudar o ritmo na poesia clássica antiga. Eles se orgulham de saber que o verso aristofânio são 2 dímetros anapésticos, separados por diérese e dos quais o segundo deve ser catalético. Se você lhes mostrar um verso como "Vejo-te, mísero ser", para eles isso não passa de uma tripódia catalética em 1 sílaba. Ainda bem que o verso livre nos livrou disso tudo. Cada um tem o seu jeito, eu tenho o meu. Posso passar horas dentro de uma livraria ou um sebo. Esqueço da vida. Tenho curiosidade de ler coisas como "Frívola City", de João do Rio, "Mixuangos", de Valdomiro Silveira, e a canção do Boi Surubi. Alguém já ouviu falar de Quinto Cúrcio?
Hoje em dia eu sei que o louco é aquele que se deixa afogar pelos símbolos do seu inconsciente, mas houve um tempo em que eu achava que cada um era de um jeito, e eu tinha o meu. Simples assim. Blake, por exemplo, gostava de desenhar pulgas. Ou melhor, espectros de pulgas. Isso mesmo, fantasmas de pulgas. Demóstenes, o mestre da oratória, para conseguir uma perfeita articulação das palavras, costumava encher a boca de pedrinhas, ia para a beira do mar e ficava lá duelando com o barulho das ondas para treinar os seus discursos. Lope de Vega passou a vida escrevendo cerca de 1.800 comédias e outras tantas centenas de histórias. Era tão profícuo que Cervantes o chamava de "monstro da natureza". Pascal, por sua vez, cismava que humor e ironia na literatura eram sinais de mau caráter. Zoilo, antigo crítico dos poemas de Homero, era um comentarista tão azedo e invejoso que ficou para a posteridade como um crítico faccioso e medíocre. Rui Barbosa, sempre vigilante nos cuidados com o vernáculo, fazia de tudo para evitar o encontro de consoantes dentais. Em vez de "dentro do", tascava um "dentro no". Já Cassiano Ricardo chegou a não admitir a existência do verso livre: "Basta ser livre pra não ser verso." Manias? Loucura? Pode ser. Tem gente cuja profissão é estudar o ritmo na poesia clássica antiga. Eles se orgulham de saber que o verso aristofânio são 2 dímetros anapésticos, separados por diérese e dos quais o segundo deve ser catalético. Se você lhes mostrar um verso como "Vejo-te, mísero ser", para eles isso não passa de uma tripódia catalética em 1 sílaba. Ainda bem que o verso livre nos livrou disso tudo. Cada um tem o seu jeito, eu tenho o meu. Posso passar horas dentro de uma livraria ou um sebo. Esqueço da vida. Tenho curiosidade de ler coisas como "Frívola City", de João do Rio, "Mixuangos", de Valdomiro Silveira, e a canção do Boi Surubi. Alguém já ouviu falar de Quinto Cúrcio?
7.11.02
Olavo Bilac
"Não faça notícias. A notícia embota. Ataque as instituições, desmantele a sociedade, conflagre o país, excite os poderes públicos, revolte o comércio, assanhe as indústrias, enfureça as classes operárias, subleve os escravos, mas não escreva uma linha, uma palavra sobre notas policiais, nem faça reclamos. Mantenha-se artista: nem escriba nem camelote. (...) O livro fica, o jornal passa e raramente deixa vestígio. O artigo do dia mata o artigo da véspera, a opinião de hoje prevalece, a de ontem morre, mas com o artista consciencioso, não. Demais, meu amigo, egoísmo antes de tudo: o jornal é o redator político... o mais... que vale? Fica-se sempre à sombra, por mais que se faça. Não vale a pena. O trabalho de um ano no jornal não vale uma página requintada de um livro d'Arte."
--- Olavo Bilac, aconselhando o escritor Coelho Netto.
4.11.02
Joseph Conrad
... a maioria dos marujos leva, por assim dizer, uma vida sedentária. Eles sempre se sentem em casa, pois sua casa sempre os acompanha -- o navio; bem como seu país -- o mar. Um navio é muito parecido com outro, e o mar é sempre o mesmo. Num ambiente imutável, os litorais estrangeiros, as fisionomias estrangeiras, a variada imensidão da vida -- tudo passa imperceptível, velado não por um misterioso sentido, mas por uma ignorância levemente desdenhosa; pois não existe mistério para um homem do mar, a não ser o próprio mar, que é senhor de sua existência e inescrutável como o Destino. Quanto ao resto, nas suas horas de folga, uma caminhada casual, ou uma eventual bebedeira em terra bastam para revelar-lhe o segredo de todo um continente -- e geralmente acha que o segredo não vale a pena ser conhecido. As histórias dos homens do mar têm uma simplicidade direta, cujo significado cabe inteiramente na casca de uma noz partida.
1.11.02
Virginia Woolf
Domingo, 29 de dezembro
---- Virginia Woolf, em seus "Diários", três meses antes de cometer o suicídio em 1941.
Há momentos em que a vela trapeia. Depois, como sou grande amante da arte da vida, decidida a chupar minha laranja, sugá-la, como uma vespa se a flor em que pousei murchar, & murchou ontem --- cavalgo as colinas até o penhasco. Um rolo de arame farpado cerca a beira. Friccionei minha cabeça energicamente ao longo da estrada de Newhaven. Velhas solteiras andrajosas comprando em mercearias, naquela estrada erma com as villas; debaixo de chuva. E Newhaven arruinada. Mas que se canse o corpo & a cabeça dorme. Toda a vontade de escrever no diário se perdeu. Qual é o antídoto mais adequado? Preciso farejá-lo por aí. Penso em Mme de Sevigné. Escrever haverá de ser um prazer diário. Charleston mudo; Leslie sonoro. Os Anrep almoçaram. Detesto a dureza da velhice --- sinto-a. Irrito. Sou ácida.
The foot less prompt to meet the morning dew,
The hert less bounding at emotion new,
And hope, once crush'd, less quick to spring again.
Na realidade abri Matthew Arnold & copiei estes versos. Ao copiá-lo, ocorreu-me a idéia de que a razão por que desgosto, & gosto, de tantas coisas de maneira tão idiossincrática agora é que vou me desprendendo cada vez mais da hierarquia, do patriarcado. Quando Desmond elogia East Coker, & fico enciumada, caminho pelo pântano dizendo: eu sou eu; & tenho de seguir este sulco, não copiar outro. Esta é a única justificação para meu escrever & viver.
Como saboreio a comida agora: faço refeições imaginárias.
---- Virginia Woolf, em seus "Diários", três meses antes de cometer o suicídio em 1941.
31.10.02
Gustavo Lisboa
"Mar é moto contínuo/ dentro da alma sem paz." Gustavo Lisboa não é muderno, muito menos pós-moderno, mas escreve como quem sonha. Hoje, dia 31, aniversário de Drummond, leio os poemas dispersos de Gustavo Lisboa organizados em uma pequena coletânea chamada "Azul" que ele me enviou por e-mail. Como "anonimato pouco é bobagem", tomei a liberdade de publicar aqui um dos seus textos.
"Tardíssima tarde de inverno: azul esfregado
no céu, nuvens rápidas e inóspitas, a cidade
e seus seres, carros, ônibus, lixo nas calçadas,
escrevo sob um teto indiferente, décimo andar.
No sonho não me realizo, o leito é desprezado
pela amante incompleta, ela é só irrealidade;
ontem, o abraço inútil, a alma também ignorada:
hoje escrevo, olhando a vida e seu repassar.
Breve, não breve, irei sair na noite por ali e acolá;
breve, não leve, vestirei o casaco da noite fria:
avenidas, sonhos, luzes, bares, calçadas, becos,
Porto Alegre, oito graus, mais frio em Santa Maria,
onde já refiz variadamente o trajeto do vinho seco:
Porto Alegre, inverno, julho, um úmido qualquer já."
30.10.02
Beowulf precisou de 3.183 versos para relatar suas façanhas heróicas no início da época medieval. Foi modesto. Mesmo depois de velho e caquético, o rei lutava com monstros, dragões e sereias igualmente monstruosas. Já os franceses, bem mais verborrágicos, lançaram mão de 30.000 versos para fechar o "Romance de Tróia" pela pena de Benoit de Sainte More. Me recuso a ler tanto papel. Quem tem tempo pra isso hoje em dia? A "Divina Comédia" por sua vez tem 100 cantos. Um repositório de conhecimentos enciclopédicos, só esta frase me dá preguicinha. Nunca li a obra-prima de Dante de cabo a rabo. Toda vez que a via pela frente ficava em dúvida se começava pelo Inferno, pelo Purgatório ou pelo Paraíso. Verdade que a inscrição da porta do Inferno sempre me atraiu mais: "Lasciati ogni speranza, voi ch' entrate!", o que significa mais ou menos "tirem o cavalinho da chuva daqui para a frente". Grande coisa. Os melhores ficavam no Limbo: Sócrates, Platão, Homero e o resto da galera. Como estou bocejando e este post já está ficando extenso demais, escolho pra ler uns poeminhas safados e de tamanho bem mais conveniente, o que os sofisticados gostam de chamar de haicai.
"troco um chumaço de poesia pelo amor da macaca
sou um romântico cubalibre dançando conforme a lua"
(de Charles, em "Perpétuo Socorro")
"beijos fecham a mala
o trem parte mudo
eu, poeta, apagado no cinzeiro
sem a coragem das noites
sem a alma dos vagabundos
logo eu
pronto por não ter planos maiores
que três versos faltando num poema maluco
enterrado no bolso sem um aceno
alheio à cor das bandeiras
tremendo que nem assovio
o trem parte mudo
eu canto fora dos trilhos"
(de Ronaldo Santos, em "14 bis").
"troco um chumaço de poesia pelo amor da macaca
sou um romântico cubalibre dançando conforme a lua"
(de Charles, em "Perpétuo Socorro")
"beijos fecham a mala
o trem parte mudo
eu, poeta, apagado no cinzeiro
sem a coragem das noites
sem a alma dos vagabundos
logo eu
pronto por não ter planos maiores
que três versos faltando num poema maluco
enterrado no bolso sem um aceno
alheio à cor das bandeiras
tremendo que nem assovio
o trem parte mudo
eu canto fora dos trilhos"
(de Ronaldo Santos, em "14 bis").
Álvares de Azevedo
É belo dentre a cinza ver ardendo
Nas mãos do fumador um bom cigarro,
Sentir o fumo em névoas rescendendo,
Do cachimbo alemão no louro barro
Ver a chama vermelha estremecendo
E até...perdoem... respirar-lhe o sarro!
Porém o que há mais doce nesta vida,
O que das mágoas desvanece o luto
E dá som a uma alma empobrecida,
Palavra d' honra, és tu, ó meu charuto!
--- "Terza Rima".
Nas mãos do fumador um bom cigarro,
Sentir o fumo em névoas rescendendo,
Do cachimbo alemão no louro barro
Ver a chama vermelha estremecendo
E até...perdoem... respirar-lhe o sarro!
Porém o que há mais doce nesta vida,
O que das mágoas desvanece o luto
E dá som a uma alma empobrecida,
Palavra d' honra, és tu, ó meu charuto!
--- "Terza Rima".
28.10.02
Caetano Veloso
e era nada de nem noite de nego não
e era nê de nunca mais
e era noite de nê nunca de nada mais
e era nem de negro não
porém parece que a golpes de pê
de pé de pão
de parecer poder
(e era não de nada nem)
pipoca ali pipoca aqui
pipoca além
desanoitece a manhã
tudo mudou
---- "Pipoca Moderna".
e era nê de nunca mais
e era noite de nê nunca de nada mais
e era nem de negro não
porém parece que a golpes de pê
de pé de pão
de parecer poder
(e era não de nada nem)
pipoca ali pipoca aqui
pipoca além
desanoitece a manhã
tudo mudou
---- "Pipoca Moderna".
Félix de Athayde
brasil não finda em abril
há outubros
o tempo é trabalho do homem
de tempo em tempo o tempo
dá um salto
como tudo que é vivo e pássaro
brasil não finda em abril
há muito tempo pela frente
outubro pode vir em maio ou dezembro
é questão de não se perder tempo
volta a viver teu dia
como se vivesses uma mulher
trabalhando todas as partes do seu corpo
brasil não finda em abril
nem finda em mim nem em ti
há outubros e há outros outros
além de nós que sabem
no amor e no ódio
que o tempo é a esperança dos homens
há outubro
--- "Há Outubros".
há outubros
o tempo é trabalho do homem
de tempo em tempo o tempo
dá um salto
como tudo que é vivo e pássaro
brasil não finda em abril
há muito tempo pela frente
outubro pode vir em maio ou dezembro
é questão de não se perder tempo
volta a viver teu dia
como se vivesses uma mulher
trabalhando todas as partes do seu corpo
brasil não finda em abril
nem finda em mim nem em ti
há outubros e há outros outros
além de nós que sabem
no amor e no ódio
que o tempo é a esperança dos homens
há outubro
--- "Há Outubros".
21.10.02
D. H. Lawrence
A indecência pode ser normal, saudável.
Na verdade, um pouco de indecência é necessário em toda vida
para a manter normal, saudável.
E um pouco de putaria pode ser normal, saudável.
Na verdade, um pouco de putaria é necessário em toda vida
para a manter normal, saudável.
Mesmo a sodomia pode ser normal, saudável,
desde que haja troca de sentimento verdadeiro.
Mas se alguma delas for para o cérebro, aí se torna perniciosa:
a indecência no cérebro se torna obscena, viciosa,
a putaria no cérebro se torna sifilítica
e a sodomia no cérebro se torna uma missão,
tudo vício, missão, insanamente mórbido.
Do mesmo modo, a castidade na hora própria é normal e bonita.
Mas a castidade no cérebro é vício, perversão.
E a rígida supressão de toda e qualquer indecência, putaria e relações assim
leva direto a furiosa insanidade.
E a quinta geração de puritanos, se não for obscenamente depravada,
é idiota. Por isso, você tem de escolher.
--- "A Indecência Pode Ser Saudável".
Na verdade, um pouco de indecência é necessário em toda vida
para a manter normal, saudável.
E um pouco de putaria pode ser normal, saudável.
Na verdade, um pouco de putaria é necessário em toda vida
para a manter normal, saudável.
Mesmo a sodomia pode ser normal, saudável,
desde que haja troca de sentimento verdadeiro.
Mas se alguma delas for para o cérebro, aí se torna perniciosa:
a indecência no cérebro se torna obscena, viciosa,
a putaria no cérebro se torna sifilítica
e a sodomia no cérebro se torna uma missão,
tudo vício, missão, insanamente mórbido.
Do mesmo modo, a castidade na hora própria é normal e bonita.
Mas a castidade no cérebro é vício, perversão.
E a rígida supressão de toda e qualquer indecência, putaria e relações assim
leva direto a furiosa insanidade.
E a quinta geração de puritanos, se não for obscenamente depravada,
é idiota. Por isso, você tem de escolher.
--- "A Indecência Pode Ser Saudável".
20.10.02
Ana Cristina Cesar
Me deu uma dor forte de repente e eu disse -- me leva para o hospital.
O casal do lado me levou no carro.
Tinha fila na emergência. Eu fiquei chorando e espiando a folia que não quero contar como é que era. Quando voltei ele estava pálido e contou que tinha desmaiado.
Ele é tão grande e mesmo com dor eu ia pôr no colo. Fiquei sabendo melhor como é o desmaio.
Você não apaga -- acende uma velocidade de sonho sólido, e você vê Tudo num minuto. Até a sala de ópio com Fats Waller cantando Two Sleepy People em câmera bem lenta: no coração de Paris uma câmara de sonho oriental, tapetes persas fechando as paredes e almofadas fechando os olhos como no paraíso. Você pode também sentar de novo na Place des Vôges, que é perfeita, cartão postal mágico voador. Parece que você vê e pega, ou fica completamente dentro. Não é uma esponja nem uma bagatela. Até a travessia do canal, ou a primeira vez que alguém te cobriu de beijos, ou o nervoso de perder o trem por dois minutos. É um cinema hipnótico, sem pernas. Não é vago.
--- Em "Luvas de Pelica".
15.10.02
Rio em preto-e-branco
Nos anos 1930, o aluguel de um apartamento mobiliado na Cinelândia (centro do Rio) custava 400 mil réis. Na época, só uma elite emergente podia morar bem nessas vizinhanças. Um médico bem-sucedido podia ganhar 1:500.000 ( 1 conto e 500 mil réis), um operário têxtil ganhava 240 mil réis por mês e uma empregada doméstica, 120 mil. O quilo de arroz custava no mínimo 500 réis, o açúcar, 700; o bacalhau, 2.100; café, 2.400; carne de primeira e frango, 2.000; feijão preto, 500; leite, 800 o litro, e ovos, 2.200 a dúzia. Já um par de sapatos de pelica, modelo Luís XV, para moças de fino trato chegava a custar 36 mil réis. Nessa época o rádio e a propaganda incentivavam os "novos" hábitos: "Não há mais belo destino para um cigarro do que o de luzir, como um astro, nos lábios de uma mulher bonita." Nas ruas trafegavam os ônibus de dois andares, os "chope-duplo", os táxis passaram a calcular a corrida por taxímetros e ganhou popularidade o hábito de se tomar café em pé, no balcão. No comércio estabelece-se o "horário comercial" e as vendas são incrementadas com a introdução do crediário. Um grande número de mendigos "transfere-se" para São Paulo, alegando que lá serão tratados com mais civilidade, pois um decreto recém-criado os protegia da polícia. Dizia-se que alguns chegaram a fazer fortunas só de pedir esmolas. Nas farmácias podia-se comprar 5 gramas de cocaína malhada a 2.000 réis, e uma ampola de heroína custava 1.500. Na Lapa bebia-se cerveja por 1.100 a garrafa. Com seus casarões antigos de paredes enegrecidas, seus bares, restaurantes, cabarés e bordéis, a Lapa era ponto de encontro de intelectuais e artistas. Freqüentavam a Lapa Plínio Salgado, San Tiago Dantas, Noel Rosa, Assis Valente, Heitor dos Prazeres, Cartola, Nelson Cavaquinho, Francisco Alves, Araci de Almeida, Jorge Amado, Cândido Portinari, Villa-Lobos, Sérgio Buarque de Holanda, Rubem Braga, Mário de Andrade, Manuel Bandeira, Madame Satã, um dos mitos do bas-fond, e muitos outros. No final dos anos 1930 a polícia do Estado Novo fechou todos os bordéis da Lapa, decidida a acabar violentamente com a prostituição na Capital Federal. Nos anos 1940, o bairro entra em franca decadência devido à Segunda Guerra Mundial. A Lapa é invadida por marinheiros americanos vomitando dólares e pelos "falsos malandros", deixando de ser a partir daí a Montmartre carioca.
14.10.02
Torquato Neto
o poeta nasce feito
assim como dois mais dois
; se por aqui me deleito
é por questão de depois
a glória canta na cama
faz poemas, enche a cara
mas é com quem mais se ama
que a gente mais se depara
ou seja:
quarenta a sete quilates
sessenta e nove tragadas
vinte e sete sonhos, noites,
calmas, desperdiçadas.
saiba, ronaldo, acontece
uma vez em qualquer vida:
as teias que a gente tece
abrem sempre uma ferida
no canto esquerdo do riso?
no lado torto da gente?
talvez.
o que mais forte preciso
não sei sequer se é urgente.
nem sei se eu sou o caso
que mais mereço entender -
de qualquer forma, o A-caso
me deixa tonto. e querer
não é sentar, ter na mesa
uma questão de depois:
é, melhor, ver com certeza
quem imagina um mais dois.
-
assim como dois mais dois
; se por aqui me deleito
é por questão de depois
a glória canta na cama
faz poemas, enche a cara
mas é com quem mais se ama
que a gente mais se depara
ou seja:
quarenta a sete quilates
sessenta e nove tragadas
vinte e sete sonhos, noites,
calmas, desperdiçadas.
saiba, ronaldo, acontece
uma vez em qualquer vida:
as teias que a gente tece
abrem sempre uma ferida
no canto esquerdo do riso?
no lado torto da gente?
talvez.
o que mais forte preciso
não sei sequer se é urgente.
nem sei se eu sou o caso
que mais mereço entender -
de qualquer forma, o A-caso
me deixa tonto. e querer
não é sentar, ter na mesa
uma questão de depois:
é, melhor, ver com certeza
quem imagina um mais dois.
-
Rogério Duarte
Depois que eu deixei crescer a barba as coisas continuaram igualmente confusas, exceto pelo acréscimo da barba que se associa ao antigo caos e o revela com aparente nova fúria. Não sei mesmo por que me permiti tal embuste (sim, nada agora merece mais do que este qualificativo).
Foi depois da visita à fazenda natal e do retrato do bisavô peludo que acabou por me sugerir reencarná-lo. Caricatura do meu passado me tornei porque caricaturei a busca de mim mesmo indo atrás dos detritos que o meu caminho deixou à margem.
Estranho às vezes o meu corpo assusto-me frente ao espelho na vã tentativa de captar-me outro e recebê-lo na minha ternura ou, menos ainda, procurando especular sobre a aparência nova e suas possibilidades de realizar o paradoxal embuste de parecer humana, coisa aliás que não se realiza é apenas em função da minha recusa.
Terá que ser desta mesma guitarrística maneira o continuar no ato de fazer a ladainha dos pães de cada dia. Talvez tenha descoberto eu hoje uma maneira nova: não se trata de cometer o verbo mas sim de esgotar-se no só afã de cometê-lo, ou de convencionar-se para si a fatalidade de cumpri-lo. Isto poderia se compreender imaginando-se a ação de modo a não diferenciá-la da não-ação. E é tangível quando tragicamente se cai na penumbra da unidade, ou zona do fenômeno.
Talvez, se a fidelidade a cada dia me compra o direito de depuração contínua, eu chegue a escutar a viva voz que articula a vibração do manifesto.
Guitarristicamente tecendo em dedos e espera-deflagração.
Que chance? O meu destino desenvolveu-se enquanto eu mantinha os olhos tapados e já nem me reconheço nele.
Brutalmente a qualquer momento pode surgir a vida, eu sei que não estou preparado. O medo, que é sombra da luxúria, aproveitou-se do meu corpo inteiro como morada do seu escuro.
Eu sinto, quando estou falando com alguém, nitidamente a sensação de não controlar a espontânea linguagem de loucura e sofrimento que torna como que desconcertantemente ridícula (já que a cobre e nega) a comunicação esboço-vomitada.
É absolutamente igual à fé na chegada do Messias o prognóstico sobre a passagem de um Cometa. Se nos voltamos para o grande corpo, sem um sequer leve cilício, tomamos o líquido aviso, confundimos a nossa alma com Ele.
Daqui a alguns anos a moral será uma ciência misteriosa ao alcance apenas de uns poucos iniciados que, de resto, ninguém viu. A Fé, as Leis etc. serão no Futuro não muito distante de uns duzentos anos como hoje são a alquimia, astrologia e lá vai fumaça...
Eu sou muito amigo do Rei, eu me dou bem com o Rei, Eu sou o outro Rei.
Hereafter all will be different, you need to get a very human face...
--- Na revista "Navilouca", anos 1970.
8.10.02
Faça-se o cogumelo
"Sentimo-nos como se estivéssemos presentes no momento da criação, quando Deus disse 'Faça-se a luz' ... a imensa nuvem de cogumelo por um instante pareceu a gigantesca estátua da Liberdade, o braço elevado para o céu, simbolizando o nascimento de uma nova liberdade para o homem." (General Leslie Groves, comandante do Projeto Manhattan que desenvolveu a bomba atômica durante a Segunda Guerra Mundial e um dos idealizadores do Pentágono.) Duas bombas seriam lançadas no Japão. Uma sobre Hiroshima, a "Little Boy", e outra sobre Nagasaki, a "Fat Man". O resto da tragédia já se sabe. O presidente Truman, ao ser entrevistado anos depois, diria a respeito de seu primeiro pensamento ao saber do programa atômico: "Eu esperava que desse certo, principalmente porque custou 2,6 bilhões de dólares, o que dava uma média de 400 milhões por quilo de bomba...um explosivo caro demais." Uma pesquisa do Gallup feita em 1944 revelou que 13% dos americanos eram favoráveis à eliminação do povo japonês por meio do genocídio. Estima-se que, até 1950, 350 mil pessoas morreram como resultado direto das bombas atômicas lançadas em Hiroshima e Nagasaki.
Em 20 de agosto de 1998, o governo americano usou mísseis de longo alcance para destruir uma fábrica de remédios na capital do Sudão, com a justificativa de que a fábrica produzia gás dos nervos para ser usado por agentes de Bin Laden. Como se provaria logo depois, esse argumento era falso, a fábrica produzia apenas remédios contra a malária e a tuberculose, e drogas de uso veterinário. A Medical Emergency Relief International, entidade de ajuda humanitária sediada em Londres, declarou que na época do ataque americano, o Sudão passava por uma grave epidemia de malária, o que transformava a destruição da única fábrica do país que produzia remédios contra a doença num grave crime contra a humanidade.
-
7.10.02
Guilhem de Peitieu
Fiz um poema sobre nada:
Não é de amor nem é de amada,
Não tem saída nem entrada,
Ao encontrá-lo,
Ia dormindo pela estrada
No meu cavalo.
Eu não sei quando fui gerado:
Não sou alegre nem irado,
Não sou falante nem calado,
Nem faço caso,
Aceito tudo o que me é dado
Como um acaso.
Não sei quando é que adormeci,
Quando acordei também não vi,
Meu coração quase parti
Com o meu mal,
Mas eu não ligo nem a ti,
Por São Marcial.
Estou doente e vou morrer,
Não sei de quê, ouvi dizer,
A um médico vou recorrer,
Mas não sei qual,
Será bom se me socorrer
E se não, mau.
Tenho uma amiga, mas quem é
Não sei nem ela sabe e até
Nem quero ver, por minha fé,
Pouco me importa
Se há normando ou francês ao pé
Da minha porta.
Eu não a vi e amo a ninguém
Que não me fez nem mal nem bem
E nem me viu. Isso, porém,
Tanto me faz,
Que eu sei de outra, entre cem,
Que vale mais.
Finda a canção, não sei de quem,
Irei passá-la agora a alguém
Que a passará ainda além
A amigo algum,
Que logo a passará também
A qualquer um.
--- "Canção", séc. 12.
Não é de amor nem é de amada,
Não tem saída nem entrada,
Ao encontrá-lo,
Ia dormindo pela estrada
No meu cavalo.
Eu não sei quando fui gerado:
Não sou alegre nem irado,
Não sou falante nem calado,
Nem faço caso,
Aceito tudo o que me é dado
Como um acaso.
Não sei quando é que adormeci,
Quando acordei também não vi,
Meu coração quase parti
Com o meu mal,
Mas eu não ligo nem a ti,
Por São Marcial.
Estou doente e vou morrer,
Não sei de quê, ouvi dizer,
A um médico vou recorrer,
Mas não sei qual,
Será bom se me socorrer
E se não, mau.
Tenho uma amiga, mas quem é
Não sei nem ela sabe e até
Nem quero ver, por minha fé,
Pouco me importa
Se há normando ou francês ao pé
Da minha porta.
Eu não a vi e amo a ninguém
Que não me fez nem mal nem bem
E nem me viu. Isso, porém,
Tanto me faz,
Que eu sei de outra, entre cem,
Que vale mais.
Finda a canção, não sei de quem,
Irei passá-la agora a alguém
Que a passará ainda além
A amigo algum,
Que logo a passará também
A qualquer um.
--- "Canção", séc. 12.
4.10.02
Aos 100 anos de Drummond
É noite. Sinto que é noite. E amanhã o nome, letra por letra, se desletrará. Farta de komunikar-me na pequenina taba, no pavilhão da komunikânsia interplanetária interpatetal, eis-me prostrada a vossos peses, que sendo tantos todo plural é pouco.
Cem anos: espelho d'água ou névoa? Que palavra é essa que a vida não alcança ainda quando morte esculpida em vida? Sede que bebo, vento que me arrasta, há uma hora em que todos os bares se fecham porque você não está mais na idade de sofrer por estas coisas e tudo que se pensa, tudo que se fala, tudo que se conta não passa de papel. Vamos para a Lua, Carlos. Vamos para Marte. Vamos a outra parte. Sem tir-te nem guar-te amanhã o nome, letra por letra, se desletrará.
-
1.10.02
Ser carioca não é pra qualquer um. Morar de frente pro morro e lambuzar o cérebro de areia só pra quem tem a praia logo ali ó. Passo correndo por ruas vazias e desperdício de cores onde analfabetos contam casos. Carioca espanta a preguiça dormindo em pé. Celulares sebentos espalham boatos. O Iraque é aqui. Quase. E nem vamos precisar da intervenção da ONU. Antes que a noite avance me tranco em casa, encho a banheira e fecho os olhos. A obra civilizadora do narcotráfico. A água respinga nos jornais. Os salões de Tarsila estão cobertos de asfalto. Só posso dizer duas coisas, ou é isso ou é o quê?
25.9.02
Bruno Schulz
"Naquele tempo o meu pai já tinha morrido definitivamente. Morria várias vezes, mas nunca completamente, sempre com algumas objeções que implicavam a revisão deste fato. O que tinha as suas vantagens. Dividindo a sua morte em prestações, meu pai familiarizava-nos com o fato de seu sumiço. Ficamos indiferentes aos seus retornos, cada vez mais reduzidos e lamentáveis. A fisionomia do já ausente espalhou-se pelo quarto em que vivia, ramificou-se, atando, em certos pontos, extraordinários nós de semelhança e de incrível nitidez. O papel de parede imitava em determinados lugares as contrações de seus tiques, os arabescos compunham-se na anatomia dolorosa do seu riso, dispostos em membros simétricos como a impressão petrificada do trilobite. Por algum tempo contornávamos de longe o seu casaco de pele, plissado de fuinhas. O casaco de pele respirava. O pânico dos pequenos animais costurados, mordendo uns aos outros, passava por ele em espasmos impotentes e perdia-se nas pregas da pele. Encostando o ouvido nela, podia-se ouvir o rosnar melodioso do sono que partilhavam em harmonia. Nesta forma bem curtida, com este leve cheiro de fuinhas, assassinatos e cios noturnos, meu pai poderia durar ainda anos. Mas também aqui ele não agüentou muito tempo."
23.9.02
A espera da hortelã
Numa casa às escuras não dá para se fazer muita coisa, principalmente se faltou luz. Nestas horas me deixo levar por um maneirismo acentuado e repito dezenas de frases diferentes com o mesmo sentido. É uma forma de me distrair e esquecer que passei a tarde toda sentindo um cheiro de hortelã sem que houvesse à minha volta qualquer motivo concreto para isso. Seria fácil se eu pudesse atribuir esta escuridão de hortelã ao cansaço. Exasperação sensorial barroca, eu ouviria duras críticas nesse sentido. Minha pobre literatura egocêntrica seria alvo não-preferencial de tudo que é tipo de mentalidade geocêntrica. Ponto para a crítica necrografista. Alhear-me nestes pensamentos pode não produzir resultados mas faz com que por um minuto eu me esqueça do cheiro hipnótico da hortelã, com que eu me esqueça do todo contido no detalhe, um perverso vício de raciocínio que se alimenta da minha natureza confundindo-me com ela. "Quando me procuro, nunca estou em casa." Acho que foi Hume quem desenhou esta frase. É possível que na casa dele faltasse luz também. Minha lógica é rasteira e se estende só até a mesinha-de-cabeceira, onde se apóia e ergue a cabeça para me procurar pela cama. Eu disse que estava escuro. Está escuro e o cheiro de hortelã grudou na minha pele como se tivesse medo de cair. Eu quero ir até a cozinha mas tenho medo também de cair sobre os móveis e nunca mais levantar. De cair no chão e não saber me arrastar. Como uma boneca sentada numa cadeira, eu esperava que me tirassem dali. Esperava que me levassem para passear num carro vermelho ou até o cinema da esquina, que antes de dormir me contassem uma história bem bonita para eu poder pegar no sono e deixassem a luz do abajur acesa depois de me prometer que se eu fosse uma menina boazinha, amanhã não precisaria mais de tantas nebulizações. Eu esperava.
-
Definições de capitalismo
Capitalismo ideal: Você tem duas vacas. Vende uma e compra um touro. Eles se multiplicam, e a economia cresce. Você vende o rebanho e aposenta-se, rico!
Capitalismo americano: Você tem duas vacas. Vende uma e força a outra a produzir leite de quatro vacas. Fica surpreso quando ela morre.
Capitalismo francês: Você tem duas vacas. Entra em greve porque quer três.
Capitalismo canadense: Você tem duas vacas. Usa o modelo do capitalismo americano. As vacas morrem. Você acusa o protecionismo brasileiro e adota medidas protecionistas para ter as três vacas do capitalismo francês.
Capitalismo japonês: Você tem duas vacas. Redesenha-as para que tenham um décimo do tamanho de uma vaca normal e produzam 20 vezes mais leite. Depois cria desenhinhos de vacas chamados Vaquimon e os vende para o mundo inteiro.
Capitalismo italiano: Você tem duas vacas. Uma delas é sua mãe, a outra é sua sogra, maledetto!!!
Capitalismo Enron: Você tem duas vacas. Vende três para a sua companhia de capital aberto usando garantias de crédito emitidas por seu cunhado. Depois faz uma troca de dívidas por ações por meio de uma oferta geral associada, de forma que você consegue todas as quatro vacas de volta, com isenção fiscal para cinco vacas. Os direitos do leite das seis vacas são transferidos para uma companhia das Ilhas Cayman, da qual o sócio majoritário é secretamente o dono. Ele vende os direitos das sete vacas novamente para a sua companhia. O relatório anual diz que a companhia possui oito vacas, com uma opção para mais uma. Você vende uma vaca para comprar um novo presidente dos Estados Unidos e fica com nove vacas. Ninguém fornece balanço das operações e o público compra o seu esterco.
Capitalismo britânico: Você tem duas vacas. As duas são loucas.
Capitalismo holandês: Você tem duas vacas. Elas vivem juntas, não gostam de touros e tudo bem.
Capitalismo alemão: Você tem duas vacas. Elas produzem leite regularmente,segundo padrões de quantidade e horário previamente estabelecido, de forma precisa e lucrativa. Mas o que você queria mesmo era criar porcos.
Capitalismo russo: Você tem duas vacas. Conta-as e vê que tem cinco. Conta de novo e vê que tem 42. Conta de novo e vê que tem 12 vacas. Você pára de contar e abre outra garrafa de vodca.
Capitalismo suíço: Você tem 500 vacas, mas nenhuma é sua. Você cobra para guardar a vaca dos outros.
Capitalismo espanhol: Você tem muito orgulho de ter duas vacas.
Capitalismo português: Você tem duas vacas. E reclama porque seu rebanho não cresce...
Capitalismo chinês: Você tem duas vacas e 300 pessoas tirando leite delas. Você se gaba de ter pleno emprego e alta produtividade. E prende o ativista que divulgou os números.
Capitalismo hindu: Você tem duas vacas. Ai de quem tocar nelas.
Capitalismo argentino: Você tem duas vacas. Você se esforça para ensinar as vacas a mugir em inglês. As vacas morrem. Você entrega a carne delas para o churrasco de fim de ano do FMI.
Capitalismo brasileiro: Você tem duas vacas. Uma delas é roubada. O governo cria a CCPV- Contribuição Compulsória pela Posse de Vaca. Um fiscal vem e te autua, porque embora você tenha recolhido corretamente CCPV, o valor era pelo número de vacas presumidas e não pelo de vacas reais. A Receita Federal, por meio de dados também presumidos do seu consumo de leite, queijo, sapatos de couro, botões, presumia que você tivesse 200 vacas e para se livrar da encrenca, você dá a vaca restante para o fiscal deixar por isso mesmo...
(autor desconhecido)
20.9.02
Pedro Kilkerry
Pedro Kilkerry, poeta baiano, nasceu no final do séc. 19 e é praticamente desconhecido entre nós. Não publicou nada em vida pois detestava escrever e achava que editar livros implicava prostituir-se de alguma forma. Ele escrevia nas paredes, na cabeceira da cama e sabia tudo de memória, dizendo nos bares para os amigos, nunca no papel. O que ficou dele foi publicado pela revista baiana "Nova Cruzada", um movimento de poetas acadêmicos da época. Em 1978, Raymundo Amado fez um documentário sobre o poeta intitulado Harpa esquisita. São deste filme os textos de Kilkerry aqui apresentados.
"...E a gente pensa que a vida é um bem, mas a morte não é um grande mal, como dizia a grega Safo, porque, então, se compreende o panteísmo esquiliano: Zeus é o céu e muito melhor é ainda tudo que está além de tudo isso...por cima de representação comum, onde, aos pares, gozarmos o infinito."
"Há avesso em tudo. Penso nos grandes gestos das individualidades excelsas, no perdão de Jesus, nos passos energicamente espiritualizados de João Huss, caminho da fogueira rubra do Sacrifício, em Giordano Bruno e tantas outras chamas magníficas da vida, largadas como bênçãos sobre a marulhada soturna dos anos que vão, que foram para o cinzento devorante e infinito do Nada."
"A terra gira, quietinha, quietinha, e nós não sabemos nada, nem de nós, nem de nada, na vaidade de nos sabermos cheios de um futuro."
"Uma alma não é discípula de ninguém. Entre espíritos afins pode haver superioridade e inferioridade que não dependem de aprendizagem nenhuma."
"A filosofia já é ação, o sonho é ação, o cinismo, seja ou não por lei obrigatória, é grande parte na ação de dia-a-dia, o heroísmo é o mais humilde operário ou rei do petróleo, a poesia é a própria vida tumultuada, sem retardo, sem moras, sem decrepitude. O metro é livre: vivamo-lo."
"O homem de hoje deve nascer, nasce, com o instinto da modernidade."
"Olhos novos para o novo! Tudo é outro ou tende para outro."
-
18.9.02
Herculine Barbin
"Inicialmente a intimidade que havia entre mim e Sara era muito admirada, mas com o tempo passou a ser criticada pela maioria das pessoas que a considerava um pouco exagerada e por que não dizer suspeita. Mas estavam ainda muito longe da verdade. Por falta de conhecimento, fazia-se todo tipo de comentários, até que afinal, como sempre, algumas comadres caridosas decidiram prevenir a sra. P., em nome da moral ultrajada por nossa conduta cotidiana diante das alunas. Principalmente eu sofri graves acusações. Transformaram em crime o fato de eu beijar com muita freqüência a srta. Sara. Começamos a observar que, de fato, éramos objeto de sérios exames por parte das alunas mais velhas. Quando me viam abaixar e apertar Sara em meus braços, desviavam a cabeça com embaraço, como se tivessem medo de nos ver ruborescer. As internas principalmente, que nos viam dormir e acordar, manifestaram mais de uma vez seu espanto em relação a determinados detalhes que, sem dúvida, as assustavam. Evidentemente faziam comentários a esse respeito. Daí os rumores que se espalhavam pela cidade. A sra. P., que era extremamente cuidadosa em relação ao bom nome de sua casa, ficou seriamente afetada com isso. Não ousando falar sobre esse assunto comigo, chamou sua filha. "Sara", disse ela, "por favor, daqui por diante seja mais discreta em suas relações com a srta. Camille. Sei que vocês se gostam muito, e de minha parte fico feliz com isso, mas há conveniências que mesmo entre moças devem ser observadas." Esse primeiro ataque nos fez temer pelo futuro. O que seria de nós quando descobrissem a verdade?"
Jorge Luis Borges
"Todas as literaturas começaram pela poesia. Estudei as origens da literatura anglo-saxônica e achei a épica, séculos de épica, antes de chegar à prosa. Os conhecedores deram a explicação: é mais fácil conseguir a unidade de um verso e depois repeti-lo inúmeras vezes, do que se lançar na complexidade da prosa, onde não se pode repetir o jogo. A prosa é complexa, difícil, e para mim na verdade a prosa é a última forma da poesia. O homem começou cantando seus mitos, celebrando seus heróis, seus guerreiros, embora depois, graças a Deus, descobrisse outros temas."
.................................
"A poesia japonesa se baseia no contraste. Não se compara uma coisa com outra, contrasta-se. Um dos mais famosos exemplos da poesia japonesa, traduzido, se expressaria assim: 'Sobre o grande sino de bronze pousou uma borboleta.' Há traduções diferentes, mas é mais ou menos assim. Aí obviamente não se compara nada com nada, se contrasta. O firme e durável sino de bronze com a efêmera borboleta. Não há metáfora."
-
Assinar:
Postagens (Atom)