30.10.02

Beowulf precisou de 3.183 versos para relatar suas façanhas heróicas no início da época medieval. Foi modesto. Mesmo depois de velho e caquético, o rei lutava com monstros, dragões e sereias igualmente monstruosas. Já os franceses, bem mais verborrágicos, lançaram mão de 30.000 versos para fechar o "Romance de Tróia" pela pena de Benoit de Sainte More. Me recuso a ler tanto papel. Quem tem tempo pra isso hoje em dia? A "Divina Comédia" por sua vez tem 100 cantos. Um repositório de conhecimentos enciclopédicos, só esta frase me dá preguicinha. Nunca li a obra-prima de Dante de cabo a rabo. Toda vez que a via pela frente ficava em dúvida se começava pelo Inferno, pelo Purgatório ou pelo Paraíso. Verdade que a inscrição da porta do Inferno sempre me atraiu mais: "Lasciati ogni speranza, voi ch' entrate!", o que significa mais ou menos "tirem o cavalinho da chuva daqui para a frente". Grande coisa. Os melhores ficavam no Limbo: Sócrates, Platão, Homero e o resto da galera. Como estou bocejando e este post já está ficando extenso demais, escolho pra ler uns poeminhas safados e de tamanho bem mais conveniente, o que os sofisticados gostam de chamar de haicai.


"troco um chumaço de poesia pelo amor da macaca
sou um romântico cubalibre dançando conforme a lua"

(de Charles, em "Perpétuo Socorro")


"beijos fecham a mala
o trem parte mudo
eu, poeta, apagado no cinzeiro
sem a coragem das noites
sem a alma dos vagabundos
logo eu
pronto por não ter planos maiores
que três versos faltando num poema maluco
enterrado no bolso sem um aceno
alheio à cor das bandeiras
tremendo que nem assovio

o trem parte mudo
eu canto fora dos trilhos"

(de Ronaldo Santos, em "14 bis").


Álvares de Azevedo

É belo dentre a cinza ver ardendo
Nas mãos do fumador um bom cigarro,
Sentir o fumo em névoas rescendendo,

Do cachimbo alemão no louro barro
Ver a chama vermelha estremecendo
E até...perdoem... respirar-lhe o sarro!

Porém o que há mais doce nesta vida,
O que das mágoas desvanece o luto
E dá som a uma alma empobrecida,
Palavra d' honra, és tu, ó meu charuto!


---  "Terza Rima".

28.10.02

Caetano Veloso

e era nada de nem noite de nego não
e era nê de nunca mais
e era noite de nê nunca de nada mais
e era nem de negro não
porém parece que a golpes de pê
de pé de pão
de parecer poder
(e era não de nada nem)
pipoca ali pipoca aqui
pipoca além
desanoitece a manhã
tudo mudou

----  "Pipoca Moderna".

Félix de Athayde

brasil não finda em abril
há outubros
o tempo é trabalho do homem
de tempo em tempo o tempo
dá um salto
como tudo que é vivo e pássaro

brasil não finda em abril
há muito tempo pela frente
outubro pode vir em maio ou dezembro
é questão de não se perder tempo

volta a viver teu dia
como se vivesses uma mulher
trabalhando todas as partes do seu corpo

brasil não finda em abril
nem finda em mim nem em ti
há outubros e há outros outros
além de nós que sabem
no amor e no ódio
que o tempo é a esperança dos homens

há outubro


---  "Há Outubros".

21.10.02

D. H. Lawrence

A indecência pode ser normal, saudável.
Na verdade, um pouco de indecência é necessário em toda vida
para a manter normal, saudável.

E um pouco de putaria pode ser normal, saudável.
Na verdade, um pouco de putaria é necessário em toda vida
para a manter normal, saudável.

Mesmo a sodomia pode ser normal, saudável,
desde que haja troca de sentimento verdadeiro.

Mas se alguma delas for para o cérebro, aí se torna perniciosa:
a indecência no cérebro se torna obscena, viciosa,
a putaria no cérebro se torna sifilítica
e a sodomia no cérebro se torna uma missão,
tudo vício, missão, insanamente mórbido.

Do mesmo modo, a castidade na hora própria é normal e bonita.
Mas a castidade no cérebro é vício, perversão.
E a rígida supressão de toda e qualquer indecência, putaria e relações assim
leva direto a furiosa insanidade.
E a quinta geração de puritanos, se não for obscenamente depravada,
é idiota. Por isso, você tem de escolher.

---  "A Indecência Pode Ser Saudável".

20.10.02

Ana Cristina Cesar

Me deu uma dor forte de repente e eu disse -- me leva para o hospital.
O casal do lado me levou no carro.
Tinha fila na emergência. Eu fiquei chorando e espiando a folia que não quero contar como é que era. Quando voltei ele estava pálido e contou que tinha desmaiado.
Ele é tão grande e mesmo com dor eu ia pôr no colo. Fiquei sabendo melhor como é o desmaio.
Você não apaga -- acende uma velocidade de sonho sólido, e você vê Tudo num minuto. Até a sala de ópio com Fats Waller cantando Two Sleepy People em câmera bem lenta: no coração de Paris uma câmara de sonho oriental, tapetes persas fechando as paredes e almofadas fechando os olhos como no paraíso. Você pode também sentar de novo na Place des Vôges, que é perfeita, cartão postal mágico voador. Parece que você vê e pega, ou fica completamente dentro. Não é uma esponja nem uma bagatela. Até a travessia do canal, ou a primeira vez que alguém te cobriu de beijos, ou o nervoso de perder o trem por dois minutos. É um cinema hipnótico, sem pernas. Não é vago.

--- Em "Luvas de Pelica".

15.10.02

Rio em preto-e-branco

Nos anos 1930, o aluguel de um apartamento mobiliado na Cinelândia (centro do Rio) custava 400 mil réis. Na época, só uma elite emergente podia morar bem nessas vizinhanças. Um médico bem-sucedido podia ganhar 1:500.000 ( 1 conto e 500 mil réis), um operário têxtil ganhava 240 mil réis por mês e uma empregada doméstica, 120 mil. O quilo de arroz custava no mínimo 500 réis, o açúcar, 700; o bacalhau, 2.100; café, 2.400; carne de primeira e frango, 2.000; feijão preto, 500; leite, 800 o litro, e ovos, 2.200 a dúzia. Já um par de sapatos de pelica, modelo Luís XV, para moças de fino trato chegava a custar 36 mil réis. Nessa época o rádio e a propaganda incentivavam os "novos" hábitos: "Não há mais belo destino para um cigarro do que o de luzir, como um astro, nos lábios de uma mulher bonita." Nas ruas trafegavam os ônibus de dois andares, os "chope-duplo", os táxis passaram a calcular a corrida por taxímetros e ganhou popularidade o hábito de se tomar café em pé, no balcão. No comércio estabelece-se o "horário comercial" e as vendas são incrementadas com a introdução do crediário. Um grande número de mendigos "transfere-se" para São Paulo, alegando que lá serão tratados com mais civilidade, pois um decreto recém-criado os protegia da polícia. Dizia-se que alguns chegaram a fazer fortunas só de pedir esmolas. Nas farmácias podia-se comprar 5 gramas de cocaína malhada a 2.000 réis, e uma ampola de heroína custava 1.500. Na Lapa bebia-se cerveja por 1.100 a garrafa. Com seus casarões antigos de paredes enegrecidas, seus bares, restaurantes, cabarés e bordéis, a Lapa era ponto de encontro de intelectuais e artistas. Freqüentavam a Lapa Plínio Salgado, San Tiago Dantas, Noel Rosa, Assis Valente, Heitor dos Prazeres, Cartola, Nelson Cavaquinho, Francisco Alves, Araci de Almeida, Jorge Amado, Cândido Portinari, Villa-Lobos, Sérgio Buarque de Holanda, Rubem Braga, Mário de Andrade, Manuel Bandeira, Madame Satã, um dos mitos do bas-fond, e muitos outros. No final dos anos 1930 a polícia do Estado Novo fechou todos os bordéis da Lapa, decidida a acabar violentamente com a prostituição na Capital Federal. Nos anos 1940, o bairro entra em franca decadência devido à Segunda Guerra Mundial. A Lapa é invadida por marinheiros americanos vomitando dólares e pelos "falsos malandros", deixando de ser a partir daí a Montmartre carioca.

14.10.02

Torquato Neto

o poeta nasce feito
assim como dois mais dois
; se por aqui me deleito
é por questão de depois

a glória canta na cama
faz poemas, enche a cara
mas é com quem mais se ama
que a gente mais se depara

ou seja:

quarenta a sete quilates
sessenta e nove tragadas
vinte e sete sonhos, noites,
calmas, desperdiçadas.

saiba, ronaldo, acontece
uma vez em qualquer vida:
as teias que a gente tece
abrem sempre uma ferida

no canto esquerdo do riso?
no lado torto da gente?
talvez.
o que mais forte preciso
não sei sequer se é urgente.

nem sei se eu sou o caso
que mais mereço entender -
de qualquer forma, o A-caso
me deixa tonto. e querer

não é sentar, ter na mesa
uma questão de depois:
é, melhor, ver com certeza
quem imagina um mais dois.

-

Rogério Duarte

Depois que eu deixei crescer a barba as coisas continuaram igualmente confusas, exceto pelo acréscimo da barba que se associa ao antigo caos e o revela com aparente nova fúria. Não sei mesmo por que me permiti tal embuste (sim, nada agora merece mais do que este qualificativo).
Foi depois da visita à fazenda natal e do retrato do bisavô peludo que acabou por me sugerir reencarná-lo. Caricatura do meu passado me tornei porque caricaturei a busca de mim mesmo indo atrás dos detritos que o meu caminho deixou à margem.
Estranho às vezes o meu corpo assusto-me frente ao espelho na vã tentativa de captar-me outro e recebê-lo na minha ternura ou, menos ainda, procurando especular sobre a aparência nova e suas possibilidades de realizar o paradoxal embuste de parecer humana, coisa aliás que não se realiza é apenas em função da minha recusa.
Terá que ser desta mesma guitarrística maneira o continuar no ato de fazer a ladainha dos pães de cada dia. Talvez tenha descoberto eu hoje uma maneira nova: não se trata de cometer o verbo mas sim de esgotar-se no só afã de cometê-lo, ou de convencionar-se para si a fatalidade de cumpri-lo. Isto poderia se compreender imaginando-se a ação de modo a não diferenciá-la da não-ação. E é tangível quando tragicamente se cai na penumbra da unidade, ou zona do fenômeno.
Talvez, se a fidelidade a cada dia me compra o direito de depuração contínua, eu chegue a escutar a viva voz que articula a vibração do manifesto.
Guitarristicamente tecendo em dedos e espera-deflagração.
Que chance? O meu destino desenvolveu-se enquanto eu mantinha os olhos tapados e já nem me reconheço nele.
Brutalmente a qualquer momento pode surgir a vida, eu sei que não estou preparado. O medo, que é sombra da luxúria, aproveitou-se do meu corpo inteiro como morada do seu escuro.
Eu sinto, quando estou falando com alguém, nitidamente a sensação de não controlar a espontânea linguagem de loucura e sofrimento que torna como que desconcertantemente ridícula (já que a cobre e nega) a comunicação esboço-vomitada.
É absolutamente igual à fé na chegada do Messias o prognóstico sobre a passagem de um Cometa. Se nos voltamos para o grande corpo, sem um sequer leve cilício, tomamos o líquido aviso, confundimos a nossa alma com Ele.
Daqui a alguns anos a moral será uma ciência misteriosa ao alcance apenas de uns poucos iniciados que, de resto, ninguém viu. A Fé, as Leis etc. serão no Futuro não muito distante de uns duzentos anos como hoje são a alquimia, astrologia e lá vai fumaça...
Eu sou muito amigo do Rei, eu me dou bem com o Rei, Eu sou o outro Rei.
Hereafter all will be different, you need to get a very human face...

--- Na revista "Navilouca", anos 1970.

8.10.02

Faça-se o cogumelo

"Sentimo-nos como se estivéssemos presentes no momento da criação, quando Deus disse 'Faça-se a luz' ... a imensa nuvem de cogumelo por um instante pareceu a gigantesca estátua da Liberdade, o braço elevado para o céu, simbolizando o nascimento de uma nova liberdade para o homem." (General Leslie Groves, comandante do Projeto Manhattan que desenvolveu a bomba atômica durante a Segunda Guerra Mundial e um dos idealizadores do Pentágono.) Duas bombas seriam lançadas no Japão. Uma sobre Hiroshima, a "Little Boy", e outra sobre Nagasaki, a "Fat Man". O resto da tragédia já se sabe. O presidente Truman, ao ser entrevistado anos depois, diria a respeito de seu primeiro pensamento ao saber do programa atômico: "Eu esperava que desse certo, principalmente porque custou 2,6 bilhões de dólares, o que dava uma média de 400 milhões por quilo de bomba...um explosivo caro demais." Uma pesquisa do Gallup feita em 1944 revelou que 13% dos americanos eram favoráveis à eliminação do povo japonês por meio do genocídio. Estima-se que, até 1950, 350 mil pessoas morreram como resultado direto das bombas atômicas lançadas em Hiroshima e Nagasaki.
Em 20 de agosto de 1998, o governo americano usou mísseis de longo alcance para destruir uma fábrica de remédios na capital do Sudão, com a justificativa de que a fábrica produzia gás dos nervos para ser usado por agentes de Bin Laden. Como se provaria logo depois, esse argumento era falso, a fábrica produzia apenas remédios contra a malária e a tuberculose, e drogas de uso veterinário. A Medical Emergency Relief International, entidade de ajuda humanitária sediada em Londres, declarou que na época do ataque americano, o Sudão passava por uma grave epidemia de malária, o que transformava a destruição da única fábrica do país que produzia remédios contra a doença num grave crime contra a humanidade.
-

7.10.02

Guilhem de Peitieu

Fiz um poema sobre nada:
Não é de amor nem é de amada,
Não tem saída nem entrada,
Ao encontrá-lo,
Ia dormindo pela estrada
No meu cavalo.

Eu não sei quando fui gerado:
Não sou alegre nem irado,
Não sou falante nem calado,
Nem faço caso,
Aceito tudo o que me é dado
Como um acaso.

Não sei quando é que adormeci,
Quando acordei também não vi,
Meu coração quase parti
Com o meu mal,
Mas eu não ligo nem a ti,
Por São Marcial.

Estou doente e vou morrer,
Não sei de quê, ouvi dizer,
A um médico vou recorrer,
Mas não sei qual,
Será bom se me socorrer
E se não, mau.

Tenho uma amiga, mas quem é
Não sei nem ela sabe e até
Nem quero ver, por minha fé,
Pouco me importa
Se há normando ou francês ao pé
Da minha porta.

Eu não a vi e amo a ninguém
Que não me fez nem mal nem bem
E nem me viu. Isso, porém,
Tanto me faz,
Que eu sei de outra, entre cem,
Que vale mais.

Finda a canção, não sei de quem,
Irei passá-la agora a alguém
Que a passará ainda além
A amigo algum,
Que logo a passará também
A qualquer um.

---  "Canção", séc. 12.

4.10.02

Aos 100 anos de Drummond

É noite. Sinto que é noite. E amanhã o nome, letra por letra, se desletrará. Farta de komunikar-me na pequenina taba, no pavilhão da komunikânsia interplanetária interpatetal, eis-me prostrada a vossos peses, que sendo tantos todo plural é pouco.

Cem anos: espelho d'água ou névoa? Que palavra é essa que a vida não alcança ainda quando morte esculpida em vida? Sede que bebo, vento que me arrasta, há uma hora em que todos os bares se fecham porque você não está mais na idade de sofrer por estas coisas e tudo que se pensa, tudo que se fala, tudo que se conta não passa de papel. Vamos para a Lua, Carlos. Vamos para Marte. Vamos a outra parte. Sem tir-te nem guar-te amanhã o nome, letra por letra, se desletrará.
-

1.10.02

Ser carioca não é pra qualquer um. Morar de frente pro morro e lambuzar o cérebro de areia só pra quem tem a praia logo ali ó. Passo correndo por ruas vazias e desperdício de cores onde analfabetos contam casos. Carioca espanta a preguiça dormindo em pé. Celulares sebentos espalham boatos. O Iraque é aqui. Quase. E nem vamos precisar da intervenção da ONU. Antes que a noite avance me tranco em casa, encho a banheira e fecho os olhos. A obra civilizadora do narcotráfico. A água respinga nos jornais. Os salões de Tarsila estão cobertos de asfalto. Só posso dizer duas coisas, ou é isso ou é o quê?

25.9.02

Bruno Schulz

"Naquele tempo o meu pai já tinha morrido definitivamente. Morria várias vezes, mas nunca completamente, sempre com algumas objeções que implicavam a revisão deste fato. O que tinha as suas vantagens. Dividindo a sua morte em prestações, meu pai familiarizava-nos com o fato de seu sumiço. Ficamos indiferentes aos seus retornos, cada vez mais reduzidos e lamentáveis. A fisionomia do já ausente espalhou-se pelo quarto em que vivia, ramificou-se, atando, em certos pontos, extraordinários nós de semelhança e de incrível nitidez. O papel de parede imitava em determinados lugares as contrações de seus tiques, os arabescos compunham-se na anatomia dolorosa do seu riso, dispostos em membros simétricos como a impressão petrificada do trilobite. Por algum tempo contornávamos de longe o seu casaco de pele, plissado de fuinhas. O casaco de pele respirava. O pânico dos pequenos animais costurados, mordendo uns aos outros, passava por ele em espasmos impotentes e perdia-se nas pregas da pele. Encostando o ouvido nela, podia-se ouvir o rosnar melodioso do sono que partilhavam em harmonia. Nesta forma bem curtida, com este leve cheiro de fuinhas, assassinatos e cios noturnos, meu pai poderia durar ainda anos. Mas também aqui ele não agüentou muito tempo."

--- Em "A última fuga de meu pai".

23.9.02

A espera da hortelã

Numa casa às escuras não dá para se fazer muita coisa, principalmente se faltou luz. Nestas horas me deixo levar por um maneirismo acentuado e repito dezenas de frases diferentes com o mesmo sentido. É uma forma de me distrair e esquecer que passei a tarde toda sentindo um cheiro de hortelã sem que houvesse à minha volta qualquer motivo concreto para isso. Seria fácil se eu pudesse atribuir esta escuridão de hortelã ao cansaço. Exasperação sensorial barroca, eu ouviria duras críticas nesse sentido. Minha pobre literatura egocêntrica seria alvo não-preferencial de tudo que é tipo de mentalidade geocêntrica. Ponto para a crítica necrografista. Alhear-me nestes pensamentos pode não produzir resultados mas faz com que por um minuto eu me esqueça do cheiro hipnótico da hortelã, com que eu me esqueça do todo contido no detalhe, um perverso vício de raciocínio que se alimenta da minha natureza confundindo-me com ela. "Quando me procuro, nunca estou em casa." Acho que foi Hume quem desenhou esta frase. É possível que na casa dele faltasse luz também. Minha lógica é rasteira e se estende só até a mesinha-de-cabeceira, onde se apóia e ergue a cabeça para me procurar pela cama. Eu disse que estava escuro. Está escuro e o cheiro de hortelã grudou na minha pele como se tivesse medo de cair. Eu quero ir até a cozinha mas tenho medo também de cair sobre os móveis e nunca mais levantar. De cair no chão e não saber me arrastar. Como uma boneca sentada numa cadeira, eu esperava que me tirassem dali. Esperava que me levassem para passear num carro vermelho ou até o cinema da esquina, que antes de dormir me contassem uma história bem bonita para eu poder pegar no sono e deixassem a luz do abajur acesa depois de me prometer que se eu fosse uma menina boazinha, amanhã não precisaria mais de tantas nebulizações. Eu esperava.
-

Definições de capitalismo

Capitalismo ideal: Você tem duas vacas. Vende uma e compra um touro. Eles se multiplicam, e a economia cresce. Você vende o rebanho e aposenta-se, rico!

Capitalismo americano: Você tem duas vacas. Vende uma e força a outra a produzir leite de quatro vacas. Fica surpreso quando ela morre.

Capitalismo francês: Você tem duas vacas. Entra em greve porque quer três.

Capitalismo canadense: Você tem duas vacas. Usa o modelo do capitalismo americano. As vacas morrem. Você acusa o protecionismo brasileiro e adota medidas protecionistas para ter as três vacas do capitalismo francês.

Capitalismo japonês: Você tem duas vacas. Redesenha-as para que tenham um décimo do tamanho de uma vaca normal e produzam 20 vezes mais leite. Depois cria desenhinhos de vacas chamados Vaquimon e os vende para o mundo inteiro.

Capitalismo italiano: Você tem duas vacas. Uma delas é sua mãe, a outra é sua sogra, maledetto!!!

Capitalismo Enron: Você tem duas vacas. Vende três para a sua companhia de capital aberto usando garantias de crédito emitidas por seu cunhado. Depois faz uma troca de dívidas por ações por meio de uma oferta geral associada, de forma que você consegue todas as quatro vacas de volta, com isenção fiscal para cinco vacas. Os direitos do leite das seis vacas são transferidos para uma companhia das Ilhas Cayman, da qual o sócio majoritário é secretamente o dono. Ele vende os direitos das sete vacas novamente para a sua companhia. O relatório anual diz que a companhia possui oito vacas, com uma opção para mais uma. Você vende uma vaca para comprar um novo presidente dos Estados Unidos e fica com nove vacas. Ninguém fornece balanço das operações e o público compra o seu esterco.

Capitalismo britânico: Você tem duas vacas. As duas são loucas.

Capitalismo holandês: Você tem duas vacas. Elas vivem juntas, não gostam de touros e tudo bem.

Capitalismo alemão: Você tem duas vacas. Elas produzem leite regularmente,segundo padrões de quantidade e horário previamente estabelecido, de forma precisa e lucrativa. Mas o que você queria mesmo era criar porcos.

Capitalismo russo: Você tem duas vacas. Conta-as e vê que tem cinco. Conta de novo e vê que tem 42. Conta de novo e vê que tem 12 vacas. Você pára de contar e abre outra garrafa de vodca.

Capitalismo suíço: Você tem 500 vacas, mas nenhuma é sua. Você cobra para guardar a vaca dos outros.

Capitalismo espanhol: Você tem muito orgulho de ter duas vacas.

Capitalismo português: Você tem duas vacas. E reclama porque seu rebanho não cresce...

Capitalismo chinês: Você tem duas vacas e 300 pessoas tirando leite delas. Você se gaba de ter pleno emprego e alta produtividade. E prende o ativista que divulgou os números.

Capitalismo hindu: Você tem duas vacas. Ai de quem tocar nelas.

Capitalismo argentino: Você tem duas vacas. Você se esforça para ensinar as vacas a mugir em inglês. As vacas morrem. Você entrega a carne delas para o churrasco de fim de ano do FMI.

Capitalismo brasileiro: Você tem duas vacas. Uma delas é roubada. O governo cria a CCPV- Contribuição Compulsória pela Posse de Vaca. Um fiscal vem e te autua, porque embora você tenha recolhido corretamente CCPV, o valor era pelo número de vacas presumidas e não pelo de vacas reais. A Receita Federal, por meio de dados também presumidos do seu consumo de leite, queijo, sapatos de couro, botões, presumia que você tivesse 200 vacas e para se livrar da encrenca, você dá a vaca restante para o fiscal deixar por isso mesmo...


(autor desconhecido)





20.9.02

Pedro Kilkerry

Pedro Kilkerry, poeta baiano, nasceu no final do séc. 19 e é praticamente desconhecido entre nós. Não publicou nada em vida pois detestava escrever e achava que editar livros implicava prostituir-se de alguma forma. Ele escrevia nas paredes, na cabeceira da cama e sabia tudo de memória, dizendo nos bares para os amigos, nunca no papel. O que ficou dele foi publicado pela revista baiana "Nova Cruzada", um movimento de poetas acadêmicos da época. Em 1978, Raymundo Amado fez um documentário sobre o poeta intitulado Harpa esquisita. São deste filme os textos de Kilkerry aqui apresentados.


"...E a gente pensa que a vida é um bem, mas a morte não é um grande mal, como dizia a grega Safo, porque, então, se compreende o panteísmo esquiliano: Zeus é o céu e muito melhor é ainda tudo que está além de tudo isso...por cima de representação comum, onde, aos pares, gozarmos o infinito."

"Há avesso em tudo. Penso nos grandes gestos das individualidades excelsas, no perdão de Jesus, nos passos energicamente espiritualizados de João Huss, caminho da fogueira rubra do Sacrifício, em Giordano Bruno e tantas outras chamas magníficas da vida, largadas como bênçãos sobre a marulhada soturna dos anos que vão, que foram para o cinzento devorante e infinito do Nada."

"A terra gira, quietinha, quietinha, e nós não sabemos nada, nem de nós, nem de nada, na vaidade de nos sabermos cheios de um futuro."

"Uma alma não é discípula de ninguém. Entre espíritos afins pode haver superioridade e inferioridade que não dependem de aprendizagem nenhuma."

"A filosofia já é ação, o sonho é ação, o cinismo, seja ou não por lei obrigatória, é grande parte na ação de dia-a-dia, o heroísmo é o mais humilde operário ou rei do petróleo, a poesia é a própria vida tumultuada, sem retardo, sem moras, sem decrepitude. O metro é livre: vivamo-lo."

"O homem de hoje deve nascer, nasce, com o instinto da modernidade."
"Olhos novos para o novo! Tudo é outro ou tende para outro."
-

18.9.02

Herculine Barbin

"Inicialmente a intimidade que havia entre mim e Sara era muito admirada, mas com o tempo passou a ser criticada pela maioria das pessoas que a considerava um pouco exagerada e por que não dizer suspeita. Mas estavam ainda muito longe da verdade. Por falta de conhecimento, fazia-se todo tipo de comentários, até que afinal, como sempre, algumas comadres caridosas decidiram prevenir a sra. P., em nome da moral ultrajada por nossa conduta cotidiana diante das alunas. Principalmente eu sofri graves acusações. Transformaram em crime o fato de eu beijar com muita freqüência a srta. Sara. Começamos a observar que, de fato, éramos objeto de sérios exames por parte das alunas mais velhas. Quando me viam abaixar e apertar Sara em meus braços, desviavam a cabeça com embaraço, como se tivessem medo de nos ver ruborescer. As internas principalmente, que nos viam dormir e acordar, manifestaram mais de uma vez seu espanto em relação a determinados detalhes que, sem dúvida, as assustavam. Evidentemente faziam comentários a esse respeito. Daí os rumores que se espalhavam pela cidade. A sra. P., que era extremamente cuidadosa em relação ao bom nome de sua casa, ficou seriamente afetada com isso. Não ousando falar sobre esse assunto comigo, chamou sua filha. "Sara", disse ela, "por favor, daqui por diante seja mais discreta em suas relações com a srta. Camille. Sei que vocês se gostam muito, e de minha parte fico feliz com isso, mas há conveniências que mesmo entre moças devem ser observadas." Esse primeiro ataque nos fez temer pelo futuro. O que seria de nós quando descobrissem a verdade?"

--- "Herculine Barbin, o Diário de um Hermafrodita" (1860), apresentação de Michel Foucault.

Jorge Luis Borges

"Todas as literaturas começaram pela poesia. Estudei as origens da literatura anglo-saxônica e achei a épica, séculos de épica, antes de chegar à prosa. Os conhecedores deram a explicação: é mais fácil conseguir a unidade de um verso e depois repeti-lo inúmeras vezes, do que se lançar na complexidade da prosa, onde não se pode repetir o jogo. A prosa é complexa, difícil, e para mim na verdade a prosa é a última forma da poesia. O homem começou cantando seus mitos, celebrando seus heróis, seus guerreiros, embora depois, graças a Deus, descobrisse outros temas."
.................................

"A poesia japonesa se baseia no contraste. Não se compara uma coisa com outra, contrasta-se. Um dos mais famosos exemplos da poesia japonesa, traduzido, se expressaria assim: 'Sobre o grande sino de bronze pousou uma borboleta.' Há traduções diferentes, mas é mais ou menos assim. Aí obviamente não se compara nada com nada, se contrasta. O firme e durável sino de bronze com a efêmera borboleta. Não há metáfora."
-

17.9.02

Capinam

"Vou tentar a desistência
vou sentar aqui
ficar sem ir
e esperar por mim que vem atrás
os frutos caem
o carro corre
o poeta morre
o mundo marcha para sua manhã
e a sinfonia não pára

-- sendo fatalidade, fico aqui --
se em tudo existe a própria máquina
pouco acrescenta ir ou não ir

gritam
pulam
ficam eufóricos
nunca práticos
todos teóricos
abrem camisa arrancam gravata
dizem senões
perdem botões
e permanecem homens
............ filhos da hora
............ irmãos do momento

eu vou parar
que venha a noite

se vier com luz
amém

se vier escura
amém

se vier mulher
bem, aí muito bem."


-"Poeta e Realidade (O Desistente)".

16.9.02

Antônio Fraga

Sururu no Mangue


Alta madrugada oscar pereira vulgo desabrigo topou na rua benedito hipólito com seu velho desafeto amauri dos santos silva mais conhecido na zona do canal e redondezas por cobrinha Gastando sutilezas do vernáculo cobrinha mandou o outro à ponte que caiu e como o já citado outro solicitasse a gaita da passagem lhe deu um tapa ficando a rua assim de gente pra ver o frege Ao ser esculachado desabrigo gritou que era macho e partiu feroz pra dentro de cobrinha empunhando um ferro Este sem dizer ao menos mes amis mes ennemis cherchez l'étoile du matin comprou uma sueca num marujo que gozava o esporro e deu uma solinjada na cara do parceiro abrindo larga avenida na referida cara Com a chegada da canastra cobrinha azulou e desabrigo foi encaminhado ao pronto-socorro onde teve oportunidade de fazer elogiosas referências às novas instalações

Acabamos de rabiscar esta notícia quando fomos informados de que o delegado anacreonte feitosa em hábil diligência conseguiu encanar quatro estivadores pois suspeita que a sueca tenha entrado de contrabando pelo vapor mauritânia

--- Em "Desabrigo e Outros Trecos".

14.9.02

Paul Valéry


A especialidade me é impossível.
Valho um sorriso. Você não é nem
poeta, nem filósofo, nem geômetra ---
nem outra coisa. Você não aprofunda
nada. Com que direito você fala daquilo
a que não se consagrou com
exclusividade?
Eu sou como o olho que vê o que vê.
Seu menor movimento muda o muro em nuvem
a nuvem em relógio; o relógio
em letras que falam. Talvez esteja aí
a minha especialidade.


13.9.02

Rogério Duarte

"como é que é meu caro ezra pound? vou acender um cigarro daqueles para ver se consigo lhe dizer isto. andei fazendo um pouco de tudo aquilo que você aconselhou para desenvolver a capacidade de bem escrever. estudei Homero; li o livro de Fenollosa sobre o ideograma chinês, tornei-me capaz de dedilhar um alaúde; todos os meus amigos agora são pessoas que têm o hábito de fazer boa música; pratiquei diversos exercícios de melopéia, fanopéia e logopéia, analisei criações de vários dos integrantes do seu paideuma.
continuo, no entanto, a sentir a mesma dificuldade do início. uma grande confusão na cabeça tão infinitamente grande confusão um vasto emaranhado de pensamentos misturados com as possíveis variantes que se completam antiteticamente."

---  "Carnaval 74".

Sherry Turkle

"Os primeiros computadores encorajaram a compreensão analítica completa no nível do elétron. Mas tudo mudou rapidamente. Em um desvio surpreendente e racional, na década passada, os engenhos mecânicos dos computadores fundamentaram a filosofia radicalmente não-mecânica do pós-modernismo. Ocorreram aí duas mudanças drásticas no uso do computador. A primeira foi a adoção disseminada de interfaces gráficas, a segunda, a súbita e enorme popularidade da internet. As formas modernistas de conhecimento foram capturadas por aquelas primeiras máquinas, e as formas pós-modernistas de conhecimento, uma ênfase na manipulação do aspecto exterior, foram apreendidas pelos computadores contemporâneos. Suas novas interfaces gráficas nos transferiram de uma cultura de cálculo para uma cultura de simulação. Hoje ficamos à vontade em ver as coisas pelo valor de interface e não nos preocupamos em tentar compreender o que poderia estar por baixo daquilo tudo. (...) Os computadores estimularam um novo estilo de pensar que posso chamar de tinkering, que essencialmente significa experimentar-tentar uma coisa e depois outra, em vez de proceder de acordo com uma análise sistemática. Os primeiros computadores exigiam que os usuários se ocupassem de uma coisa de uma maneira rígida, passo a passo, mas o estilo interativo levou o tinkering a se tornar o modus operandi dos PCs modernos e, assim, o estilo dominante de pensamento de uma nova geração."

--- Em "Life on the Screen".

11.9.02

19 princípios para a crítica literária

Em 1970 o crítico Roberto Schwarz escreveu o seu irônico "19 Princípios para a Crítica Literária". É curioso constatar como mais de trinta anos depois a maioria deles ainda parecem estar valendo:

-- Acusar os críticos mais velhos de impressionismo, os de esquerda de sociologismo, os minuciosos de formalismo, e reclamar para si uma posição de equilíbrio.

-- Citar em alemão os livros lidos em francês, em francês os espanhóis, e nos dois casos fora de contexto.

-- Nunca apresentar a vida do autor sem antes atacar o método biográfico.

-- Não esqueça: o marxismo é um reducionismo, e está superado pelo estruturalismo, pela fenomenologia, pela estilística, pela nova crítica americana, pelo formalismo russo, pela crítica estética, pela lingüística e pela filosofia das formas simbólicas.

-- Citar muito e nunca a propósito. Uma bibliografia extensa é capital. Apoie a sua tese na autoridade dos especialistas, de preferência incompatíveis entre si.

-- A argumentação deve ser técnica, sem relação com as conclusões.

-- Resolva sempre sem entrar no mérito da questão.

-- A psicanálise está menos superada que o marxismo, mas também é muito unilateral.

-- Publique longos resumos de livros sem importância, convença o editor a traduzi-los e o leitor a lê-los.

-- Um doutoramento vale ouro.

-- Muito cuidado com o óbvio. O mais seguro é documentá-lo sempre estatisticamente! Use um gráfico se houver espaço.
-

Guy de Maupassant

"Há alguns dias que ando com um pouco de febre. Sinto-me doente, ou melhor, sinto-me triste. De onde vêm essas influências misteriosas que transformam em desânimo a nossa felicidade e a nossa confiança em angústia? Dir-se-ia que o ar , o ar invisível, está cheio de potências incognoscíveis, de cuja misteriosa vizinhança sofremos a influência. Acordo cheio de alegria, com desejos de cantar -- Por quê? -- Desço até a margem do rio e, de súbito, após um curto passeio, regresso desolado como se alguma desgraça me esperasse em casa. -- Por quê? -- Será que um arrepio de frio, roçando minha pele, abalou meus nervos e entristeceu minha alma? Será que a forma das nuvens ou a cor do dia, a cor das coisas, tão variável, passando por meus olhos, perturbou meu pensamento? Quem sabe? Tudo o que nos cerca, tudo o que vemos sem olhar, tudo o que roçamos sem conhecer, tudo o que tocamos sem apalpar, tudo o que encontramos sem distinguir, causa em nós, em nossos órgãos, e por meio destes, em nossas idéias, e até em nosso coração, efeitos súbitos, surpreendentes e inexplicáveis?"

--- Em "O Horla".

9.9.02

Pego o ônibus da alma e por um instante acho que Deus não vai mais me aborrecer. Sou uma perfeita dama isolada numa aldeia aclimatada.

Um vestido de pano faz-me oscilar durante dias, convertendo o cristianismo em bolhas soltas no ar. Sou jovem e não estremeço. Posso estruturar um negócio. Posso prolongar a melancolia. Passo de um assunto a outro sem muitos poréns, o que é uma forma divertida de não perder tempo, de evitar familiaridades com o pensamento. Tenho o rosto esbranquiçado que poderia ser o de um cachorro, o de uma irmã, o de alguém que se conhece, se eu conseguisse ler sem meus óculos.

Oscar Wilde

"Não podemos ser excessivamente cuidadosos ao escolher os nossos inimigos. Nenhum dos que tenho é um imbecil. São todos homens de algum valor intelectual e, por conseguinte, me apreciam."
-

As 48 leis do poder (2)

Lei n. 2: Não confie demais nos amigos. Aprenda a usar os inimigos

Cautela com os amigos -- eles o trairão mais rapidamente, pois são com mais facilidade levados à inveja. Eles também se tornam mimados e tirânicos. Mas contrate um ex-inimigo e ele lhe será mais fiel do que um amigo, porque tem mais a provar. De fato, você tem mais o que temer por parte dos amigos do que dos inimigos. Se você não tem inimigos, descubra um jeito de tê-los.

--- Robert Greene e Joost Elffers, em "As 48 Leis do Poder".

"Brasil, choca o teu ovo..."

--- Raul Bopp

8.9.02

As 48 leis do poder (1)

Lei n. 1: Não ofusque o brilho do mestre

Faça sempre com que as pessoas acima de você se sintam confortavelmente superiores. Querendo agradar ou impressionar, não exagere exibindo seus próprios talentos ou poderá conseguir o contrário --- inspirar medo e insegurança. Faça com que seus mestres pareçam mais brilhantes do que são na realidade e você alcançará o ápice do poder.

--- Robert Greene e Joost Elffers, em "As 48 Leis do Poder".

Quando nada acontece, há uma merda que não estamos vendo.

--- remake de Guimarães Rosa.

7.9.02

Estou sem fluido e meus fósforos acabaram. Há três horas tento acender um cigarro no fogão sem chamuscar o cabelo. Eu não quero ir à rua só para comprar uma caixa de fósforo. Está chovendo e eu não devia fumar. Não devia. Dou uma volta pela casa e abro uma gaveta após a outra atrás de uns malditos fósforos. Em uma das gavetas há uma coleção de Zippos sem fluido. Nas outras não vejo fósforos. Devo tentar o fogão novamente? Está chovendo e se faltar luz eu não vou poder acender um cigarro no automático. Quando chove costuma faltar luz. Devo acender um cigarro agora? Devo acender todos de uma vez logo para me prevenir? Tenho vários maços de cigarro em casa e nenhum fósforo. Eu não devia ter tantos maços de cigarro em casa porque eu não deveria fumar. Sento aqui então e começo a escrever isto. Eu não estou fumando embora tenha vontade. Eu não deveria ter vontades. Ouço os pingos da chuva lá fora. Um pingo atrás do outro. Logo formarão uma poça. A poça ainda não existe. Está na minha imaginação. Eu não deveria imaginar coisas. Olho para a minha mesa e vejo o cinzeiro cheio de guimbas. Eu vou guardá-las pois os cigarros podem acabar uma hora. Eles sempre acabam. O telefone toca. É engano outra vez. Eu não gosto de atender telefone. E ele sempre toca. Descubro o reflexo do meu rosto na janela. Estou vestindo um casaco vermelho. Eu uso óculos. Uso não porque eu queira, porque preciso. Por que preciso? Eu não deveria precisar. Hoje estou chateada. Estou chateada porque sou chata. Sou chata e escrevo coisas chatas. Escrevo coisas chatas porque não estou fumando, embora se fumasse também escreveria coisas chatas. Chato é chato e ponto final. Devo acender um cigarro agora?

6.9.02

Fill with mingled cream and amber
I will drain that glass again.
Such hilarious visions clamber
Through the chamber of my brain ---
Quaintest thoughts --- queerest fancies
Come to life and fade away
What care I how time advances?
I am drinking ale today.

--- Edgar Allan Poe, em "The Unknown Poe", antologia organizada por Raymond Foye.

5.9.02

Lançado o meu curta-metragem A Quatrilha para o Festival de Cinema interblogs. Por que não?

4.9.02

Roberto Schwarz

ULISSES


A esperança posta num bonito salário
corações veteranos

Este vale de lágrimas. Estes píncaros de merda.

...............................

JURA

Vou me apegar muito a você
vou ser infeliz
vou lhe chatear


---- Em "26 Poetas Hoje".

2.9.02

Abraão Ibn Ezra

AS MOSCAS


Junto a quem fugirei para escapar ao meu tormento?
Lanço os altos brados contra o flagelo das moscas.
Elas não dão o menor sossego à minha vida
e me atacam com todas as forças, como o pior inimigo,
correndo sobre meus olhos e minhas pálpebras
e murmurando a meus ouvidos cantigas de amor.
Eu julgava comer inteiramente só o meu bocado:
eis que também elas o compartilham com apetite de lobo.
Elas bebem até mesmo de meu copo de vinho, como se
eu convidado as tivesse quais amigos ou parentes.
Mas não lhes bastou. Eu as vi sobre o vinho velho
e sobre o meu pedaço predileto de cordeiro
Nada mais lhes resta senão tomar o que eu levo à boca,
disputar-me o vinho que estou para beber e o pedaço que estou para comer.
Que eu convide à mesa os meus íntimos,
elas se metem nos primeiros lugares do festim.
Anseio ardentemente pelo inverno, que as destruirá
no frio das ventanias, das nevascas e dos aguaceiros.
Não fosse isto, elas me fariam horror,
mas, por isto, louvo aquele que está sobre os Querubins.

--- Abraão Ibn Ezra, poeta espanhol do séc. XII.

Waly Salomão

"Espero aprender inglês vendo tv em cores. sou um pinta de direita com vontade de poder um baiano faminto baiano é como papel higiênico: tão sempre na merda. eficácia da linguagem na linha Pound Tsé-tung. sou um reaça tento puxar tudo para trás: li retrato do artista quando jovem na tradução brasileira."

--- Em "Self-Portrait".

30.8.02

Houve um tempo em que eu misturava sexo com manga rosa e gozava só de acender. Houve um tempo em que eu me apaixonava bastava um gesto e a moto fazia 120 por hora. Houve um tempo em que eu lia Shakespeare, ouvia Kid Abelha com Black Sabbath e ninguém tinha nada com isso. Houve um tempo em que eu tive medo das drogas porque me disseram que Hendrix e Joplin morreram disso. Houve um tempo em que eu tentei mudar a sociedade com uma metralhadora mas queria chegar em casa cedo. Houve um tempo em que eu percebi que podia trocar a arma pela palavra mas a luta já havia acabado. Houve um tempo em que eu colocava no piloto automático Guevara, Pessoa, Drummond, Baudelaire, Artaud, Glauber, Torquato, Oswald, Nietzsche, Foucault, Maiakovski, Kerouac, Lautréamont, Camus, Poe, Lawrence, Virginia Woolf, Borges, Ionesco, Bukowski, os amigos mais loucos e os cortes de cabelo mais estranhos. Houve um tempo em que eu só era fotografada com um copo na mão e o mundo girava na minha cabeça sem claustrofobia. Houve um tempo em que eu descobri que as mulheres num canto de boate são mais do que amigas. Houve um tempo em que eu trabalhava porque precisava, depois porque gostava, depois porque não sabia fazer outra coisa. Houve um tempo em que o pôr-do-sol começou a ser chamado de Arpoador e a partir daí tudo ficou normal.

-

Beckett

"Eu sorrio ainda não vale mais a pena há muito tempo não vale mais a pena a língua ecoa vai na lama continuo assim mais sede a língua entra na boca se fecha ela deve fazer uma linha reta no momento está feita eu fiz a imagem."

--- "A Imagem".