"Vou tentar a desistência
vou sentar aqui
ficar sem ir
e esperar por mim que vem atrás
os frutos caem
o carro corre
o poeta morre
o mundo marcha para sua manhã
e a sinfonia não pára
-- sendo fatalidade, fico aqui --
se em tudo existe a própria máquina
pouco acrescenta ir ou não ir
gritam
pulam
ficam eufóricos
nunca práticos
todos teóricos
abrem camisa arrancam gravata
dizem senões
perdem botões
e permanecem homens
............ filhos da hora
............ irmãos do momento
eu vou parar
que venha a noite
se vier com luz
amém
se vier escura
amém
se vier mulher
bem, aí muito bem."
-"Poeta e Realidade (O Desistente)".
17.9.02
16.9.02
Antônio Fraga
Sururu no Mangue
Acabamos de rabiscar esta notícia quando fomos informados de que o delegado anacreonte feitosa em hábil diligência conseguiu encanar quatro estivadores pois suspeita que a sueca tenha entrado de contrabando pelo vapor mauritânia
--- Em "Desabrigo e Outros Trecos".
Alta madrugada oscar pereira vulgo desabrigo topou na rua benedito hipólito com seu velho desafeto amauri dos santos silva mais conhecido na zona do canal e redondezas por cobrinha Gastando sutilezas do vernáculo cobrinha mandou o outro à ponte que caiu e como o já citado outro solicitasse a gaita da passagem lhe deu um tapa ficando a rua assim de gente pra ver o frege Ao ser esculachado desabrigo gritou que era macho e partiu feroz pra dentro de cobrinha empunhando um ferro Este sem dizer ao menos mes amis mes ennemis cherchez l'étoile du matin comprou uma sueca num marujo que gozava o esporro e deu uma solinjada na cara do parceiro abrindo larga avenida na referida cara Com a chegada da canastra cobrinha azulou e desabrigo foi encaminhado ao pronto-socorro onde teve oportunidade de fazer elogiosas referências às novas instalações
Acabamos de rabiscar esta notícia quando fomos informados de que o delegado anacreonte feitosa em hábil diligência conseguiu encanar quatro estivadores pois suspeita que a sueca tenha entrado de contrabando pelo vapor mauritânia
14.9.02
Paul Valéry
A especialidade me é impossível.
Valho um sorriso. Você não é nem
poeta, nem filósofo, nem geômetra ---
nem outra coisa. Você não aprofunda
nada. Com que direito você fala daquilo
a que não se consagrou com
exclusividade?
Eu sou como o olho que vê o que vê.
Seu menor movimento muda o muro em nuvem
a nuvem em relógio; o relógio
em letras que falam. Talvez esteja aí
a minha especialidade.
13.9.02
Rogério Duarte
"como é que é meu caro ezra pound? vou acender um cigarro daqueles para ver se consigo lhe dizer isto. andei fazendo um pouco de tudo aquilo que você aconselhou para desenvolver a capacidade de bem escrever. estudei Homero; li o livro de Fenollosa sobre o ideograma chinês, tornei-me capaz de dedilhar um alaúde; todos os meus amigos agora são pessoas que têm o hábito de fazer boa música; pratiquei diversos exercícios de melopéia, fanopéia e logopéia, analisei criações de vários dos integrantes do seu paideuma.
continuo, no entanto, a sentir a mesma dificuldade do início. uma grande confusão na cabeça tão infinitamente grande confusão um vasto emaranhado de pensamentos misturados com as possíveis variantes que se completam antiteticamente."
Sherry Turkle
"Os primeiros computadores encorajaram a compreensão analítica completa no nível do elétron. Mas tudo mudou rapidamente. Em um desvio surpreendente e racional, na década passada, os engenhos mecânicos dos computadores fundamentaram a filosofia radicalmente não-mecânica do pós-modernismo. Ocorreram aí duas mudanças drásticas no uso do computador. A primeira foi a adoção disseminada de interfaces gráficas, a segunda, a súbita e enorme popularidade da internet. As formas modernistas de conhecimento foram capturadas por aquelas primeiras máquinas, e as formas pós-modernistas de conhecimento, uma ênfase na manipulação do aspecto exterior, foram apreendidas pelos computadores contemporâneos. Suas novas interfaces gráficas nos transferiram de uma cultura de cálculo para uma cultura de simulação. Hoje ficamos à vontade em ver as coisas pelo valor de interface e não nos preocupamos em tentar compreender o que poderia estar por baixo daquilo tudo. (...) Os computadores estimularam um novo estilo de pensar que posso chamar de tinkering, que essencialmente significa experimentar-tentar uma coisa e depois outra, em vez de proceder de acordo com uma análise sistemática. Os primeiros computadores exigiam que os usuários se ocupassem de uma coisa de uma maneira rígida, passo a passo, mas o estilo interativo levou o tinkering a se tornar o modus operandi dos PCs modernos e, assim, o estilo dominante de pensamento de uma nova geração."
11.9.02
19 princípios para a crítica literária
Em 1970 o crítico Roberto Schwarz escreveu o seu irônico "19 Princípios para a Crítica Literária". É curioso constatar como mais de trinta anos depois a maioria deles ainda parecem estar valendo:
-- Acusar os críticos mais velhos de impressionismo, os de esquerda de sociologismo, os minuciosos de formalismo, e reclamar para si uma posição de equilíbrio.
-- Citar em alemão os livros lidos em francês, em francês os espanhóis, e nos dois casos fora de contexto.
-- Nunca apresentar a vida do autor sem antes atacar o método biográfico.
-- Não esqueça: o marxismo é um reducionismo, e está superado pelo estruturalismo, pela fenomenologia, pela estilística, pela nova crítica americana, pelo formalismo russo, pela crítica estética, pela lingüística e pela filosofia das formas simbólicas.
-- Citar muito e nunca a propósito. Uma bibliografia extensa é capital. Apoie a sua tese na autoridade dos especialistas, de preferência incompatíveis entre si.
-- A argumentação deve ser técnica, sem relação com as conclusões.
-- Resolva sempre sem entrar no mérito da questão.
-- A psicanálise está menos superada que o marxismo, mas também é muito unilateral.
-- Publique longos resumos de livros sem importância, convença o editor a traduzi-los e o leitor a lê-los.
-- Um doutoramento vale ouro.
-- Muito cuidado com o óbvio. O mais seguro é documentá-lo sempre estatisticamente! Use um gráfico se houver espaço.
-
Guy de Maupassant
"Há alguns dias que ando com um pouco de febre. Sinto-me doente, ou melhor, sinto-me triste. De onde vêm essas influências misteriosas que transformam em desânimo a nossa felicidade e a nossa confiança em angústia? Dir-se-ia que o ar , o ar invisível, está cheio de potências incognoscíveis, de cuja misteriosa vizinhança sofremos a influência. Acordo cheio de alegria, com desejos de cantar -- Por quê? -- Desço até a margem do rio e, de súbito, após um curto passeio, regresso desolado como se alguma desgraça me esperasse em casa. -- Por quê? -- Será que um arrepio de frio, roçando minha pele, abalou meus nervos e entristeceu minha alma? Será que a forma das nuvens ou a cor do dia, a cor das coisas, tão variável, passando por meus olhos, perturbou meu pensamento? Quem sabe? Tudo o que nos cerca, tudo o que vemos sem olhar, tudo o que roçamos sem conhecer, tudo o que tocamos sem apalpar, tudo o que encontramos sem distinguir, causa em nós, em nossos órgãos, e por meio destes, em nossas idéias, e até em nosso coração, efeitos súbitos, surpreendentes e inexplicáveis?"
--- Em "O Horla".
9.9.02
Pego o ônibus da alma e por um instante acho que Deus não vai mais me aborrecer. Sou uma perfeita dama isolada numa aldeia aclimatada.
Um vestido de pano faz-me oscilar durante dias, convertendo o cristianismo em bolhas soltas no ar. Sou jovem e não estremeço. Posso estruturar um negócio. Posso prolongar a melancolia. Passo de um assunto a outro sem muitos poréns, o que é uma forma divertida de não perder tempo, de evitar familiaridades com o pensamento. Tenho o rosto esbranquiçado que poderia ser o de um cachorro, o de uma irmã, o de alguém que se conhece, se eu conseguisse ler sem meus óculos.
Um vestido de pano faz-me oscilar durante dias, convertendo o cristianismo em bolhas soltas no ar. Sou jovem e não estremeço. Posso estruturar um negócio. Posso prolongar a melancolia. Passo de um assunto a outro sem muitos poréns, o que é uma forma divertida de não perder tempo, de evitar familiaridades com o pensamento. Tenho o rosto esbranquiçado que poderia ser o de um cachorro, o de uma irmã, o de alguém que se conhece, se eu conseguisse ler sem meus óculos.
Oscar Wilde
"Não podemos ser excessivamente cuidadosos ao escolher os nossos inimigos. Nenhum dos que tenho é um imbecil. São todos homens de algum valor intelectual e, por conseguinte, me apreciam."
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-
As 48 leis do poder (2)
Lei n. 2: Não confie demais nos amigos. Aprenda a usar os inimigos
--- Robert Greene e Joost Elffers, em "As 48 Leis do Poder".
Cautela com os amigos -- eles o trairão mais rapidamente, pois são com mais facilidade levados à inveja. Eles também se tornam mimados e tirânicos. Mas contrate um ex-inimigo e ele lhe será mais fiel do que um amigo, porque tem mais a provar. De fato, você tem mais o que temer por parte dos amigos do que dos inimigos. Se você não tem inimigos, descubra um jeito de tê-los.
8.9.02
As 48 leis do poder (1)
Lei n. 1: Não ofusque o brilho do mestre
--- Robert Greene e Joost Elffers, em "As 48 Leis do Poder".
Faça sempre com que as pessoas acima de você se sintam confortavelmente superiores. Querendo agradar ou impressionar, não exagere exibindo seus próprios talentos ou poderá conseguir o contrário --- inspirar medo e insegurança. Faça com que seus mestres pareçam mais brilhantes do que são na realidade e você alcançará o ápice do poder.
--- Robert Greene e Joost Elffers, em "As 48 Leis do Poder".
7.9.02
Estou sem fluido e meus fósforos acabaram. Há três horas tento acender um cigarro no fogão sem chamuscar o cabelo. Eu não quero ir à rua só para comprar uma caixa de fósforo. Está chovendo e eu não devia fumar. Não devia. Dou uma volta pela casa e abro uma gaveta após a outra atrás de uns malditos fósforos. Em uma das gavetas há uma coleção de Zippos sem fluido. Nas outras não vejo fósforos. Devo tentar o fogão novamente? Está chovendo e se faltar luz eu não vou poder acender um cigarro no automático. Quando chove costuma faltar luz. Devo acender um cigarro agora? Devo acender todos de uma vez logo para me prevenir? Tenho vários maços de cigarro em casa e nenhum fósforo. Eu não devia ter tantos maços de cigarro em casa porque eu não deveria fumar. Sento aqui então e começo a escrever isto. Eu não estou fumando embora tenha vontade. Eu não deveria ter vontades. Ouço os pingos da chuva lá fora. Um pingo atrás do outro. Logo formarão uma poça. A poça ainda não existe. Está na minha imaginação. Eu não deveria imaginar coisas. Olho para a minha mesa e vejo o cinzeiro cheio de guimbas. Eu vou guardá-las pois os cigarros podem acabar uma hora. Eles sempre acabam. O telefone toca. É engano outra vez. Eu não gosto de atender telefone. E ele sempre toca. Descubro o reflexo do meu rosto na janela. Estou vestindo um casaco vermelho. Eu uso óculos. Uso não porque eu queira, porque preciso. Por que preciso? Eu não deveria precisar. Hoje estou chateada. Estou chateada porque sou chata. Sou chata e escrevo coisas chatas. Escrevo coisas chatas porque não estou fumando, embora se fumasse também escreveria coisas chatas. Chato é chato e ponto final. Devo acender um cigarro agora?
6.9.02
Fill with mingled cream and amber
I will drain that glass again.
Such hilarious visions clamber
Through the chamber of my brain ---
Quaintest thoughts --- queerest fancies
Come to life and fade away
What care I how time advances?
I am drinking ale today.
--- Edgar Allan Poe, em "The Unknown Poe", antologia organizada por Raymond Foye.
I will drain that glass again.
Such hilarious visions clamber
Through the chamber of my brain ---
Quaintest thoughts --- queerest fancies
Come to life and fade away
What care I how time advances?
I am drinking ale today.
--- Edgar Allan Poe, em "The Unknown Poe", antologia organizada por Raymond Foye.
4.9.02
Roberto Schwarz
ULISSES
A esperança posta num bonito salário
corações veteranos
Este vale de lágrimas. Estes píncaros de merda.
...............................
JURA
Vou me apegar muito a você
vou ser infeliz
vou lhe chatear
---- Em "26 Poetas Hoje".
A esperança posta num bonito salário
corações veteranos
Este vale de lágrimas. Estes píncaros de merda.
...............................
JURA
Vou me apegar muito a você
vou ser infeliz
vou lhe chatear
---- Em "26 Poetas Hoje".
2.9.02
Abraão Ibn Ezra
AS MOSCAS
Junto a quem fugirei para escapar ao meu tormento?
Lanço os altos brados contra o flagelo das moscas.
Elas não dão o menor sossego à minha vida
e me atacam com todas as forças, como o pior inimigo,
correndo sobre meus olhos e minhas pálpebras
e murmurando a meus ouvidos cantigas de amor.
Eu julgava comer inteiramente só o meu bocado:
eis que também elas o compartilham com apetite de lobo.
Elas bebem até mesmo de meu copo de vinho, como se
eu convidado as tivesse quais amigos ou parentes.
Mas não lhes bastou. Eu as vi sobre o vinho velho
e sobre o meu pedaço predileto de cordeiro
Nada mais lhes resta senão tomar o que eu levo à boca,
disputar-me o vinho que estou para beber e o pedaço que estou para comer.
Que eu convide à mesa os meus íntimos,
elas se metem nos primeiros lugares do festim.
Anseio ardentemente pelo inverno, que as destruirá
no frio das ventanias, das nevascas e dos aguaceiros.
Não fosse isto, elas me fariam horror,
mas, por isto, louvo aquele que está sobre os Querubins.
--- Abraão Ibn Ezra, poeta espanhol do séc. XII.
Junto a quem fugirei para escapar ao meu tormento?
Lanço os altos brados contra o flagelo das moscas.
Elas não dão o menor sossego à minha vida
e me atacam com todas as forças, como o pior inimigo,
correndo sobre meus olhos e minhas pálpebras
e murmurando a meus ouvidos cantigas de amor.
Eu julgava comer inteiramente só o meu bocado:
eis que também elas o compartilham com apetite de lobo.
Elas bebem até mesmo de meu copo de vinho, como se
eu convidado as tivesse quais amigos ou parentes.
Mas não lhes bastou. Eu as vi sobre o vinho velho
e sobre o meu pedaço predileto de cordeiro
Nada mais lhes resta senão tomar o que eu levo à boca,
disputar-me o vinho que estou para beber e o pedaço que estou para comer.
Que eu convide à mesa os meus íntimos,
elas se metem nos primeiros lugares do festim.
Anseio ardentemente pelo inverno, que as destruirá
no frio das ventanias, das nevascas e dos aguaceiros.
Não fosse isto, elas me fariam horror,
mas, por isto, louvo aquele que está sobre os Querubins.
--- Abraão Ibn Ezra, poeta espanhol do séc. XII.
Waly Salomão
"Espero aprender inglês vendo tv em cores. sou um pinta de direita com vontade de poder um baiano faminto baiano é como papel higiênico: tão sempre na merda. eficácia da linguagem na linha Pound Tsé-tung. sou um reaça tento puxar tudo para trás: li retrato do artista quando jovem na tradução brasileira."
--- Em "Self-Portrait".
30.8.02
Houve um tempo em que eu misturava sexo com manga rosa e gozava só de acender. Houve um tempo em que eu me apaixonava bastava um gesto e a moto fazia 120 por hora. Houve um tempo em que eu lia Shakespeare, ouvia Kid Abelha com Black Sabbath e ninguém tinha nada com isso. Houve um tempo em que eu tive medo das drogas porque me disseram que Hendrix e Joplin morreram disso. Houve um tempo em que eu tentei mudar a sociedade com uma metralhadora mas queria chegar em casa cedo. Houve um tempo em que eu percebi que podia trocar a arma pela palavra mas a luta já havia acabado. Houve um tempo em que eu colocava no piloto automático Guevara, Pessoa, Drummond, Baudelaire, Artaud, Glauber, Torquato, Oswald, Nietzsche, Foucault, Maiakovski, Kerouac, Lautréamont, Camus, Poe, Lawrence, Virginia Woolf, Borges, Ionesco, Bukowski, os amigos mais loucos e os cortes de cabelo mais estranhos. Houve um tempo em que eu só era fotografada com um copo na mão e o mundo girava na minha cabeça sem claustrofobia. Houve um tempo em que eu descobri que as mulheres num canto de boate são mais do que amigas. Houve um tempo em que eu trabalhava porque precisava, depois porque gostava, depois porque não sabia fazer outra coisa. Houve um tempo em que o pôr-do-sol começou a ser chamado de Arpoador e a partir daí tudo ficou normal.
-
Beckett
"Eu sorrio ainda não vale mais a pena há muito tempo não vale mais a pena a língua ecoa vai na lama continuo assim mais sede a língua entra na boca se fecha ela deve fazer uma linha reta no momento está feita eu fiz a imagem."
--- "A Imagem".
Nelson Rodrigues
"O brasileiro não sabe ser inteligente com naturalidade. Vejam o francês. Jean-Paul Sartre, por exemplo. É um homem que inspira, aqui, admirações abjetas. Dizem: "A maior cabeça do mundo." Pois Sartre é inteligente com relativo tédio. E, por vezes, ele tem o que eu chamaria de "a nostalgia da burrice". Nessas ocasiões, diz as bobagens mais hediondas. Do mesmo modo o inglês, que também é inteligente sem espanto, sem angústia, sem deslumbramento. E não há mistério. O inglês, ou francês, encontra a língua feita e repito: um idioma que pensa por ele. Uma lavadeira parisiense é uma estilista, um cocheiro fala como um grã-fino de Racine. Ao passo que nós temos de recriar, dia após dia, a nossa língua e pensar em péssimo estilo."
28.8.02
Sonhei que eu entrava no Ovo do Dia e pedia um bate-entope. Sentava numa mesa vazia e uma mula-sem-cabeça me servia um sanduíche de bife à milanesa. Enquanto eu mordia o pão senti meus pés nus afofando a serragem espalhada pelo chão. A mula, que não tinha cabeça mas falava, puxou assunto: "Sou do tempo em que mulher tomava Regulador Xavier, homem usava Brylcrem e os dois limpavam a bunda com Tico-Tico." Tu é véia, mula? A mula virou assim meio de lado, esticou os beiços vermelhos e muxoxou "Néris, assim assim. Sou a mula-sem-cabeça de James Dean". Não diz -- eu fiquei extasiada. Eu daria tudo para ser a mula-sem-cabeça de James Dean. Ela percebeu o brilho em meus olhos e ciscou o chão com a pata dianteira: "E não é?" Com o rabo do olho reparei que ela usava galochas. Vai chover, mula? "Só se São Pedro quiser", ela respondeu dando de ombros. Tentei voltar ao assunto de James Dean mas ela cortou logo pra dizer que se chamava Desdêmona e que à noite trabalhava no circo mas tinha medo de carnaval porque não gostava de gente mascarada. Eu sorri porque me lembrei de uma música que não valia a pena cantar. Lá de dentro da cozinha do bar vinha um forte cheiro de cebolas fritas e ouvi minha mãe apertando o pescoço de uma galinha. A mula fez que não viu minha perturbação e começou a cantarolar uns versos enquanto se afastava. "Leões cheios de sombra e de melancolia." Eu forcei a memória para lembrar do poeta mas o sonho já estava desbotando. Mula? Eu quis chamá-la para dizer que não tinha mais medo do escuro porque agora tomava comprimidos para dormir. Mula? Eu queria dizer que você já não me mete medo porque depois da televisão nada mais me assusta. Mas a mula já estava no ponto de ônibus e pegou o Barão de Drummond antes que eu pudesse alcançá-la, antes que eu adormecesse de novo.
-
27.8.02
Elizabeth Bishop
ONE ART
The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.
Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.
Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.
I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn't hard to master.
I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.
-- Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster.
-
The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.
Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.
Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.
I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn't hard to master.
I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.
-- Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster.
-
Teoria geral dos chatos
Jaguar em seu livro "Confesso que bebi" descreve a teoria geral dos chatos de Tom Jobim e por que este frequentava a churrascaria Plataforma, no Rio. Dizia Tom: "Grandes ambientes confundem o chato, ele se desconcentra. Ai de ti quando o chato consegue te encurralar num canto de bar, sem óculos escuros. Bloqueia a passagem, olho no olho, te toca, te enche de perdigotos. Aí não tem escapatória... Óculos escuros é fundamental. O chato exige atenção pupilar. Sem saber para onde você está olhando, ele perde o moral, aí você aproveita o momento de fraqueza e escapa."
-
25.8.02
Hilda Hilst
"Eu tenho oito anos. Eu vou contar tudo do jeito que eu sei porque mamãe e papai me falaram para eu contar do jeito que eu sei. E depois eu falo do começo da história. Agora eu quero falar do moço que veio aqui e que mami me disse agora que não é tão moço, e então eu me deitei na minha caminha que é muito bonita, toda cor-de-rosa. E mami só pôde comprar essa caminha depois que eu comecei a fazer isso que eu vou contar. Eu deitei com a minha boneca e o homem que não é tão moço pediu para eu tirar a calcinha. Eu tirei. Aí ele pediu para eu abrir as perninhas e ficar deitada e eu fiquei. Então ele começou a passar a mão na minha coxa que é muito fofinha e gorda, e pediu que eu abrisse as minhas perninhas. Eu gosto muito quando passam a mão na minha coxinha. Daí o homem disse pra eu ficar bem quietinha, que ele ia dar um beijo na minha coisinha. Ele começou a me lamber como o meu gato se lambe, bem devagarinho, e apertava gostoso o meu bumbum. Eu fiquei bem quietinha porque é uma delícia e eu queria que ele ficasse lambendo o tempo inteiro, mas ele tirou aquela coisona dele, o piupiu, e o piupiu era um piupiu bem grande, do tamanho de uma espiga de milho, mais ou menos. Mami falou que não podia ser assim tão grande, mas ela não viu, e quem sabe o piupiu do papi seja mais pequeno, do tamanho de uma espiga mais pequena, de milho verdinho. Também não sei, porque nunca vi direito o piupiu do papi. O moço pediu pra eu dar um beijinho naquela coisa dele tão dura. Eu comecei a rir um pouquinho só, ele disse que não era pra rir nem um só pouquinho, que atrapalhava ele se eu risse, que era pra eu ficar quietinha e lamber o piupiu dele como a gente lambe um sorvete de chocolate ou creme, de casquinha, quando o sorvete está no comecinho. Então eu lambi. Aí ele disse pra esperar, e foi até aquela mesinha do meu quarto perto do espelho. É um espelho bem comprido, em volta tem pintura cor-de-rosa, ele pediu para eu ficar deitadinha nas almofadas do chão na frente do espelho com as pernas bem abertas. Eu fiquei. Aí ele tirou da malinha dele uma pasta que parecia pasta de dente grande e apertou a pasta e deu pra eu experimentar e tinha gosto de creme de chocolate. Ele passou o chocolate no piupiu dele, aí eu fui lambendo e era demais gostoso, e o moço falava: ai que gostoso, sua putinha. Eu também achava uma delícia mas não falei nada porque se eu falasse tinha de parar de lamber."
--- Hilda Hilst, no polêmico livro "O Caderno Rosa de Lori Lamby", 1990, Massao Ohno, SP.
23.8.02
Ácaro, Operação Terra. No mundo pós-holocausto nuclear, o último ser vivo a escapar da sanha assassina dos cyborgs será o Ácaro. O Ácaro não veio do espaço, não é alienígena, não tem o rosto de Marte. O Ácaro é o Darth Vader de Deus e coleciona pedaços de tecido humano. O Ácaro é uma máquina de destruição. Uma epidemia. E dele a humanidade não escapará. Ele irá ao seu encalço. No planeta dos macacos, na estação de Alphaville, no labirinto de videogames, no outro lado do inferno, numa órbita do futuro. O ser humano está com os dias contados. Inútil tentar dizimá-lo. Com sua carapaça indestrutível, o Ácaro se apossará do lixo atômico após o cataclisma final da derradeira hecatombe. E em sua espasmódica câmara dos horrores seremos todos estranhos visitantes. Porque o Ácaro está em mim e na tumba do faraó Tutancamon. Está em você e no cardápio da sua próxima refeição. Até o fim dos tempos.
-
21.8.02
"O primeiro parágrafo de tudo é como um iceberg. Quem tem medo contorna. Quem tem pressa afunda." Fiquei olhando para a cara dele sem saber se ele estava falando de literatura ou da minha vida. Se pelo menos ele tivesse agregado um navio a sua imagem de polichinelo, eu teria me situado melhor. Minha vida não era nenhum Potemkin, mas também não chegava a ser o Titanic. Ficava ali no meio, fazendo marola, como este chope choco que estamos bebendo agora. Marcos, o carinha que está aqui na minha frente contra a minha vontade, é professor de literatura e crítico de arte nas horas vagabas. Colabora com resenhas literárias para jornais que nunca leio e tem predileção por citar nomes de escritores mortos que nunca lerei, o que sempre me deixa com o pé atrás. O que eu estou fazendo aqui com ele? Pois é, eu estava sozinha em casa e de repente me vi diante de duas opções: o suicídio ou lavar um tanque cheio de roupa suja porque eu já estava ficando nua. Como possuo um temperamento naturalmente vegetativo, achei melhor sair para beber no bar de sempre. E adivinhe quem estava lá? Ele deu um tapinha calculado em minhas costas e me convidou para a mesa dele que ficava na pior localização: de frente pro banheiro. Eu não podia reclamar pois vivia dura e por isso mesmo era figurinha repetida naquele muquifo, onde minhas contas eram sempre penduradas. A situação andava tão braba que se eu quisesse me matar teria de me jogar na frente do metrô porque não tinha grana nem para comprar barbitúricos e morrer em grande estilo, além do que morava no segundo andar do prédio. Nada feito. Falta de dinheiro, roupa suja pra lavar, comida a quilo, TV aberta, filar cigarros, pendurar contas, eu já estava ficando com síndrome de abstinência de glamour. Tinha saudades da rota 66 em plena Avenida Brasil. E assim as horas foram passando, minha cabeça rodou e eu comecei a ver vários professores de literatura na minha frente, todos me falando sobre o que a literatura deve ser e o que nunca ela deve ser. Eu ouvia um coro grego: "Escrever é a arte de enganar o leitor sem passá-lo para trás." Onde é que eu tinha lido isso mesmo? Me lembrei de que eu não havia jantado, sequer almoçado. "Você está se destruindo, devia se preocupar em publicar seus textos em vez de ficar bebendo feito um gambá. Diletantismo não leva a nada." Então eu era um gambá diletante? Acho que eu estava ficando azul. As palavras dele eram bolas numa mesa de ping-pong. "Desça dessa cruz. Alguém pode estar precisando da madeira." Qual era o problema dele afinal? Um clichê aqui, uma piadinha cretina acolá, seria mais original se tivesse me oferecido um sanduíche de salaminho. "Você é neurastênica?" Não até que você me obrigue. Nessa hora formou-se uma rodinha de pagode na mesa ao lado e eu comecei a cantar junto com eles. Meu amigo fez cara de nojo e murmurou um pra mim chega só para que eu ouvisse. Deixou uma nota de 50 paus sobre a mesa e foi embora sem tchaus. Eu sorri de leve para os pagodeiros, guardei o dinheiro na bolsa e pedi ao garçom por favor uma mesa ao lado da janela. Ainda é cedo.
-
19.8.02
Raymond Chandler
"Ele caminhou em direção à porta, parou no meio do caminho olhando para o sol no carpete, olhou de novo para ela rapidamente e então saiu.
Quando a porta se fechou, ela se levantou e foi até o quarto de dormir e se deitou na cama assim mesmo como estava, de casaco. Olhou para o teto. Depois de bastante tempo, ela sorriu. No meio do sorriso, pegou no sono."
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