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20.9.04



Deixo para trás todas as roupas
Que usei quando estive contigo
Levo só minhas botas e o casaco de couro
Enquanto me despeço dos braços de Ruby.
Mesmo que o coração aperte
Tenho de me esgueirar pelas persianas
Porque logo irás acordar.

A luz da manhã lavou teu rosto
E agora o azul vai cobrindo tudo
Abraça teu travesseiro
Que agora já não posso fazer nada
Enquanto me despeço dos braços de Ruby.
Encontrarás outro soldado
E juro por Deus que pelo Natal
Terás outro alguém para te abraçar.

Do desalinho de tuas roupas
Levo só um lenço
Vou fugindo rente à tua cômoda
E aos teus sinos de vento quebrados
Enquanto me despeço
Enquanto digo adeus aos braços de Ruby.
Descerei pelo corredor escuro
E, rompendo a manhã, verei que os vagabundos da estação
Mantiveram as fogueiras acesas
Meu Deus, como chove
E não há um trem...
Não beijarei mais teus lábios
Nem partirei o teu coração
Enquanto me despeço
Enquanto digo adeus aos braços de Ruby.


Tom Waits




17.11.03

Bicicletas quebradas, velhas correntes rebentadas
Guidons enferrujados na chuva
Devia haver um orfanato
Para essas coisas que ninguém mais quer
Setembro me lembra julho
É tempo de dizer adeus
Se o verão passou o meu amor permanece
Velhas bicicletas quebradas na chuva

Bicicletas quebradas, não digam nada aos meus pais
Com todas aquelas cartas enfiadas nos raios
Espalhadas como esqueletos sobre a grama
Rodas que não giram sem a outra metade
As estações passam a correr
E eu que me esqueço todas as vezes
Mas as coisas que me deste ficarão para sempre
Mesmo quebradas nunca as jogarei fora.


-- Tom Waits, "Bicicletas Quebradas".

28.9.03

Cartão-postal de uma puta em Mineápolis


Olá Charley, estou grávida
E morando na rua 9
Bem em cima de uma livraria nojenta
Na esquina da Euclid Avenue
Parei com as drogas
E não bebo mais uísque
O meu homem toca trombone
E trabalha na ferrovia

Ele diz que me ama
Ainda que o bebê não seja dele
Diz que vai criá-lo como a um verdadeiro filho
E me deu um anel que a mãe costumava usar
Sai comigo para dançar
Todo sábado à noite

E, Charley, penso sempre em ti
Todas as vezes que passo num posto de gasolina
Por causa da brilhantina que usavas no cabelo
Ainda tenho aquele disco de Little Anthony & The Imperials
Mas me roubaram o toca-discos
O que é que se há de fazer...

Aí, Charley, quase fiquei maluca
Quando o Mario entrou em cana
Por isso voltei para Omaha
Para viver com meus velhos
Mas todo mundo que eu conhecia
Ou morreu ou estava na cadeia
Então voltei para Mineápolis
E desta vez acho que vou ficar por aqui

Sabe, Charley, pela primeira vez desde o acidente
Parece que sou feliz
Só queria ter agora todo o dinheiro
Que costumávamos gastar com as drogas
Compraria uma oficina de carros usados
E não vendia nenhum
Para usar um diferente a cada dia
Dependendo do meu astral

Oh, Charley, pelamordedeus,
Quer saber a verdade?
Não tenho marido nenhum
Ele não toca trombone
E preciso de dinheiro emprestado
Para pagar o advogado
E olha, Charley, devo sair com a condicional
No dia dos namorados.


-- Tom Waits