12.5.17

Desgraça Infinita


Sobre a capa da Veja
“Pão ou pães é questão de opiniães”, escreveu João Guimarães Rosa. Todo o ambiente político é, em larga escala, questão de opiniães, mas desumanidade não é questão de opiniães. Não reconhecer a humanidade no outro é apenas a maior violência que se pode cometer contra a dignidade de uma outra pessoa.
Ser de direita ou de esquerda já não importa mais, como acontece sempre que passamos a viver dentro de um estado de exceção.
O que estamos aprendendo é que há estados de exceção que podem se amparar em vestígios de legalidade e podem ser mantidos pelas instituições, que conferem a ele os rastros de legitimidade necessários para que vivamos em dúvida: será que isso aqui é mesmo um estado de exceção ou estão exagerando?
Quando não se pode convencer do contrário, fabricar a dúvida é o que basta.
Em um mundo minimamente humanizado, a despeito das opiniães, uma capa de revista como essa que chega amanhã às bancas com o logotipo da Veja (que eu me recuso a reproduzir) jamais seria permitida.
Há fronteiras que não deveríamos cruzar, e uma delas diz respeito à dor de perder alguém que se ame, porque a dor é o que é comum a todos nós e o que nos humaniza.
Todos os bandidos, por piores que sejam, amam alguém. E são por alguém amados. Você não brinca, não debocha, não ridiculariza, não ofende a maior força do universo – o amor.
Quando o filho de Geraldo Alckmin, político que eu considero um monstro, morreu em um acidente de helicóptero, não havia ali espaço para ofensas, deboches, críticas. A dor de Alckmin era a dor de todos nós. Como pai, como homem, como ser humano.
Não importa mais o que se pensa a respeito de Lula. O que estamos fazendo com ele é desumano. Um julgamento ilegítimo, conduzido por um homem que não respeita as leis, e amplificado em imoralidade pelo noticiário.
E agora a capa de uma revista de circulação nacional estampa a imagem de uma mulher que já não vive mais, induzindo o consumidor de noticiário, esse pobre ser humano tratado como gado, a acreditar que, diante de Moro, Lula jogou a culpa em dona Marisa.
Lula não disse no depoimento nada além do que dizia quando dona Marisa era viva. E ainda pediu que o juiz parasse de citá-la porque ela não estava mais aqui para se defender.
Mas para saber disso é preciso assistir 5 horas de depoimento, e isso dá um puta trabalho. Mais simples é acreditar no que o noticiário vai me contar a respeito do depoimento, assim não tenho que pensar por conta própria e posso apenas repetir o que alguém viu no meu lugar.
Mas nem os fatos importam mais. Brincar com a dor da saudade é cruzar ao mesmo tempo os limites do bom gosto, da elegância, da humanidade, da decência e da moral.
Que tempos tristes.
Termino com um trecho de um dos textos mais lindos já escritos por um ser humano, de David Foster Wallace:
“O mundo jamais desencorajará você de operar na configuração padrão, porque o mundo dos homens, do dinheiro e do poder segue sua marcha alimentado pelo medo, pelo desprezo e pela veneração que cada um faz de si mesmo. A nossa cultura consegue canalizar essas forças de modo a produzir riqueza, conforto e liberdade pessoal. Ela nos dá a liberdade de sermos senhores de minúsculos reinados individuais, do tamanho de nossas caveiras, onde reinamos sozinhos.
“Esse tipo de liberdade tem méritos. Mas existem outros tipos de liberdade. Sobre a liberdade mais preciosa, vocês pouco ouvirão no grande mundo adulto movido a sucesso e exibicionismo. A liberdade verdadeira envolve atenção, consciência, disciplina, esforço e capacidade de efetivamente se importar com os outros – no cotidiano, de forma trivial, talvez medíocre, e certamente pouco excitante. Essa é a liberdade real. A alternativa é a torturante sensação de ter tido e perdido alguma coisa infinita.”