10.10.15

6 poemas de Simone de Andrade Neves






Batismo

Manhã de junho
Eu, criança-objeto,
dou as mãos ao
menino boina-bombachinha
e seguimos nós,
eu e o menino,
a caminhar por uma rua disforme
paralelepípedos angulares,
solares fios dos cabelos infantis,
sem trocar palavras
seguíamos no percurso atemporal
e apertávamos as nossas mãos
nas leves descidas.
Sorrisos entreabertos nos tropecinhos.
A rua terminou no azul
E nós, eu e o menino,
mergulhamos no mais
silencioso e nevrálgico
dos países: o dos Andrade.


Formatação


Caibo dentro de
uma lata de sardinha.
Ao olhar de fora
verás o conteúdo: verde.
Como Cabo Verde. 


Dentro do sonho
ouço o trotar de um cavalo
e oco de rosetas.
É ele!
paramento e montaria,
no amparo de um arreio de prata
passando a vila em revista

absorto em ofício sacerdotal,
na vigília,
ignora
a disritmia do meu coração.


Timidez

Move, contida, as ancas
ri em parcelas
na horizontal, carnaval.


O tempo abranda as coisas

O Sol
fez branco
o terço rosa
deixado
sobre o túmulo.


Retoques


O fotógrafo 
do outro lado da rua
porta e meia
embaixo do casarão
revela lápis de pontas muito finas.
E os seus dedos, finos quais,
deslizam no contorno dos olhos vesgos,
na precisão de fazer 
todos iguais.