2.8.14

2 poemas de Matilde Campilho




Badland 



Não sei se sou homem
já não sei se sou
homem
se sou besta
se tenho olhos azuis
ou mesmo se visto
camisa azul.
Também já não sei
se seguro um toco
meio ardido, aqui sentado
na esplanada desta cidade
cujo nome é Tavizkam.
Não sei se sobre meu ventre
foi depositada uma concha, há uns
1000 dias atrás.
Não sei se sou automático, se devo
trabalhar, pagar o revólver a prestações,
fazer remo, correr na calçada, usar
camisa esquadrinhada, escrever em
cedro esquadrinhado. Eu não sei
se possuo uma barca, se possuo
ossos que podem apodrecer
a qualquer hora. Eu não sei os nomes
dos poetas todos mas sei que os poetas

todos são os novos roqueiros. Eu não
sei, só sei que antes julguei que
os poetas eram escavadores.

Aquele amor
aquele que eu pensei
que se despedaçaria como
um meteorito no Minnesota
(uma coisa assim
estrondosa abusiva
gritante maravilhosa
estilhaço prolongado
cheio de uivos)
afinal caiu silencioso
como um aviãozinho de papel
passeando em Itaparica
em dia da apanha dos morangos.

Não sei se sou homem,
se sou mulher. Mas este
é o caminho do estio
e por perto passam os bois.




JUIF ERRANT


O que fiz depois dela foi mudar
de cara de corpo e de persona
para que ela deixasse
de me reconhecer
Para que assim não existisse
a menor possibilidade
de reconhecimento
Confundimos muitas vezes
o amor com o reconhecimento
e essa foi a maior trapaça
de nós dois no mundo
Tem gente por aí que acha
que fizemos coisas piores
Assaltamos alguns bancos no sul
Fizemos péssimas imitações
de Harrison nos karaokes
Mentimos para nossas avós
sobre a verdadeira natureza
de nossas pernoites em conjunto
Lemos O’Hara em alto nos cafés
fingindo ser aquele o canto
do novo poeta português
Mas nada disso era comparável
à grande rasteira
que nos infligíamos ela e eu
todos os dias das nossas vidas
Eu sou teu amor tu és o meu
Um passando a perna ao outro
mesmo antes de descermos

para a refeição inicial, isto é,
a laranja mística do Deus
no qual acreditávamos os dois
Mudei de corpo porque perdi
uns quantos quilos
Mudei de cara porque envelheci
Tudo isso foi bastante simples
e mais ou menos natural
Até porque o desgosto é o melhor
acelerador de partículas e de tempo
que o tal Deus vitaminado engendrou
Difícil mesmo foi trocar de eu
Foram precisas umas quantas viagens
vestido de métèque e vagabundo
Quatro ou cinco visitas
ao gabinete de astrologia
Um gole no xarope amazônico
Bastantes papos com meus inimigos
Foi precisa a contagem dos tremoços
nas taças das aldeias costeiras
A reza da novena dos gêmeos de fogo
Foi preciso simular o amor
na cama de mais mulheres
do que provavelmente
meu sistema imunitário

pudesse antes suportar
Repetir i love you’s aí pelas praças
Esquecer a oração da missa das dez
e mais ainda o poema do canhoto
aquele Mother Nature’s Son
Foi assim, sempre simulando alguém
cantando, que deixei de me reconhecer
E foi por causa disso
Porque eu não me reconheço
Ela não me reconhece mais
Abdicando de meu corpo no mundo
eu abdiquei do corpo dela no mundo
Estas são as instruções para se dar cabo
de uma história daquelas semi-raras
Aquelas que se a gente não prestar atenção
se arriscam bastante a ser eternas.