27.2.14

André de Leones

PAISAGEM PARA A QUEDA DE ÍCARO


Sempre olho pela janela do avião e rezo 
para que o sol esteja do outro lado.
Não vê-lo é sempre melhor.
Não há nada pior do que a luz solapando as retinas 
para escorrer crânio adentro, 
a voz solar de D’us: não há mais o que ver, ou por quê.

Sempre olho pela janela do avião e rezo 
para que o sol esteja do lado de dentro.
Não ver é sempre melhor.
Não há nada pior do que a luz desajustando as coisas lá embaixo 
enquanto escorro para longe delas, 
a voz arranhada do piloto: à esquerda dos senhores, o mar.

Sempre olho pela janela do avião e rezo 
para que o mar tome conta do resto 
e nos alcance lá em cima.



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