21.1.13

Um amigo em Berlim


















A Noite fria me serve seu Conhaque

me guardo do frio
em uma boa garrafa de conhaque francês
e quentes cobertas
o livro fala de uma revolta no brasil
muitos anos atrás
a televisão mostra alguma
coisa grandiosa da europa
que eu acho uma droga
o telefone toca
agora não atendo a ninguém
só ao meu amor e ao meu silêncio
berlin vibra no assovio
do vento lá fora
as minhas anotações
são garranchos desenhados
no caderno vermelho
que não é o de mao tsé tung
a saudade do brasil
deixo debaixo da língua
estalada num grosso gole
do bom conhaque
que tive o maior prazer
de comprar na lojinha
da senhora francesa
casada com um senegalês
que detesta sarkozy
meu filho adormece
entre seus livros revistas
e games
suas jubas se espalham
pelo travesseiro
e na boneca de pano emília
que ele guarda para a sua
amiga já há algum tempo
as horas martelam
os tigres esconderam-se
atrás das portas
e confabulam
com os nossos anjos da guarda
desconfio de alguma merda entre eles
mas me reviro
olho meu amor dormindo ali do lado
como uma bastet enrabichada
o conhaque desce redondo
e a batalha no livro que leio
atravessa a noite zunindo
como um blues de Nina Simone


Ras Adauto