29.4.12





Agora eu entendo o significado do quatro de espadas que me fez perder várias vezes ontem no Tin Star. Era um aviso. Eu morreria com as minhas botas no corpo, e faltava pouco. Muito pouco. Nem essas malditas botas me ajudariam. A expressão orgulhosa do meu pai chegando de Santa Fé com o embrulho nas mãos. Um par de esporas de sete dentes. O meu sonho de criança. Eu deveria passá-las nos pulsos para sair deste inferno com meu sangue. Morrer sufocado num estábulo vazio não é uma boa cena de ação. É uma indignidade, o destino de um criador de porcos, não o meu. Não consigo mexer as pernas. Mais um passo e morre, eu nunca ouviria essa frase na frente de uma barbearia. O tiroteio final. Jamais seria enforcado ou linchado sem julgamento, nem levaria pelas costas uma chuva de flechas envenenadas. Morreria como um fraco. Um padre. Uma ovelha. Um rabo de cachorro. Uma deficiência do roteiro. Preciso saber quem me trancou aqui. E por quê. Alguém que fez questão de salvar os cavalos e me condenar. Os meus cavalos sem nome. Nem eles me salvariam. Pobres miseráveis. Uma bala na cabeça poria um fim no meu horror. Mas meus revólveres também foram salvos. O fogo se espalha rápido e a morte do ar será lenta, como a de um comanche na reserva. Sozinhos em seus túmulos, meus pais afundarão no pântano. Não há ninguém aqui perto para me desmentir. Posso balir como uma cabra, fugir pelas ruas da cidade, rezar para que meus inimigos morram antes de mim. Um inimigo sem nome não é fácil de matar. É água debaixo d’água. Minha respiração regula a morte. Já conheço esta briga de socos. Pai, diga-me se ainda me ama. Diga sem palavras. Com o teu coração escuro de alpaca. Não há mais tempo nem distração. Com um sorriso nos lábios, outro lerá a carta que te deixei justificando os meus atos. Uma cena muito imitada. Mas o final não respeita a lenda. Só sairei daqui quando virar pó no tinteiro. Ouve o choro do teu filho que acaba de nascer. Quase invisível.



27.4.12


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Não há emoção maior para um poeta

do que ver pela primeira vez

seu nome impresso numa revista.

23.4.12

Jacques Rigaut



Meu livro de cabeceira é um revólver.




























Eu queria tanto ser amado
que parece que amo.





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21.4.12


























Como se pode viver com alguém sem criar expectativa nenhuma?
Como um zumbi talvez. Com um zumbi também.
Eu confundo um pouco os fatos.
Quem se aproxima de zumbis acaba se transformando em um.
Basta esperar o tempo passar. Não precisa muito.
Uma ponta da noite e você vai ver. O iceberg inteiro.
Ao nascer do sol verá que percorreu quarenta milhas a hora
e ainda acha que foi ontem. Está no mesmo lugar e longe.
Morto à beira de um lago, uma banheira, que julgou ser o mar.
Uma citação não favorece a poesia. A poesia não favorece o corpo.
O corpo quer engolir outro corpo, pela linha que passa de polo a polo.
O amor, seu capote de lã.
E você cometerá outra vez e outra vez.
Quantas forem necessárias e se ainda houver água na cisterna.
Enquanto seu olhar for de si mesmo, o que é sinal seguro de terra.
A vida não cobra nada para repetir o mesmo ato. O sim e o não.
Uma pequena risada no café da manhã.
As glândulas independentes da vontade.
Escravo da contração dos músculos.
Mas seus cães ainda estão ali,
esperando pelo seu carinho do outro lado da janela.
E nesta hora você não pensará nos babuínos.


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20.4.12

Real Sally







A Sally Bowles de Liza Minnelli, versão de Bob Fosse para o cinema, 1972.















A verdadeira Sally Bowles, Jean Ross. A cantora e atriz britânica vivia na Berlim pré-nazista quando lá conheceu em 1931 Christopher Isherwood, que baseou-se nela para a posterior criação do famoso personagem, embora no final de sua vida o autor tenha admitido que pouco se lembrava de Jean Ross. A verdadeira Sally Bowles era uma ativista política extremamente inteligente e dinâmica, na vida real pouco tendo a ver com a frágil e insegura personagem criada pelo autor. Casada com o autor Claud Cockburn, Jean Ross morreu em 1973 e nunca quis comentar muito sobre o personagem a que serviu de modelo.









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16.4.12













Virados para a meia-noite, os intestinos de Nereu são um vozerio de homens ao mar. Daquele lado ou do seu contrário. Por isso ele me pede a cada manhã que conduza mais célere os acontecimentos na cozinha. Nunca hei de perdoar-lhe meus pessegueiros afogados. O meu estado de alma – esta linha do horizonte que o sol não atinge mais. Orgulhoso dos méritos de sua digestão, que expressa por som e imagem, não é pequeno o desejo de vê-lo morrer pendurado em um deles enquanto descasco um continente de batatas tomando-me pela mão. Batatas não me levam muito longe. Não à Muralha da China. Abacate limão podre tangerina. Porque tudo isso se encontra por aí, plantas para o tempo arrancar, com toda a raiz. Vasos cheios de amor, sem ninguém a lhes tocar. Pão fresco. Derrotando por um fino curso d’água que paga caro pelo que arrasta, não vou muito longe. Não vou. Depois que as chuvas refrescam o ar, a lua segue o seu destino. Ou volta para casa. Ninguém deve sair à superfície após o terceiro toque.


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14.4.12

Saraceni

















Em seu décimo aniversário, o blog Prosa Caótica presta uma 
homenagem ao cineasta Paulo César Saraceni falecido hoje, 
postando seu documentário de 1959, Arraial do Cabo
na época uma pequena aldeia de pescadores no litoral 
do Rio de Janeiro e que até hoje exibe umas das 
mais belas praias do mundo.





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