6.9.12



A sra. Escovedo não acha mais papel carbono 
nas duas papelarias de sua cidade. 
Ela só precisa das papelarias e da cidade 
porque precisa do papel carbono. 
A sra. Escovedo é Rosita. 
Ninguém chama de Rosita a bisneta 
do ex-governador geral sem pagar nada. 
A sra. Escovedo também não saía de graça. 
Tinha medo dos objetos. 
Toda segunda-feira o senhor cura abençoava portas, 
fechaduras, baús, roupa de cama, panelas, xícaras de chá. 
E o missal, intocado. 
Além dos doze poodles, 
únicos seres vivos de quem dependia e 
com quem conversava por temê-los. 
A sra. Escovedo gostava de ler mas não gostava de livros. 
Nos livros nunca sabia onde entrava a mentira 
e por onde saía a verdade. 
Por isso, quando queria ler, ela mesma escrevia e se lia. 
Sem costuras, de alto a baixo. 
Nos livros havia gente demais. 
Quando ela mesma escrevia, aquela gente toda ia embora. 
E ficava o silêncio. Como uma graça alcançada. 
Tanto odiava livros que sua memória não os retinha. 
O que lia por sua própria caligrafia não esquecia. 
Desenhava as letras com esmero. 
O carbono entre as duas folhas. 
Uma para ela, outra para Rosita. 
A sra. Escovedo tinha preferência por letras com pernas. 
Falava de jejuns e vigílias. 
Dos fantasmas que amedrontam crianças que choram. 
De joelhos dobrados e mãos postas. 
Do martírio. 
Tudo verdade sem vírgulas. 
Rosita preferia os poemas. 
Que falassem da Lua Nova, do mar e suas vontades. 
Muito mais do que das flores, que falassem de bananas fritas. 
A sra. Escovedo se ria de Rosita, sua cabra-cega. 
A hóstia presa na âmbula. 
De olhos vendados e poesia, 
Rosita jamais conseguiria pegá-la. 
Assentavam bem melhor nela do que em mim.