9.12.11



Double Stops

Inácia é braçuda. Abre mensagens uma atrás da outra,
o cigarro aceso estrangulado entre os dedos, sujeitos que falam.
Apoiando o celular no ombro, aquele bração é um sofá extradiscursivo.
Como era seu costume, Carlota 
pensa nos sistemas de exclusão do século 19 em sábados chuvosos.
As duas estão muito actantes hoje mas não se mexem para me ajudar.
Sigo direto para o meu quarto e faço as malas. Elas ficam sozinhas na sala, palatalizando.
A casa é espaçosa para quem gosta e diz que não gosta.
A biblioteca é cheia para quem não lê e diz que lê.
Inácia e Carlota gostam de poetas parnasianos contemporâneos e me viram a cara
quando chamo seus fluxos de consciência de torrentes de cabriolés.
Eu não me importo, nunca espero elogios de quem me entende.
Etiqueta para ignorantes é distribuir elogios.
O mais difícil é sair de dentro de si sem precisar de focinheira.
Eu gostaria de ver o que elas guardam no sótão para ter em que pensar no trem.
Logo que cheguei me alojaram nos fundos, um aposento úmido com luz de lampião.
Conversávamos no escuro e ao dormir eu sempre caía no sonho errado.
Tive de trabalhar muito com minhas fantasias.
Na cozinha cheirando a refeitório de colégio interno,
o braço enorme me oferece um chá com Mussolini antes de eu partir.
Uma indireta.
Não falam em almoço ou saudades transitivas.
Repasso meu itinerário encaixando algumas mentiras
enquanto bebo na xícara feita por Inácia,
segundo ela uma nova concepção de objeto ocidental.
Carlota inveja minha errância, meu negligée, meus braços fininhos,
mas ao me beijar abrindo a porta da rua, elogia a singularidade de minha “paginação”.
Sensação de ardência no estômago.
Na cabine, percebo que esqueci no criado-mudo do quarto de hóspedes
minha Plongée velha onde fiz anotações para o futuro.
Também não lembro de uma palavra que disse.
Revejo na máquina as centenas de fotos que tirei do Zoo de la Barben.
Inácia e Carlota só aparecem juntas duas vezes na frente de uma jaula.
Não dá para saber de que animal.
À noite me encontrarei com Alice no Baad Bukra.
Se ela não tingiu os cabelos de vermelho e estiver de bom humor,
talvez saiba reconhecer a jaula.
Depois de tanto tempo fora, todas se parecem umas com as outras.


MP