28.10.10




Onde-Ninguém-Fala

País localizado dentro do som de nossa voz, ao lado do país Onde-Se-Fala. As ruas e calçadas, tetos de casas e para-brisas de automóveis são recobertos por uma neve espessa e invisível que a tudo sufoca. Os habitantes são mudos, mas isso não significa que não entendam a fala. Ao contrário, comunicam-se melhor do que com palavras e frases. Eles são como formigas que percorrem carreiras: encontram-se constantemente e se dizem coisas sem jamais serem ouvidas.

Nunca faz frio em Onde-Ninguém-Fala. Tudo é ameno e tranquilo. Para chegar lá o viajante deve simplesmente atravessar Onde-Se-Fala. Ele se verá cercado por sons reverberantes que doem aos ouvidos: carros, rádios, moinhos de palavras. Contudo, aos poucos, os sons começam a lutar uns com os outros e finalmente se anulam.


Jean-Marie-Gustave Le Clézio, Voyages de l'autre côté, 1975.

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19.10.10

prop



Porque o inesperado sempre acontece,
Insurance Company of North America, 1948


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18.10.10

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Hortencio Flamel, El libro negro, o la magia, Barcelona, 1849.

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7.10.10




Exerço muitas vezes o ofício de estrangeira
com pouca fé de que na impossibilidade da língua
se entenda a natureza dos meus gestos.
ou mais adiante
Escrevo-te cartas que difundem o meu silêncio.
ou ainda
Fico só
entre mim e o nome que dou às coisas.


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3.10.10




Pierre ontem à noite

Não falou muito. É sempre assim. Não falamos muito.
Como animais de companhia um do outro. Ceamos.
Ouvindo a pressão de braços sobre a mesa.
Da mesa nas tábuas do assoalho.
Do bordeaux mareando nas taças.
Pensamentos batendo nas vidraças, costeando intenções.
Uma perna de carneiro bem assada. Folhas mortas
perdendo altura. Há um grande carvalho no bosque. Lobos.
E um cofre no gabinete. Moramos aqui há muito tempo,
desde que nos casamos na Saint-Roch. Não, senhor,
não sei dizer se Pierre tinha inimigos. Ou amigos.
O alfarrabista talvez. Sr. Lioret, ou outro. Pierre não fala muito.
Mesmo quando escreve. Cartas comerciais, suponho. Dormia tarde,
absorvido pela leitura. Pelo cachimbo.
Não saberia dizer a que horas nos recolhemos.
Eu sempre me retiro antes. Não, nenhum ruído estranho.
Eu tenho o sono leve. Ninguém poderia entrar nesta casa
sem que eu ouvisse. As janelas são altas. Gradeadas.
Uma cozinheira, a lavadeira, dois criados de quarto, um cocheiro.
Pierre me mandou dispensar a todos no mês passado.
Não sei o motivo. Pierre não fala muito.
E uma boa esposa não deve fazer perguntas.
Deve saber ouvir o marido sem precisar que ele fale.
Só quero enterrá-lo condignamente,
ele me disse ontem à noite.


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