26.8.10

Fal Azevedo




O meu amor por você permanece. A cada sim. A cada não. Principalmente a cada não. Quando eu me lembro do formato do seu nariz. Das suas mãos. Do cheiro do seu suor. Da sua imensa gargalhada. Da sua voz feita para cantar as tolices da tevê. O meu amor permanece, intacto, cuidado como se fosse uma coisinha de cristal. Ele está nas fotos do menino que você foi. No carinho com que você fala do meu pai. Nas sua capacidade de se reinventar que eu sempre adorei, apesar de me irritar, acho que porque sou incapaz de nascer uma nova criatura, e arrasto a velha eu desde que o samba é samba. Ele, o meu amor por você, está onde sempre esteve, “como Minas, como Minas”, diria você, rindo, rindo. Meu amor por você permanece. Ele está no mesmo lugar – por favor, me ouça – no mesmo lugar em que esteve, a vida toda, a vida toda. Ele nunca saiu dali. Não houve tufão, nem revolução, nem vereda equivocada (e meu Deus, querido, foram tantas, sou o resultado de todas as minhas escolhas ruins, das minhas muitas escolhas ruins) que movesse um milímetro o meu amor por você. O mesmo prumo, o mesmo eixo. Meu amor por você grita quando tomo coca-cola. Quando, sentada no capô do meu carro, fumo aquele cigarro da madrugada, antes de ir para a cama. Meu amor por você fala mil idiomas, mas não tem com quem praticar. Meu amor por você come danoninho com o dedo, e dói quando meu tornozelo dói. Meu amor por você permanece, intacto, limpo, puro, como naquela primeira manhã. Ele não foi tocado, nem pela luz, ele não foi remexido e revirado com as gavetas do meu coração, ele não pegou chuva na corridinha entre o ponto do ônibus e a entrada do metrô. O meu amor por você segue, quase o mesmo, quase bem, quase sempre. Meu amor por você está estampado na camiseta de cada um que passou pela minha vida, nos pudins da Marli, nas galochas vermelhas que eu usava para pescar com meu pai, na gravação na qual a Mercedes Sosa diz que se tudo muda, que eu mude não é estranho. Mas ele, ah, ele não muda. Meu amor por você está congelado no tempo, como as fotos das nossas tias-avós, como meu nariz quando ando o cachorro de madrugada, como se não houvesse amanhã. Meu amor por você sabe que não haverá.

Fal Azevedo

Vídeo: João e Diogo Vaz Pinto

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19.8.10




É tão difícil guardar um tio
quando ele corre dentro de nós.


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16.8.10

Convite especialíssimo





Marlene de Castro Correia, professora emérita da Faculdade de Letras da UFRJ, considerada uma das maiores especialistas, se não a maior, na obra e vida de Carlos Drummond de Andrade, lançará nesta sexta-feira, dia 20, às 19 horas, na livraria Argumento do Leblon (rua Dias Ferreira 417), o seu livro Poesia de Dois Andrades (e outros temas), composto de ensaios sobre a poética de Drummond e Mário de Andrade, além de estudos sobre a literatura de cordel e o teatro de Gonçalves Dias.



Marlene foi minha professora de literatura brasileira na UFRJ e toda a minha paixão pelos três Andrades, Drummond, Mário e Oswald, devo a ela. Se não aprendi mais, certamente a culpa foi minha. É isso. O convite está feito. Apareçam.

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4.8.10

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Bête comme un peintre


Deve ser por aqui.
Assimetrias sutis é como o artista
diz de suas peças tortas, lascadas,
espalhadas pelo chão, "dialogando".
Apuro o ouvido. Parecem quietinhas.
Geometria sensível é onde não se
passa a régua. A estrutura é uma
consequência do desenho e vice-versa.
Sinto uma pontada na cabeça.
Minha mente começa a embaralhar.
A consequência é uma estrutura
do desenho e vice-versa.
A estrutura é um desenho
da consequência e vice-versa.
O vice-versa é o desenho
da estrutura e consequência.
Puta que o pariu.
Eu só estava procurando um bebedouro.



Assim me foi repassado em uma bolinha de papel amassado encontrada num banheiro público dizendo em tinta vermelha o Bête comme un peintre ou Um dia no MaMMA, museum AND modern modern art, ou Basquiat c'est moi ou Traga-me um copo d'água tenho sede, entre outras anotações e rabiscos como De quem era o número de telefone 2913853 que você escreveu em AZUL 0.8 no índice do meu Mário e que só descobri agora?


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