19.11.10

Alphonsus de Guimaraens

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A CABEÇA DE CORVO


Na mesa, quando em meio à noite lenta

Escrevo antes que o sono me adormeça,

Tenho o negro tinteiro que a cabeça

De um corvo representa.



A contemplá-lo mudamente fico

E numa dor atroz mais me concentro:

E entreabrindo-lhe o grande e fino bico,

Meto-lhe a pena pela goela a dentro.



E solitariamente, pouco a pouco,

Do bojo tiro a pena, rasa em tinta...

E a minha mão, que treme toda, pinta

Versos próprios de um louco.



E o aberto olhar vidrado da funesta

Ave que representa o meu tinteiro,

Vai-me seguindo a mão, que corre lesta.

Toda a tremer pelo papel inteiro.



Dizem-me todos que atirar eu devo

Trevas em fora este agoirento corvo,

Pois dele sangra o desespero torvo

Destes versos que escrevo.

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