21.3.10

Almoço (7)


Dia: Domingo. Nuvens carregadas, baixas e frias.

Local: Algum lugar a leste da Inglaterra no trem das 11:45 para Norwich. Escrevo isto no bar. A caminho do almoço de domingo com mamãe.

Presentes: Eu, três soldados, uma gorda e um magricelo com cara de fuinha falando no celular.

Menu: Comecei com um Jimmyburger na estação, em seguida dois ovos à escocesa no bar. No trem tracei um saco de batatas chips e um sanduíche de ovo com agrião comprados no carrinho de bordo. No vagão-restaurante, até agora, eu tinha comido uma torta de carne de porco, um enroladinho de salsicha, um treco chamado "sanduíche de lavrador" e uma barra de chocolate. Tem uma omelete solitária de salame e champignon envolta em papel-celofane que eles esquentam no micro-ondas. Por que ainda estou com fome?

Bebidas: Dose dupla de vodca com laranja no bar da estação -- desejo vão e muito passageiro de tirar o bafo de álcool. Duas latas de gim e vermute italiano no trem antes de ir atrás de comida. Comecei com cerveja. Notei que os milicos estavam bebendo a mesma coisa e então vi que ali vendiam vinho em meia-garrafa. Comprei duas depois de pedir a omelete. O rótulo diz "Vinho Tinto". Sem país de origem. Ácido, rascante, cru. Receio ficar com os lábios manchados. Mamãe, como de hábito, vai servir Moselle dizendo que é vinho branco do Reno.

Conta: Recuso-me a gastar mais de 20 libras.

Extras: Muita fumaça de cigarro, todo mundo está fumando, inclusive o cabineiro, escondido atrás do bar. A fumaça lhe escapa por entre os dedos do punho frouxamente fechado e vai parar em suas nádegas. A gorda fuma. O homem com o celular fuma enquanto murmura dentro da pequena caixa de plástico. Eu sinto um súbito gosto metálico na boca e sou subitamente atormentado por uma imagem de Diane S. -- nua, rindo.

Comentários: Os campos ingleses nunca pareceram tão vazios e mortos sob esse opressivo céu cor de chumbo. O barman acena... Minha omelete de salame e champignon está pronta, um misto de tons de amarelo com áreas em marrom fumegando de maneira duvidosa. Um cheiro curioso, repelente mas inegavelmente de comida, parece de repente invadir todo o vagão, superpondo-se a qualquer outro odor. Todo mundo fica me olhando. Desenrosco a tampa do "Vinho Tinto" e encho o copo enquanto seguimos sacolejando por Norfolk. Haja suco gástrico. Estou morrendo de fome, como é possível uma coisa dessas? Mamãe a essa altura estará preparando para mim o arquétipo de um tradicional almoço inglês de domingo: assado, batatas cozidas e dois ou três legumes, um balde de molho, queijo e biscoitos, seu pavê especial. Olho pela janela os quilômetros de verde lúgubre. A chuva cospe no vidro e os soldados começaram a cantar. É hora da minha omelete. Sei o que estou fazendo, mas isto é mau sinal, o começo do fim. Estou me propondo deliberadamente a arruinar (porque, verdade seja dita, ninguém pode almoçar antes de almoçar) o almoço.



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O conto "Lunch", que este blog acabou de publicar em 7 suaves prestações, faz parte da coletânea Fascination, de William Boyd, publicada em 2004 e com lançamento previsto no Brasil para este ano. O autor, de origem escocesa e nascido em Gana, é considerado por muitos um mestre na arte da concisão e precisão, com técnicas narrativas as mais variadas, capaz de criar um personagem numa única frase e de montar uma trama com um único parágrafo. A presença de Boyd é aguardada na FLIP de 2010.
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