30.12.09




Exatamente às seis e treze da manhã vi os enormes olhos azuis de Ester sendo vendidos em um anúncio de jornal que acabara de comprar. Eles falavam comigo. Águas amargas. Pálidos. Afásicos. Testes de minha instabilidade emocional. Ela não tardou em vendê-los a qualquer um sem me consultar. E logo eu, que os escolhi para ela. Minha herança genética. Agulha rangendo na memória.

Como nascem os bebês, papai?

O bico da cegonha é o pênis. A chaminé por onde ela desce, a vagina. E o lago de onde viestes são as águas do ventre materno.

Ester piscou os olhos azuis e nunca mais os abriu, com medo de que a cegonha os bicasse e levasse de volta ao fundo do lago. Juntando um ano ao outro e cansada de viver de olhos fechados, ela arrancou-os com a pinça das sobrancelhas de Occam e deixou-os expostos num cesto de junco sobre a mesa de mármore Travertino Romano de nossa sala.

O primeiro interessado apareceu às nove horas, conforme o anúncio. A velha queria olhos jovens. Cristalinos. Queixou-se de que pareciam mortos. E barganhou.

Eles não estão mortos, disse Ester. Eles dormem.

Ester despachou-a. E a um segundo, terceiro e quarto. Passai bem.

Na undécima hora, um rapaz de passos acidentais veio do fim da rua e bateu à nossa porta. Ester ergueu o rosto. Obscuro por obscuro. Farejou-o, sorriu como se não sorrisse e entregou-lhe seus olhos azuis numa caixinha dourada. O rapaz guardou-os no bolso do paletó, separando-se de nós e do resto da história.

Ester suspirou, veio a mim e deitou em minhas mãos o pagamento. Dois feijões brancos de olhos pretos.

Pega e coloca em ti, anda, ela disse.

Eu te daria duzentas cabras, vinte bodes, duzentas ovelhas, vinte carneiros, trinta camelos, quarenta vacas, dez touros, vinte jumentos e dez mulas. Por que fizeste isso?

Ester retirou os óculos escuros e pela primeira vez deixou-me ver suas órbitas vazadas.

Porque tudo merece um novo olhar, meu pai.


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13.12.09

Adília Lopes



As portas


I

Se não fecho
algumas portas
há correntes de ar
a mais

Se fecho
todas as portas
não posso sair
mais

Se não abro
algumas portas
não fecho
algumas portas

Se abro
todas as portas
desintegro-me


II


Atrás da porta
para sempre fechada
está o nada

Houve um momento
em que deixei de gostar
da minha mãe

Houve um momento
em que deixei de gostar
do meu pai

Houve um momento
em que deixei de gostar
de mim

Houve um momento
em que deixei de gostar
de ti

Houve um momento
em que parti

Houve um momento
em que voltei

Houve um momento
em que voltei a gostar
de todos

E todos estão
aqui

Mortos
e ausentes



7.12.09

Ela veio da Paraíba com duas libras



Eu espero pacientemente que ela apareça
com suas tatuagens, seus selos canadenses,
o último cd do Jeff Buckley
sua aliança de noivado
sua sede inextinguível
sua amnésia oportuna
seus pecados mais que mortais
Eu espero que ela permaneça por aqui
com seu silêncio devastador
com frieza lendária
sua dança da chuva
sua fome de groupie
eu espero que ela se movimente pra mim
com seus anéis
seu pescoço animal
seus lábios de gasolina
seus dreadlocks
eu espero que ela gaste todo o seu dinheiro comigo
que me apresente a suas amigas
que me leve pra vê-la dançar
que me transmita suas doenças
Eu espero que ela venha cantando um balada
do Lenny Kravitz
que venha confundindo o tráfego
com seus truques de malabarismo
com seu cinismo incompreendido
ela vai pisar com suas sandálias de névoa
em meu coração
ela não vai aparecer
eu a amo
então chamo um táxi e volto pra casa


Mário Bortolotto

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