6.8.09



Tem de se respeitar esse bicho aí. Pedra da Gávea. Quase 850 metros Rio acima. Qualquer escorregão pode ser fatal. Tempos atrás me aventurei. Sem cordas, sem equipamento, nada. Só com algum alimento e água. E um bando de dez malucos orientando o caminho. Quase voltei no meio, mas como voltar sozinha? Trilhas e mais trilhas que se bifurcam. E um paredão de 30 metros assustador: a Carrasqueira. Mãos e pés se apoiando em fendas. O plano era subir pela manhã de um sábado bem cedo e passar uma noite. Dormir na caverna, um dos olhos da cabeça do Imperador. Ver o Rio de cima à noite naquela altura é de uma beleza impossível de ser imaginada. Corcovado e Pão de Açúcar não chegam nem perto. E ainda o mar. Azul a perder de vista. E eu me perdi. Na volta, a descida do dia seguinte. Os malucos, experientes, desceram mais rápido e eu fiquei para trás. Eu e um amigo que queria fotografar tudo e por isso nos atrasamos. Pegamos a trilha errada, demos num lugar de difícil acesso que os bombeiros levaram horas para achar. O resgate levou uma madrugada inteira. Mas eram outros tempos. Não havia celular. Não havia GPS. Nosso drama ganhou uma notinha no jornal: Perdidos na Floresta. Voltei toda esfolada, mãos arranhadas que não seguravam mais nada. Dormi uma semana. Não me arrependo. Hoje, da Pedra da Gávea só quero as fotos. Admiro quem se aventura e não sei por que vim aqui para dizer essas coisas só por dizer. Acho que foi pelo Gabriel. Que os deuses africanos o guardem.

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