1.8.09


Susana Marli mora no 807 da Senador Vergueiro, fundos, e tem todos os vinis da Sylvinha Telles. Seu apartamento tem uma sala que não vamos conhecer e um quarto em que não vamos entrar porque se entrássemos veríamos que além de ter todos os discos da Sylvinha, ela também é a cara da Sylvinha. Uma cara que você não iria entender assim como Susana Marli não entende por que o samba-canção foi parar na bossa nova. Susana Marli entende por que ela foi parar no 807 da Senador Vergueiro, fundos. Ninguém precisou lhe explicar. Mas com a bossa nova é diferente. A primeira vez foi quando ela viu Sylvinha jogada na calçada sobre o plástico do camelô. O rosto encardido na capa. E julgou estar vendo a própria imagem no espelho. Amor em Hi-Fi. O seu reflexo se multiplicando, acompanhando as pedras do chão. Amor de Gente Moça. Carícia. Quem é essa mulher nesses discos velhos? Por que tem a minha cara? Por que se faz de mim? Eu não posso ficar nesse chão imundo onde todo mundo escarra. Com olhos de meio-fio. E assim começou a coleção de discos de Susana Marli no 807 da Senador Vergueiro, fundos. Andando por todas as ruas do centro da cidade e depois da zona sul a norte leste e oeste, ela não deixou um rosto de Sylvinha Telles pegando pó de asfalto em barracas, caixotes de supermercado, lonas de plástico sebentas. Tudo que tinham para vender ela comprava. Depois de meses de procura, convencida de que não havia mais um único vinil de Sylvinha sendo vendido nas ruas do Rio de Janeiro, Susana Marli sossegou nos fundos do 807 da Senador Vergueiro e começou a ouvir boleros, sambas-canção e bossa nova. Umas músicas estranhas que a arranhavam entre dois mundos, porque não era isso que toda gente costumava cantar ou que ouvia na televisão. Ela mesma não se importava com música, coisa boba que passa. Trocava de canal sempre que a cantoria começava. Mas com Sylvinha foi diferente. Foi a noite. Foi o mar. Sylvinha parecia tanto com ela que Susana Marli começou a se vestir como Sylvinha. Se pentear como Sylvinha. Deixar crescer as sobrancelhas de Sylvinha. E no final de todas as faixas já estava cantando como Sylvinha. Ninguém ergueu os olhos quando Susana Marli entrou na Biblioteca Nacional e pediu para ler os jornais cariocas dos anos 50 e 60. Ali estava ela, nas fotos dos jornais. Fui eu, eu sei. A normalista, a assistente de palhaço, o amendoim torradinho. Sylvinha Telles sou eu. Eu fiz mal em fugir. Eu fiz mal em sair. Do que eu tinha em você. Hoje eu volto vencida. A pedir pra ficar. Meu lugar é aqui. Faz de conta que eu nunca saí.


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