9.7.09

Teu melhor inimigo




Se a essa hora tardia não há como procurar amigo, pela madrugada que esconde o dia e a coragem ou pelo adiantado das horas do relógio de tua vida, procura teu inimigo. Mas não qualquer um, simples desafeto de bar, adversário da pelada de sábado, antagonista do condomínio, concorrente, rival. Não.

Procura teu melhor inimigo.

Aquele que nunca te foi indiferente. Aquele que com certeza foi grande amigo um dia, ou pelo menos você assim achava, até que ele te traiu, te passou a rasteira, te deu a facada pelas costas. E se ninguém agiu assim contigo, o dia está prestes e ele está à espreita, pronto para o bote. E se você ficar atento, ele saberá esperar, até que tua atenção se canse, esmoreça, cochile.

Porque ele é teu melhor inimigo. Ele te trai, mas compra uma roupa especial pra ocasião. Ele te passa uma rasteira, mas é aquela que ele nunca ensinou pra ninguém, é te mostrando o pulo do gato que ele voa na tua carótida. Ele espera que você se vire, pensando em nada, e te esfaqueia pelas costas, esposteja tua carne, separa tuas costelas, secciona veias, perfura teu pulmão. E o faz com uma adaga moura antiquíssima e enquanto você agoniza ele ampara teu rosto e te conta dos sultões que possuíram aquela adaga e dos tesouros que mudaram de mão graças a ela e dos bravos que sucumbiram pelo golpe fatal que só ela sabe desferir, independente da mão que a segura. Ela esteve em Roma, entre os Césares, esteve com Gengis Khan, talvez até mesmo nas mãos de Caim. Ela é quem comanda a mão e se a mão não tiver a estirpe necessária, ela cortará, não a tua jugular, mas a própria mão do inimigo para que ele aprenda que não estava à altura do teu ódio, não era digno de teu asco, nunca fora merecedor de tua repulsa, não foi sem seria nunca teu melhor inimigo.

É inútil. Por mais olhos que você tenha ou contrate, você nunca vê teu melhor inimigo chegar. Nunca. Se você pensa que vê, ou tua vista é quem te engana ou tua idéia está variando ou é você inteiro que não conhece teu melhor inimigo. Você ainda vive no engano, no logro, no erro. Mas teu melhor inimigo não erra nem vem te enganar, que pra enganar qualquer inimigo serve. Ele, o teu melhor inimigo, ele vem te desenganar.

É uma paixão esse ódio a que ele dá de comer cotidianamente, como um pássaro, um louva-a-deus. E para amparar tamanho ódio, para construir tanto rancor, ele se dedicou a te conhecer a fundo, como só tua mãe te conhece. Nenhuma amizade tua é capaz dessa dedicação, dessa fidelidade canina, de cão hidrófobo. Ele te prepara uma canção que embosque como dois olhos de felino no escuro. E irá te destruir com a melhor repugnância, o mais alto nojo, a mais dedicada raiva. Com um desprezo fraterno, com uma ira maternal. E mesmo depois de te aniquilar, ele não te esquecerá. Quando ninguém mais lembrar de ti, quando você for nada para o mundo e os que nele vivem, para os que te conheceram, para os que te amaram um dia, para os que choraram tua morte, só teu melhor inimigo irá te ver na tua última morada e cuspir na tua cova e urinar sobre o teu nome, quase apagado na lápide.

Teu melhor inimigo é coisa pra se guardar debaixo de sete chaves. E ele há de te guardar debaixo de sete palmos.