13.12.08



Zélia, 1989-2008

Nunca aborreci ninguém nestes seis anos de Prosa Caótica postando coisas sobre meus bichos. Mas, pombas, este blog é meu e hoje foi o dia em que Zélia, a minha gata, escolheu para morrer. Morreu de velha, dormindo em sua caminha quietinha, apagando como uma vela, devagarzinho, em silêncio, na posição dos gatos. Enterrei-a no jardim de casa. Ela agora é meu amuleto da sorte, espírito de guarda da casa. A gata mais safada deste mundo, para quem a conhecia bem, como eu. Menina de rua, preto-e-branca como um filme antigo, nascida nos jardins do Passeio Público e resgatada no meio-fio por uma boba semi-embriagada que se encantou com seu cheirinho de patchuli quase vinte anos atrás. Como uma gata vagabunda com esta pinta abusada no nariz pode cheirar a patchuli? Mas essa era a Zélia, sempre cheirosa, que recebeu este nome por conta da Zélia Cardoso de Mello, não porque sua dona admirasse a ministra, longe disso, mas porque era o nome da hora, e cairia bem num gato, nos fazia rir. E todos riam. Zélia, que me salvava de baratas, camundongos e tantos bichos escrotos. Que pulava três metros para caçar uma lagartixa na parede, num loop inacreditável. Que pela manhã me avisava que era hora de trabalhar, e à noitinha, que era hora de parar de trabalhar. Que jogava futebol comigo com bolinhas de papel. Que esquentava minha barriga, amassando cacau, em meus dias de cólicas de mulher. Que tomava café-da-manhã comigo sentada na cadeira ao lado, esperando uns fatacos de bolacha. Que não gostava de leite, porque só gato de cinema perde tempo com leite. Que riscava fósforo para seu próprio reflexo no espelho. Que subia nas cortinas e ficava lá agarrada, se balançando feito uma macaca e olhando lá do alto para ver se tinha platéia. Que, sem a menor vergonha na cara, corria de rabo torto quando sabia que tinha feito merda. Que enfiava comigo a cara na geladeira para procurarmos algo de bom lá dentro. Que gostava das visitas, principalmente das que não gostavam de gatos. Que se escondia no alto da caixa d'água para fugir dos dias de vacina. Que apartava brigas de outros gatos brabos partindo pra cima deles e botando ordem na casa, que era dela. Que me farejava de longe, quando eu ainda estava botando a chave na fechadura da portaria do prédio das Laranjeiras. Que me acompanhou por todas as inúmeras casas em que morei depois disso. Que gostava de rock pesado, de fumaça de cigarro, de dormir nos meus livros e papéis. Que me devotava um amor incondicional mesmo que eu impusesse condições para amá-la. Essa era a Zélia, a que escapou da morte várias vezes, mas agora não deu. Gatos não são Nosferatus. Durma em paz, minha menina.

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