31.10.07
25.10.07
19.10.07

vou me matar amanhã pra me vingar do horóscopo
me enforcar nos seus cabelos
aonde você for
vendo novas madrugadas
minha mente e meu corpo
neste sábado morto
beber na adega pérola em copa
com a mãe de maysa
lembrando de erasmo
angela calada
um filé cortado em cubinhos
sábado morto
alguém cantando vinicius
vou me matar amanhã
formiga de mim
fazendo o et cetera
o garçom de ironia complexa
uma mesa sem leitor
cheia de copos
alguém começando a cantar
posso me matar agora
e nada disso acontecer
mas prefiro esperar
amanhã terá de ser
com a boca na frente
rostos suando
copacabana
e iná
não sabem que fui surfista
de um peso que não cabe
mais na prancha
alguém continua cantando
sábado morto
ali onde as lágrimas
fazem marola
sem precisar de poemas
três metros de palavras
olha que o barquinho vai
vem e passa
olha que sozinho
o sono acaba com tiros
iná
olha que vinicius
não entende de horóscopo
vinicius está morto
e todo amanhã é um sábado
lembrando de erasmo
que é vasco
e eu sou fluminense
vou me matar amanhã
pra me vingar dos seus cabelos
iná
sozinho
angela calada
na adega pérola
cantando tudo que tenho
eu, tomate de feira
sem outro possível,
peça mais um vinho,
sábado morto
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a manhã caindo por fora da janela
não colore ninguém
aqui dentro chamo de noite
batatas que fritam demais
para quem não entende de cozinha
se depender dos próprios olhos
céu azul queimado
voz fininha
e a vontade de cantar
num corpo sem ouvidos
se você disser
quinta-feira
eu atendo
17.10.07
Boicote à presença de Guillermo Habacuc Vargas na Bienal Centro-americana de Honduras 2008

Esse sujeitinho lamentável é um artista costa-riquenho que, em agosto último, numa exposição em uma galeria de arte de Manágua, prendeu um cachorro de rua na parede e deixou o bicho lá para morrer de fome e sede. A intenção era denunciar a hipocrisia alheia, como se isso fosse o "novo". Ele conseguiu, o bicho morreu, fotos estarrecedoras do animal foram divulgadas na internet, o artista ficou famoso e a humanidade não ficou menos hipócrita por causa disso. No entanto, surge agora uma campanha internacional para evitar que o artistazinho de merda dê asas ainda maiores a sua liberdade criativa patológica na Bienal que acontecerá em Honduras. Talvez assim ele aprenda a se exibir de outra forma. Se você quer participar do boicote, assine aqui. Obrigada. Agradeço a Ane Aguirre por me enviar a petição.
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Esse sujeitinho lamentável é um artista costa-riquenho que, em agosto último, numa exposição em uma galeria de arte de Manágua, prendeu um cachorro de rua na parede e deixou o bicho lá para morrer de fome e sede. A intenção era denunciar a hipocrisia alheia, como se isso fosse o "novo". Ele conseguiu, o bicho morreu, fotos estarrecedoras do animal foram divulgadas na internet, o artista ficou famoso e a humanidade não ficou menos hipócrita por causa disso. No entanto, surge agora uma campanha internacional para evitar que o artistazinho de merda dê asas ainda maiores a sua liberdade criativa patológica na Bienal que acontecerá em Honduras. Talvez assim ele aprenda a se exibir de outra forma. Se você quer participar do boicote, assine aqui. Obrigada. Agradeço a Ane Aguirre por me enviar a petição.
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15.10.07

Há pessoas diante das quais você não pode mostrar que está feliz, elas vão achar sempre que você está bêbada. O que no meu caso é invariavelmente verdade, pois ser feliz na presença delas exige de mim manutenção alcoólica contínua. Hilda é uma dessas pessoas. Hilda Feliz, como eu chamo. Não somos amigas, nem parentes, mas uma circunstância da vida permitiu que fôssemos próximas. Diferente de mim, Hilda não aprendeu a tirar prazer de uma palestra sobre o icosaedro. Decepcionada com o mundo corporativo, Hilda largou tudo e foi viver de jogar tarô para pessoas que necessitam dos arcanos para saber se devem pegar a rua B ou C. Eu não acredito em tarô, acredito em tarólogos convincentes. Hilda baixou para mim suas cartinhas ilustradas umas duas vezes. Na primeira disse que um projeto meu do qual nem lembro seria um sucesso. Na segunda, afirmou categoricamente, após várias confirmações, que eu estava encolhendo. Mentalmente?, ora, não é novidade. Não. Encolhendo fi-si-ca-men-te. Encolhendo no sentido leste-oeste?, eu perguntei dessa vez animada. Não, você está encolhendo no norte-sul. Está perdendo altura, ficando mais baixa. Mais baixa? Bom, com a idade perdemos alguns centímetros, a coluna verga, é isso? Ela não soube ou não quis explicar. Já se passaram alguns anos, estou do mesmo tamanho e Hilda sumiu. Acho que Hilda é assim mesmo, é daquelas pessoas para quem a felicidade não pode ter uma cara. Nyuk-nyuk-nyuk! Ela não sabe que a felicidade tem cara de bola de tênis suja.
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11.10.07

Argentina I
se estou na argentina sou uma poeta argentina
se leio a argentina com um grande livro, se como na argentina, se
escrevo na argentina e defeco na argentina
sou poeta argentina
e não é que me esqueça ou que não me importe ser brasileira
meu passaporte verde vale cinco mil mangos no comércio de
passaportes
mangos dólares que valem mais que a fruta nacional
mas quando estou na argentina prefiro ser uma poeta argentina
porque assim sou sem resistências
e não sinto falta do arroz porque aqui a massa
mesmo a mais barata de supermercado
não tem igual
se fosse argentina saberia preparar asados
que são diferentes do churrasco
esse envolvido em sal grosso perfurado por espetos machos no rgs
rgs bem podia ser a sigla de complicações estomacais
ou o barulho de uma frase que não te sai
porque esta entalada na garganta porque no rgs
las mujeres suelen ser así
e você tem que ser muito independente ou estranha
para fazer um churrasco
e me parece que o churrasco sai mal
quando é muito pensado
e alguém pode dizer que eu voltei feminista da argentina
ou será que eu tive muito tempo para pensar
nessas coisas que ninguém quer pensar
que é melhor que não se pense nada
e que os churrascos sejam machos
como as saladas sao fêmeas
a verdade é que não voltei da argentina
angélica freitas
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9.10.07
7.10.07
3.10.07

De: mpa@hotmail.com
Para: armandojarbuch@hotmail.com
Assunto: e-therapy
Querido doutor
Adorei a sua idéia de dar continuidade ao meu tratamento por e-mail. Não faz sentido mesmo interrompermos as sessões só porque me mudei para Manaus. Confesso que a princípio cheguei a procurar alguns terapeutas locais que me foram indicados. Tive entrevistas com quatro. Dois não aceitaram meu caso, por motivos que não explicaram bem, ou eu não entendi direito, e alegando agenda cheia. O terceiro não teve pudores para me dizer que não trabalhava com "estados limites" e o quarto, bem, o quarto tinha mau hálito e seu consultório, além de todo decorado segundo os cânones do feng-shui, exalava um odor nauseabundo de incenso de jasmim. O senhor sabe bem como abomino essas coisas, esses "territórios marcados". Então, como vê, foram tentativas vãs. E também, cá entre nós, só de pensar em um recomeço, ter de contar toda a história da minha infância de novo, é um atropelo. Depois de cinco anos me tratando com o senhor, quem mais teria um know-how tão perfeito das combinações de meus pensamentos?
Falando em pensar, estou aqui teclando e imaginando o que o senhor deve estar achando das coisas que digo, imagino o seu rosto, os olhos apertados, o cavanhaque bem-aparado onde o senhor apóia o polegar e o indicador enquanto me escuta. Imagino que um dia possa vir a se arrepender de fazer essa análise eletrônica. Que dessa forma eu posso ludibriá-lo mais do que já o fiz de corpo presente. Que posso fazer literatura dos meus fenômenos psíquicos e no fim das contas nada lhe servirá como material empírico. Que minha degeneração intelectual, moral e afetiva corre o risco de se revelar mais obscura ainda, nos distanciando do processo de "cura". Que, por fim, minha "tendência à distração" seja contagiosa e o senhor acabe caindo na superficialidade dos laços que a virtualidade desse suporte infalivelmente impõe. Penso essas coisas enquanto lhe escrevo e ao mesmo tempo tento me convencer de que não devemos temer a incursão em domínios estranhos, eu mesma uma prova viva da estranheza.
Tenho custado a dormir, doutor, fico rolando na cama e fazendo associações de palavras sem sentido que depois não consigo memorizar nem para compor um poema. E quando consigo escrever algo, é um entusiasmo que logo se apaga. Não dá mais para convencer ninguém de que meu desencadeamento de conteúdos é uma forma de estilo. Mas não consigo evitar. Parece que, como eu, tudo o que escrevo tem de seguir o caminho do isolamento associativo. Não é novidade para o senhor, que me conhece sem eu precisar falar, pois tudo está escrito nos compêndios de psiquiatria. O senhor só precisa achar a página certa.
Bom, essa terapia eletrônica de hoje já está se alongando e devo me despedir pois não quero tomar muito o seu tempo. Me permita um último comentário: enquanto lhe escrevia este e-mail, me peguei várias vezes olhando fixamente para o cinzeiro em minha mesa. Suponho que o cinzeiro seja meu, mas não me lembro de como veio parar aqui, se ganhei de presente, se comprei num belchior, não importa. É um cinzeiro assinado, pertenceu a Afranio de Mello Franco, pois este nome está gravado na porcelana logo abaixo de uma citação de Kant e é ali que eu deposito minhas cinzas. Sim, apago o cigarro nas letras de Kant, que, à medida que fumo, vão sumindo na porcelana. Depois de apagar um único cigarro no cinzeiro limpo, por exemplo, posso ler assim:
"Duas coisas preenchem o ânimo co adm ção e respeito sempr novos e crescente quanto ais frequente e duradour or o tempo que pens ento dispensa com elas. O céu estrela sobre e a lei moral d tro de m."
O senhor conhece esta citação? Eu conheço, pois sou eu que limpo o cinzeiro. Podemos discutir o significado dessa passagem do cinzeiro mais detalhadamente num próximo e-mail. Sem cinzas.
um grande abraço
M.
P.S. Envie-me por favor as receitas para a Caixa Postal 313112 - Manaus - AM
Para: armandojarbuch@hotmail.com
Assunto: e-therapy
Querido doutor
Adorei a sua idéia de dar continuidade ao meu tratamento por e-mail. Não faz sentido mesmo interrompermos as sessões só porque me mudei para Manaus. Confesso que a princípio cheguei a procurar alguns terapeutas locais que me foram indicados. Tive entrevistas com quatro. Dois não aceitaram meu caso, por motivos que não explicaram bem, ou eu não entendi direito, e alegando agenda cheia. O terceiro não teve pudores para me dizer que não trabalhava com "estados limites" e o quarto, bem, o quarto tinha mau hálito e seu consultório, além de todo decorado segundo os cânones do feng-shui, exalava um odor nauseabundo de incenso de jasmim. O senhor sabe bem como abomino essas coisas, esses "territórios marcados". Então, como vê, foram tentativas vãs. E também, cá entre nós, só de pensar em um recomeço, ter de contar toda a história da minha infância de novo, é um atropelo. Depois de cinco anos me tratando com o senhor, quem mais teria um know-how tão perfeito das combinações de meus pensamentos?
Falando em pensar, estou aqui teclando e imaginando o que o senhor deve estar achando das coisas que digo, imagino o seu rosto, os olhos apertados, o cavanhaque bem-aparado onde o senhor apóia o polegar e o indicador enquanto me escuta. Imagino que um dia possa vir a se arrepender de fazer essa análise eletrônica. Que dessa forma eu posso ludibriá-lo mais do que já o fiz de corpo presente. Que posso fazer literatura dos meus fenômenos psíquicos e no fim das contas nada lhe servirá como material empírico. Que minha degeneração intelectual, moral e afetiva corre o risco de se revelar mais obscura ainda, nos distanciando do processo de "cura". Que, por fim, minha "tendência à distração" seja contagiosa e o senhor acabe caindo na superficialidade dos laços que a virtualidade desse suporte infalivelmente impõe. Penso essas coisas enquanto lhe escrevo e ao mesmo tempo tento me convencer de que não devemos temer a incursão em domínios estranhos, eu mesma uma prova viva da estranheza.
Tenho custado a dormir, doutor, fico rolando na cama e fazendo associações de palavras sem sentido que depois não consigo memorizar nem para compor um poema. E quando consigo escrever algo, é um entusiasmo que logo se apaga. Não dá mais para convencer ninguém de que meu desencadeamento de conteúdos é uma forma de estilo. Mas não consigo evitar. Parece que, como eu, tudo o que escrevo tem de seguir o caminho do isolamento associativo. Não é novidade para o senhor, que me conhece sem eu precisar falar, pois tudo está escrito nos compêndios de psiquiatria. O senhor só precisa achar a página certa.
Bom, essa terapia eletrônica de hoje já está se alongando e devo me despedir pois não quero tomar muito o seu tempo. Me permita um último comentário: enquanto lhe escrevia este e-mail, me peguei várias vezes olhando fixamente para o cinzeiro em minha mesa. Suponho que o cinzeiro seja meu, mas não me lembro de como veio parar aqui, se ganhei de presente, se comprei num belchior, não importa. É um cinzeiro assinado, pertenceu a Afranio de Mello Franco, pois este nome está gravado na porcelana logo abaixo de uma citação de Kant e é ali que eu deposito minhas cinzas. Sim, apago o cigarro nas letras de Kant, que, à medida que fumo, vão sumindo na porcelana. Depois de apagar um único cigarro no cinzeiro limpo, por exemplo, posso ler assim:
"Duas coisas preenchem o ânimo co adm ção e respeito sempr novos e crescente quanto ais frequente e duradour or o tempo que pens ento dispensa com elas. O céu estrela sobre e a lei moral d tro de m."
O senhor conhece esta citação? Eu conheço, pois sou eu que limpo o cinzeiro. Podemos discutir o significado dessa passagem do cinzeiro mais detalhadamente num próximo e-mail. Sem cinzas.
um grande abraço
M.
P.S. Envie-me por favor as receitas para a Caixa Postal 313112 - Manaus - AM
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1.10.07

Tropa de elite: o livro
SANTA TERESA, DOMINGO, QUATRO DA TARDE
Este é o relato fiel do que Amâncio contou: “Eu e meu parceiro voltávamos para o 2º Batalhão no Gol descaracterizado que a gente usava em algumas missões. Estávamos na rua Almirante Alexandrino, em Santa Teresa, porque tínhamos seguido um cara que fazia a ligação entre os traficantes do morro Santa Marta e os vagabundos do Tabajara. Mas perdemos o cara e, como já tinham passado as 24 horas de nosso plantão, resolvemos voltar. Ali em cima, perto da favela do Balé, tem uma bifurcação. Queríamos descer para o Cosme Velho e Laranjeiras, mas o meu parceiro, que dirigia o carro, pegou o lado errado. Quando a gente viu, estava num declive muito íngreme que nos levava direto para o miolo da favela. Não dava para recuar, nem para frear, abandonar o carro e correr a pé, de volta. A gente praticamente deslizava para o meio da favela. Nosso carro era uma bandeira só. Porra, dois homens, num Gol daqueles, ou a gente era bandido ou polícia. Nos dois casos iríamos tomar tiro. O carro seguiu devagar, ladeira abaixo, e já dava pra ver que os traficantes estavam reunidos bem no meio da rua. Estavam distribuindo as cargas e as armas. Tive a intuição de que a gente só tinha uma saída, acelerar. “Gritei: acelera, pisa até o fundo e abaixa a cabeça. Parecia um strike no jogo de boliche. O carro disparou ladeira abaixo e nós pegamos uns três ou quatro. Foi uma puta porrada; voou moleque pra todo lado; o carro capotou algumas vezes. Consegui escapar, no meio de uma chuva de bala. Corri atirando e buscando uma cobertura. Não sei o que aconteceu com o Amílcar. Não pude mais olhar pra trás. Só fiz correr pelos becos na direção oposta à da entrada. Você deve se lembrar da favela. Ela fica num vale, entre a ladeira que desce de Santa Teresa e a escadaria que sobe, na outra ponta. Fugi pra escadaria. Eles não me seguiram. Devem ter ficado cuidando dos feridos. Vai ver que o chefe estava entre os atropelados. Corri com todas as minhas forças e subi a escadaria pulando os degraus. Quando estava mais ou menos na metade, apareceram uns colegas do 1º Batalhão no alto da escadaria. Fiz um sinal e me senti salvo pelo gongo. “De repente me apontam o fuzil lá de cima e eu só sinto aquele coice na barriga. Ficou tudo preto. Acordei aqui, depois da cirurgia. Foi tiro amigo, meu irmão. Tiro amigo. Agora, eu te pergunto: por quê? Está certo que sou negro e que estava armado e sem uniforme, mas, porra, para quê atirar antes de identificar o camarada?” Amâncio não passou daquele dia. No enterro, na salva de tiros, tive vontade de mandar pararem aquela farsa, aquela palhaçada. Mas pensei na viúva, no filho, ponderei um pouco e achei que o melhor mesmo seria colocar uma pedra no caso. Melhor ter um pai herói, morto pelos inimigos, do que vítima de um mal-entendido. Digo mal-entendido para manter um certo nível de sobriedade, em homenagem à memória de um amigo querido, um homem de valor. O que senti mesmo foi vontade de chorar e de vomitar as verdades sobre essa merda toda.
Este é o relato fiel do que Amâncio contou: “Eu e meu parceiro voltávamos para o 2º Batalhão no Gol descaracterizado que a gente usava em algumas missões. Estávamos na rua Almirante Alexandrino, em Santa Teresa, porque tínhamos seguido um cara que fazia a ligação entre os traficantes do morro Santa Marta e os vagabundos do Tabajara. Mas perdemos o cara e, como já tinham passado as 24 horas de nosso plantão, resolvemos voltar. Ali em cima, perto da favela do Balé, tem uma bifurcação. Queríamos descer para o Cosme Velho e Laranjeiras, mas o meu parceiro, que dirigia o carro, pegou o lado errado. Quando a gente viu, estava num declive muito íngreme que nos levava direto para o miolo da favela. Não dava para recuar, nem para frear, abandonar o carro e correr a pé, de volta. A gente praticamente deslizava para o meio da favela. Nosso carro era uma bandeira só. Porra, dois homens, num Gol daqueles, ou a gente era bandido ou polícia. Nos dois casos iríamos tomar tiro. O carro seguiu devagar, ladeira abaixo, e já dava pra ver que os traficantes estavam reunidos bem no meio da rua. Estavam distribuindo as cargas e as armas. Tive a intuição de que a gente só tinha uma saída, acelerar. “Gritei: acelera, pisa até o fundo e abaixa a cabeça. Parecia um strike no jogo de boliche. O carro disparou ladeira abaixo e nós pegamos uns três ou quatro. Foi uma puta porrada; voou moleque pra todo lado; o carro capotou algumas vezes. Consegui escapar, no meio de uma chuva de bala. Corri atirando e buscando uma cobertura. Não sei o que aconteceu com o Amílcar. Não pude mais olhar pra trás. Só fiz correr pelos becos na direção oposta à da entrada. Você deve se lembrar da favela. Ela fica num vale, entre a ladeira que desce de Santa Teresa e a escadaria que sobe, na outra ponta. Fugi pra escadaria. Eles não me seguiram. Devem ter ficado cuidando dos feridos. Vai ver que o chefe estava entre os atropelados. Corri com todas as minhas forças e subi a escadaria pulando os degraus. Quando estava mais ou menos na metade, apareceram uns colegas do 1º Batalhão no alto da escadaria. Fiz um sinal e me senti salvo pelo gongo. “De repente me apontam o fuzil lá de cima e eu só sinto aquele coice na barriga. Ficou tudo preto. Acordei aqui, depois da cirurgia. Foi tiro amigo, meu irmão. Tiro amigo. Agora, eu te pergunto: por quê? Está certo que sou negro e que estava armado e sem uniforme, mas, porra, para quê atirar antes de identificar o camarada?” Amâncio não passou daquele dia. No enterro, na salva de tiros, tive vontade de mandar pararem aquela farsa, aquela palhaçada. Mas pensei na viúva, no filho, ponderei um pouco e achei que o melhor mesmo seria colocar uma pedra no caso. Melhor ter um pai herói, morto pelos inimigos, do que vítima de um mal-entendido. Digo mal-entendido para manter um certo nível de sobriedade, em homenagem à memória de um amigo querido, um homem de valor. O que senti mesmo foi vontade de chorar e de vomitar as verdades sobre essa merda toda.
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A resenha do livro
Sobre o filme: "Tropa DA Elite ou Matou na favela e foi ao cinema".
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