29.6.07
28.6.07
27.6.07
Bruno Tolentino

Bruno Tolentino (1940-2007)
A grande alma penada
Se Baudelaire, à diferença de Pascal,
odiou a amplidão
e não soube conter a vertigem do mal
no drama da razão,
terá sido talvez porque insistiu em ver
o olhar que usurpa e mata:
a Medusa da Idéia, esse avatar do ser
que vai virando estátua.
Pascal calou-se ante os silêncios infinitos
e ouviu de Deus a cura;
o outro, o ceifador do mal, saiu aos gritos,
como um louco à procura
da comiseração que os abismos não têm.
A simples diferença
entre o temor a Deus e o pânico de alguém
que O não escuta é imensa.
Um radical, um jansenista, um puritano
da estirpe de Pascal,
teme a misericórdia de Deus (se não me engano);
mas nem em Port Royal,
aquela fortaleza do orgulho, houve lugar
jamais para um bueiro
de que o Céu se tornasse a tampa tumular
e o velho desespero
a bússola da vida, ou um contrapeso a ela.
Vira a alma penada
o poeta imortal que ao abrir a janela
vai do Infinito ao Nada.
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26.6.07
24.6.07
a orelha
From: dx@hotmail.com
To: bx@editorax.com.br
Sent: Monday,February 19,2007
Subject:Re:Proposta
B., meu caro
Li o livro de X. e gostei. Sem dúvida, o autor tem talento. Os pontos fracos são bem menos significativos que os pontos fortes. A presença do tempo como uma força que oprime e fragmenta a vida dos narradores é interessante. Não gostei, porém, dos textos que seguem o formato típico de textos de blog (a enumeração de gostos e ações dos narradores), acho que não funcionam bem no suporte livro. Mesmo assim, vou recusar o convite de escrever a orelha, o que não tem nada a ver com o meu julgamento do livro de X. Apesar de 200 reais fazerem falta a quem vive de frila, só assino orelhas de livros pelos quais eu tenha uma admiração extraordinária ou de autores com quem tenha vínculos de amizade ou afinidade. Espero que compreenda a minha posição. Ando também sem tempo pois me ocupo do meu próprio livro a ser lançado mês que vem pela editora xxg. Se eu tiver alguma chance, contudo, poderei elogiar o livro de X. no meu blog, em entrevistas ou conversas, pois trata-se realmente de um bom livro.
um abraço,
D.
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From: dx@hotmail.com
To: bx@editorax.com.br
Sent: Monday,February 19,2007
Subject:Re:Proposta
B., meu caro
Li o livro de X. e gostei. Sem dúvida, o autor tem talento. Os pontos fracos são bem menos significativos que os pontos fortes. A presença do tempo como uma força que oprime e fragmenta a vida dos narradores é interessante. Não gostei, porém, dos textos que seguem o formato típico de textos de blog (a enumeração de gostos e ações dos narradores), acho que não funcionam bem no suporte livro. Mesmo assim, vou recusar o convite de escrever a orelha, o que não tem nada a ver com o meu julgamento do livro de X. Apesar de 200 reais fazerem falta a quem vive de frila, só assino orelhas de livros pelos quais eu tenha uma admiração extraordinária ou de autores com quem tenha vínculos de amizade ou afinidade. Espero que compreenda a minha posição. Ando também sem tempo pois me ocupo do meu próprio livro a ser lançado mês que vem pela editora xxg. Se eu tiver alguma chance, contudo, poderei elogiar o livro de X. no meu blog, em entrevistas ou conversas, pois trata-se realmente de um bom livro.
um abraço,
D.
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21.6.07

a bursite
me mandou um e-mail pedindo emprego - anexou currículo
cargo executivo, carteira assinada e apartamento funcional
deve ser bom morar em Brasília
e como vai a bursite do presidente?
como não moro em Brasília
nem tiro conversinha sobre bursite oficial
levei dias para responder
insistiu:
teus amigos não estão no poder?
de que servem os amigos se não existe
uma hora dessas para provar que são amigos?
não precisa ser no ministério da educação
o da cultura serve --
não disse pela metade
professores de humanas têm muita clareza matemática
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19.6.07
Mário Cesariny

Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmara escura
Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio
Afinal o que importa não é ser novo e galante
-- ele há tanta maneira de compor uma estante
Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício
e cair verticalmente no vício
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Imagem: Piss Christ, polêmica foto do artista nova-iorquino Andres Serrano censurada em 1989.
O crucifixo está submerso em urina.
Versos da "Pastelaria" de Mário Cesariny.
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15.6.07
BoleroQué vanidad imaginar
que puedo darte todo, el amor y la dicha,
itinerarios, música, juguetes.
Es cierto que es así:
todo lo mío te lo doy, es cierto,
pero todo lo mío no te basta
como a mí no me basta que me des
todo lo tuyo.
Por eso no seremos nunca
la pareja perfecta, la tarjeta postal,
si no somos capaces de aceptar
que sólo en la aritmética
el dos nace del uno más el uno.
Por ahí un papelito
que solamente dice:
Siempre fuiste mi espejo,
quiero decir que para verme tenía que mirarte.
Y este fragmento:
La lenta máquina del desamor
los engranajes del reflujo
los cuerpos que abandonan las almohadas
las sábanas los besos
y de pie ante el espejo interrogándose
cada uno a sí mismo
ya no mirándose entre ellos
ya no desnudos para el otro
ya no te amo,
mi amor.
Julio Cortázar
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11.6.07
Sátira contra as molheres

Sátira contra as molheres
Esforça-te meu coraçom,
nom te mates, se quiseres,
lembra-te que sam molheres.
Lembra-te qu’é por naçer
nenhûa que nam errasse
lembra-te que seu prazer,
por bondade e mereçer,
nam vi quem dele gostasse,
pois nam te dês a paixam,
toma prazer se poderes,
lembra-te que sam molheres.
Descansa, triste, descansa,
que seus males sam vingãças,
tuas lagrimas amansa,
leix’as suas esperanças.
Ca pois naçem sem rezã,
nunca por ella lh'esperes;
lembra-te que sam molheres.
Tuas mui grandes firmezas,
tuas grandes perdições,
suas desleais nações
causaram tuas tristezas.
Pois nam te mates em vão,
que quanto mais as quiseres,
verás que sam molheres.
Que te presta padeçer,
que t'aproveita chorar,
pois nunc’outras ham de ser,
nem sam nunca de mudar?
Deix’as com sua naçam,
seu bem nunca lho esperes;
lembra-te que sam molheres.
Não te mates cruamente
por quem fez tam grande errada,
que quem de si nam sente,
por ti nam lhe dará nada.
Vive lançando pregam
por hu fores e vieres,
que sam molheres, molheres.
Espanha foi já perdida
por Letabla hûa vez,
e a Troia destroida
por males qu’Elena fez.
Desabafa, coraçam,
vive, nam te desesperes,
que quem fez pecar Adam
foi a mãi destas molheres.
Jorge d'Aguiar, Portugal, séc. 15.
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9.6.07

Paulo Ferraz, além dos poemas, escreve no seu blog De novo nada coisas assim:
No Café Pittoresque
Funciona mais ou menos assim: Você. Você entra em cena, chega, escolhe uma mesa. Senta-se. Olha ao redor de si. Deixa um livro de poesia sobre a mesa. Abre. Os pés de um garçom em sua direção. Logo nos primeiros versos te interrompem. Boa noite. Boa noite, uma caneca de chope. O que você estava lendo mesmo? Você precisa de outra distração, poesia não serve. Lá está a caneca. Tente se concentrar nesta espuma, no mundo filtrado pelo vidro dourado úmido. Você até sente os primeiros goles, passa a língua sobre o lábio superior (o movimento é rápido, ninguém veria, mesmo que visse, não poria reparos), sim, o calor está insuportável, por isso essa mesa ao ar livre -- esqueci-me de dizer que a mesa foi escolhida ao ar livre, você respondeu ao boa noite, mas na verdade é fim de tarde --, mas pensar no clima não é suficiente para te fazer esquecer que já era tempo de ela haver chegado. Começa então o ritual de olhar o vazio da entrada.(............) O vazio, o vazio, o vazio que se repete. Funciona mais ou menos assim, você olha como se quisesse materializá-la, já viu isso em filmes, por isso, mesmo inconscientemente, crê que sua vontade pode controlar a natureza, seus elementos e suas leis fazendo-a aparecer sob o batente. Assim você segue, não há um período regular, mas mal retira os olhos e os volta em seguida, no fundo você queria ter uma espécie de surpresa, que seus olhares se cruzassem ao acaso (como se cada um andasse em rota de colisão por ruas repletas de gente indiferente), que seu olhar interceptasse o sorrido dela logo no seu nascimento, capturando o primeiro movimento muscular, ali sob o batente, ficando maior a cada passo. Você queria que isso ocorresse agora, nesse instante. Tira os olhos. Outro chope e outros muitos olhares para o vão, o livro desapareceu. Agora um para o relógio, sim, o relógio pode se transformar numa ampulheta, contando o tempo ao avesso até o último grão quando então ela, não, não, ela não chegou, ou o telefone, olhe firme para ele, olhos nos olhos, tudo não passa de uma questão de autoridade, ele serve a você, então diga pausado (mas com firmeza): parla! Garçom, outro chope. Funciona mais ou menos assim, você relaxa, acende um cigarro, dá um trago profundo e expira, na verdade um suspiro, a fumaça e os pensamentos que se dissipam no ar. Então ela está sob o batente. Sorrindo, o primeiro movimento muscular, ficando maior. Funciona mais ou menos assim.
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8.6.07
Por que os touros são melhores do que os críticos literários

Touros não fazem resenhas. Touros de 25 anos não casam com velhas de 55 nem esperam ser convidados para o jantar. Touros não o citam como testemunha em processos de divórcio. Touros não pedem dinheiro emprestado. Touros ainda servem para se comer depois de mortos.
Hemingway em carta a Ezra Pound de 1925. A carta faz parte de uma coleção de 1.000 documentos históricos encontrados recentemente em uma lavanderia de uma mansão na Suíça. O colecionador era um banqueiro austríaco falecido em 2005. Entre as peças raras estão cartas de Napoleão a Josefina, de Churchill, de Pedro o Grande, Puchkin, John Donne, Gandhi entre outros. A coleção será leiloada mês que vem e já foi avaliada em quase 5 milhões de dólares.
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5.6.07
e. e. cummings

maggie and milly and molly and may
went down to the beach (to play one day)
and maggie discovered a shell that sang
so sweetly she couldn't remember her troubles, and
milly befriended a stranded star
whose rays five languid fingers were;
and molly was chased by a horrible thing
which raced sideways while blowing bubbles: and
may came home with a smooth round stone
as small as a world and as large as alone.
For whatever we lose (like a you or a me)
it's always ourselves we find in the sea
e. e. cummings
imagem do inverno em Copacabana: Jôka P.
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4.6.07
eu sabia
que mesmo depois que me
despedisse e fechasse
a porta
e descesse todos
os degraus troteando
a escada em espiral
e entrasse no táxi, boa-noite
siga reto, por favor, à
direita, o troco, obrigada
e acenasse para o porteiro
mesmo depois que eu apertasse
o botão do elevador, procurando
o chaveiro na bolsa
abrisse a porta de casa
tirasse os sapatos, os brincos
escovasse os dentes, os cabelos
mesmo depois que eu
dormisse e sonhasse e até a hora
em que acordasse, você ainda estaria
com os olhos
presos
à porta.
Alice Sant'Anna
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que mesmo depois que me
despedisse e fechasse
a porta
e descesse todos
os degraus troteando
a escada em espiral
e entrasse no táxi, boa-noite
siga reto, por favor, à
direita, o troco, obrigada
e acenasse para o porteiro
mesmo depois que eu apertasse
o botão do elevador, procurando
o chaveiro na bolsa
abrisse a porta de casa
tirasse os sapatos, os brincos
escovasse os dentes, os cabelos
mesmo depois que eu
dormisse e sonhasse e até a hora
em que acordasse, você ainda estaria
com os olhos
presos
à porta.
Alice Sant'Anna
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