15.10.07



Há pessoas diante das quais você não pode mostrar que está feliz, elas vão achar sempre que você está bêbada. O que no meu caso é invariavelmente verdade, pois ser feliz na presença delas exige de mim manutenção alcoólica contínua. Hilda é uma dessas pessoas. Hilda Feliz, como eu chamo. Não somos amigas, nem parentes, mas uma circunstância da vida permitiu que fôssemos próximas. Diferente de mim, Hilda não aprendeu a tirar prazer de uma palestra sobre o icosaedro. Decepcionada com o mundo corporativo, Hilda largou tudo e foi viver de jogar tarô para pessoas que necessitam dos arcanos para saber se devem pegar a rua B ou C. Eu não acredito em tarô, acredito em tarólogos convincentes. Hilda baixou para mim suas cartinhas ilustradas umas duas vezes. Na primeira disse que um projeto meu do qual nem lembro seria um sucesso. Na segunda, afirmou categoricamente, após várias confirmações, que eu estava encolhendo. Mentalmente?, ora, não é novidade. Não. Encolhendo fi-si-ca-men-te. Encolhendo no sentido leste-oeste?, eu perguntei dessa vez animada. Não, você está encolhendo no norte-sul. Está perdendo altura, ficando mais baixa. Mais baixa? Bom, com a idade perdemos alguns centímetros, a coluna verga, é isso? Ela não soube ou não quis explicar. Já se passaram alguns anos, estou do mesmo tamanho e Hilda sumiu. Acho que Hilda é assim mesmo, é daquelas pessoas para quem a felicidade não pode ter uma cara. Nyuk-nyuk-nyuk! Ela não sabe que a felicidade tem cara de bola de tênis suja.


----