3.7.07




a parede cega


Gosto da caixinha de cotonetes exatamente onde está. Ao meu lado. Na estante a um metro da minha cama. Posso pegá-la só esticando o braço para a noite. Gosto das paredes que me cercam, dos vidros limitados por janelas começando onde as paredes acabam. Gosto das janelas por onde vejo o mundo lá fora sem precisar respirar o seu ar, ouvir os seus sons. Gosto do meu banheiro. Só no banheiro. Em que me banho com vapores de eucalipto sempre que o telefone toca. Gosto dos móveis, que me distraem das paredes, portas e janelas, sem me pedir nada por isso. Preciso destes móveis, deste chão, deste teto sobre mim e dos corredores que me carregam pela casa sempre que ela me chama. Gosto da geladeira exatamente ali, onde posso achá-la no escuro. Tão bela, tão imponente, tão pálida. E condescendente. A boca enorme de silêncio se abrindo só para mim. Gosto da cozinha toda na verdade. Pias, cubas e torneiras. E de sua generosidade. Não consigo passar 24 horas longe delas. Longe da minha casa. Tenho dependência química da minha casa, coloquemos assim. Do inconsciente das paredes, com seus buracos de pregos, manchas de umidade, rastros de insetos. Do chão de tábua corrida que morrerá comigo porque assassinarei a casa antes dos restauradores e seus bisturis. Da bananeira em que me apóio para descer a escada. Dos livros que apodrecem enquanto durmo. Do pátio interno que se finge de mar e sol. Rio de Janeiro. Da parede cega em que penduro poemas medíocres. Da porta da rua que guarda você para nunca mais voltar. Da varanda que te espera sozinha porque vivo nos fundos. Dos quartos, ah dos quartos. Não consigo passar 24 horas longe da minha tesourinha de unhas, da minha estátua de Diana e das bolas de tênis murchas. Dos gatos de meio-fio. Gosto de mim exatamente aqui. E por tudo isso você há de me perdoar, mas não posso ir ao seu lançamento hoje.



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