11.6.07

Sátira contra as molheres

Sátira contra as molheres


Esforça-te meu coraçom,
nom te mates, se quiseres,
lembra-te que sam molheres.

Lembra-te qu’é por naçer
nenhûa que nam errasse
lembra-te que seu prazer,
por bondade e mereçer,
nam vi quem dele gostasse,
pois nam te dês a paixam,
toma prazer se poderes,
lembra-te que sam molheres.

Descansa, triste, descansa,
que seus males sam vingãças,
tuas lagrimas amansa,
leix’as suas esperanças.
Ca pois naçem sem rezã,
nunca por ella lh'esperes;
lembra-te que sam molheres.

Tuas mui grandes firmezas,
tuas grandes perdições,
suas desleais nações
causaram tuas tristezas.
Pois nam te mates em vão,
que quanto mais as quiseres,
verás que sam molheres.

Que te presta padeçer,
que t'aproveita chorar,
pois nunc’outras ham de ser,
nem sam nunca de mudar?
Deix’as com sua naçam,
seu bem nunca lho esperes;
lembra-te que sam molheres.

Não te mates cruamente
por quem fez tam grande errada,
que quem de si nam sente,
por ti nam lhe dará nada.
Vive lançando pregam
por hu fores e vieres,
que sam molheres, molheres.

Espanha foi já perdida
por Letabla hûa vez,
e a Troia destroida
por males qu’Elena fez.
Desabafa, coraçam,
vive, nam te desesperes,
que quem fez pecar Adam
foi a mãi destas molheres.



Jorge d'Aguiar, Portugal, séc. 15.

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