27.6.07

Bruno Tolentino



Bruno Tolentino (1940-2007)



A grande alma penada



Se Baudelaire, à diferença de Pascal,
odiou a amplidão
e não soube conter a vertigem do mal
no drama da razão,


terá sido talvez porque insistiu em ver
o olhar que usurpa e mata:
a Medusa da Idéia, esse avatar do ser
que vai virando estátua.


Pascal calou-se ante os silêncios infinitos
e ouviu de Deus a cura;
o outro, o ceifador do mal, saiu aos gritos,
como um louco à procura


da comiseração que os abismos não têm.
A simples diferença
entre o temor a Deus e o pânico de alguém
que O não escuta é imensa.


Um radical, um jansenista, um puritano
da estirpe de Pascal,
teme a misericórdia de Deus (se não me engano);
mas nem em Port Royal,


aquela fortaleza do orgulho, houve lugar
jamais para um bueiro
de que o Céu se tornasse a tampa tumular
e o velho desespero


a bússola da vida, ou um contrapeso a ela.
Vira a alma penada
o poeta imortal que ao abrir a janela
vai do Infinito ao Nada.



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