8.5.07

O sanatório de almas




medo na biblioteca

alguém já disse que uma biblioteca é o sanatório das almas. uma boa definição. os mais melosos também chamam de o coração da humanidade. e ainda há aqueles que acham que toda biblioteca não passa de um depósito das maldades do paganismo e do ateísmo. longe de definir, eu gosto de estar dentro de uma biblioteca. de preferência antiga, muito antiga. quase medieval. encardida pelo tempo. com teto alto e corredores escuros. corredores não, ruas. avenidas, para eu me perder por elas. estantes gigantescas que não poderia alcançar sem uma escada. e a escada, sempre há poucas. o ar, o ar precisa ser irrespirável. as lombadas, empoeiradas. para se descobrir os títulos aos pouquinhos. letra por letra. é preciso ter medo na biblioteca. medo do corredor ao lado. medo do escuro. das vozes baixas, dos passos lentos que se aproximam e se afastam. medo dos livros que podem despencar sobre mim e me sufocar. dos livros que não devo ler se quero sair da biblioteca viva. medo dos insetos por trás, por dentro de um livro. roendo papel. medo de ser roída também se fizer da palavra escrita uma forma de vida. medo de passar um dia eu mesma a roer livros. como uma traça. há que se temer bibliotecas. e acorrentar livros. como nesta biblioteca que conheci na filadélfia. isso faz muito tempo.