30.4.06


S.O.S.
não posso me demorar aqui. tenho de ficar na escuta. desde as 2 e 25 da manhã recebo sinais pela frequência do radioamador. eu estava lendo um Graciliano Ramos e corujando pelo Deltão, quer dizer, só na escuta do rádio, ouvindo as conversas, o que qualquer radioamador costuma fazer. o sono já começava a me dominar, quando o receptor ficou mudo e depois pipocou sem parar. meu receptor é sensível mas aquele sinal era estranho. talvez fosse um DX, pensei, um contato de longa distância. mas não. chiava e eu ouvia vozes numa língua estranha. informei minha identificação e do outro lado nada. fiquei esperando. alguém em perigo tentando um SOS? comecei a tremer. as vozes ficavam mais claras em meio à estática. apliquei toda a potência, eu já não seguia mais as regras. "Weeerback...", acho que ouvi. mas que palhaçada, deve ser trote. sons animalescos estouraram no receptor. não sei se isso costuma acontecer com outros radioamadores mas foi o suficiente para me deixar apavorada. eles queriam se comunicar comigo. alienígenas, veio num estalo em minha mente. só pode ser. mas por que pelo rádio? por que não falam com a Nasa, lá tem gente muito mais apetrechada do que eu, aqui neste meio do mato sozinha. lá fora um silêncio total. aqui dentro gritos e gritos. só isso. ninguém mais entra na frequência. perdi o sono completamente. até agora. eu nem devia estar contando isso aqui pra vocês. eles podem ficar nervosos e me punir. uma nave pode baixar por aqui e me carregar para sempre. continuo na escuta, nem vou almoçar. fome pra quê? não, eles não devem ser como na foto, seria cômico demais. talvez tenham a minha cara. a sua. só pra me enganar. como se fosse um vizinho. um parente. um amigo. mas eu sei que eles não são daqui, não com essas vozes, e podem me matar. não me digam que estou exagerando, o receptor continua estalando e gritando cada vez mais alto aqui do meu lado. não entendo mais o que dizem. só que estão de volta. estão de volta. e vocês não vão querer que eu fique aqui de conversa, perdendo tempo, me descuidando. mas eu tinha de falar isso com alguém. com vocês. eu vou continuar tentando me comunicar com estes monstros. esta coisa. se eu sumir, vocês já sabem o que aconteceu. tenho de ir agora. me desejem boa sorte.


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28.4.06

Machado de Assis e a poesia





Sei de uma criatura antiga e formidável,
que a si mesma devora os membros e as
entranhas com a sofreguidão da fome insaciável.

Habita juntamente os vales e as montanhas,
E no mar que se rasga à maneira de abismo,
Espreguiça-se toda em convulsões estranhas.

Traz impresso na fronte o obscuro despotismo
Cada olhar que despede, acerbo e mavioso,
Parece uma expansão de amor e de egoísmo.

Friamente contempla o desespero e o gozo,
Gosta do colibri como gosta do verme,
E cinge ao coração o belo e o monstruoso.
Para ela, o chacal é como a rola inerme,
E caminha na terra imperturbável como,
Pelo vasto areal, um vasto paquiderme.

Na árvore que rebenta o seu primeiro gomo,
Vem a folha que, lento e lento, se desdobra.
Depois a flor, depois o suspirar do pomo.

Pois essa criatura está em toda a obra,
Cresta o seio da flor e corrompe-lhe o fruto.
E é nesse destruir que as suas forças dobra.

Ama-te igual amor o poluto e o impoluto,
Começa e recomeça uma perpétua lida, e sorrindo
Obedece ao divino estatuto. Tu dirás que é a morte,
Eu direi que é a vida.



Machado de Assis, no poema "Uma Criatura", de Ocidentais, 1889. Machado, a quem muitos julgam um poeta de mão pesada, embora ficcionista genial, nasceu numa chácara no Morro do Livramento, hoje Bairro da Saúde no Rio. Na foto abaixo, vê-se o Cais de São Cristóvão, onde "Machadinho", para os íntimos, costumava pegar uma barca para se deslocar até o centro da cidade. Quando subiu na vida, graças a uma promoção no serviço público concedida pela Princesa Isabel e ao dinheiro que recebia dos direitos autorais de seus livros e de suas colaborações na imprensa, Machado mudou-se para o Catete, bairro luxuoso na época. O autor terminaria seus dias polindo o tapete da ABL, sua Casa, e morando solitário no Cosme Velho, um bairro da alta aristocracia.




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24.4.06





Anoiteceu e as cuecas do Jardel continuam secando na corda. Para quem quiser ver. Começa a chover. Não tenho pena. Eu não vou levá-las para dentro. Não tenho tempo. São cuecas bonitas, posso ver daqui. Cuecas de outono. Um vento democrático as balança junto com as folhas de bananeira. Jardel gosta mais de suas cuecas do que dos meus poemas. Não sei se devo. Levo mais de duas horas para achar um anacoluto e mesmo assim cuecas são mais populares do que poesia. Na vida a gente tem de saber escolher: ou acabo a merda deste poema agora ou recolho as cuecas. Talvez eu fale um pouco de Jardel enquanto espero inspiração. Jardel é padeiro -- ou "boulanger", como dizem as pessoas que comem chique -- e padeiros escrevem com farinha. Letras não têm fermento, ele diz, não se pode vê-las crescendo e crescendo, transbordando do papel, ficam achatadas lá a vida inteira, esperando que alguém as leia depois que mofam. Uma leitura a frio. Nenhum verso de Camões se compara a uma boa broa de Avintes. Tivesse a boca cheia de croissants, Baudelaire não pensaria tanto na perversidade humana. Eu não concordo com estas idéias de Jardel, mas elas me fizeram rir quando eu o conheci na cozinha de Madame Niveaux, onde fui parar para pegar umas travessas de salgadinhos. Todos os fins de semana Madame organizava saraus literários em sua casa na Ilha do Governador e para essas ocasiões me contratava para servir a seus convidados ilustres. Foi nesses saraus que aprendi a gostar de poesia entre um canapé e outro que Jardel preparava com rapidez e proficiência. Já nessa época ele queria especializar-se em pães. Enquanto os poetas recitavam na sala, Jardel se pavoneava no fogão dizendo que o pão era mais antigo do que a poesia, você sabia? Que existia desde o tempo de Cristo. Bom, Jardel tinha problemas com datas e para ele a Antiguidade era farelo. A história da humanidade começava depois de Cristo e pronto. Apesar disso, louvava a tradição. Tinha orgulho de ser bisneto da inventora do bolinho de taioba. Não gostava de escritores e de me ver escrevendo como eles. São todos uns vigaristas manipuladores que querem nos convencer com mentiras que refletem não o que é, mas o que o leitor deseja que seja ou pensa que deveria ser. Todo escritor é um charlatão, comerciante de significados ilusórios. Tudo isso ele dizia mais ou menos com estas palavras. Não me convencia e talvez por isso eu me apaixonei por ele. Madame Niveaux morreu e com ela os saraus. Compramos a casa da Ilha do Governador, que Jardel transformou numa padaria bem diversificada onde vende pães temáticos, sua última criação. Eu não faço nada. Hoje não cuido mais de nossa casa, não lavo, não passo nem entro na cozinha. Fico sentada escrevendo poemas que Jardel não lê. E por que o faria? Poetas não têm a cabeça bem sovada.




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22.4.06

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Em 20 de outubro de 1969, um dia antes de sua morte, Jack Kerouac escreveu uma carta ao seu sobrinho. Seriam as últimas palavras escritas do poeta. Na foto abaixo, a carta que tempos depois viraria camiseta.


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17.4.06

Ángel González




Esto no es nada


Si tuviésemos la fuerza suficiente
para apretar como es debido un trozo de madera,
sólo nos quedaría entre las manos
un poco de tierra.
Y si tuviésemos más fuerza todavía
para presionar con toda la dureza
esa tierra, sólo nos quedaría
entre las manos un poco de agua.
Y si fuese posible aún
oprimir el agua,
ya no nos quedaría entre las manos
nada.

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Todos ustedes parecen felices...


...Y sonríen, a veces, cuando hablan.
Y se dicen, incluso,
palabras
de amor. Pero
se aman
de dos en dos
para
odiar de mil
en mil. Y guardan
toneladas de asco
por cada
milímetro de dicha.
Y parecen -- nada
más que parecen -- felices,
y hablan
con el fin de ocultar esa amargura
inevitable, y cuántas
veces no lo consiguen, como
no puedo yo ocultarla
por más tiempo; esta
desesperante, estéril, larga
ciega desolación por cualquier cosa
que -- hacia donde no sé --, lenta, me arrastra.



Ángel González


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11.4.06





"O século XII deixou-nos as canções de Arnaut Daniel e de Raimbaut D'Aurenga. Mas Piert Fabel com seu prosar clus (prosa hermética) foi o precursor e mestre dos grandes trovadores que influenciaram a literatura do sudeste europeu. Reinventor da abandonada tradição da poesia em prosa, Fabel canta uma ousada relação amorosa homem/mulher, que acaba por levá-lo à morte sob tortura nas prisões da Inquisição. Seu supremo engenho foi quase todo queimado. Apenas oito textos incompletos sobrevivem e chegam inexplicavelmente a nosso tempo e nossos olhos. Um deles reproduzo aqui:


EN TEL AMOR


Mireolhei en ella para com todu forço, qual gostoin ella eran, qual bonitura ella eran.


Envirei pirata en olho dela, de todos melhures maneiros. Nen carroceira, nen canruage, nen passeiande de ten a pié, só en gosto de sello à toa. Der entornei a consoir, gentil lelira caçadereira qui a min de min caças devano, eu, desvaleiro de tan trigonços chabatizmado por min de me. Y eu de min sen me tambein, scudeiro seu ante de antes, despois prostrado perante sus. Desan mentiu, despaço trus.

Que fue banqui sentimentau, mornadei lheiras y trechorei por todu min corasson desto, en desrefiu hei versos tus, mesa marquisa, qui de premiu e conseliu por de frandanças, armau venturas, de darnos rizo, rejucundae dama de siso? Dama resplente, qui de castelho mirado rau de arragrades non fui destarte, non claro puiso.

De voi cantar moderas tristes, pios de voi rescribu carteas de mor en plus, plus tambein cor, qui cestra mode e por tal forme comu ventiro dequel nenínguem sensin labor nin derramor di lagrimejas en tel amor. "




Ezra Pound, no manuscrito "The Unfound Tradition", escrito em 1954 durante sua estada no St. Elizabeth's Hospital na qualidade de "louco incurável mas inofensivo", segundo os diagnósticos médicos. Agradeço a Cesar Cardoso, poeta e escritor, leitor deste blog e meu ex-colega da faculdade de letras da UFRJ, pela lembrança e envio deste fragmento de Pound, nosso inesquecível mestre de Idaho, onde ele resgata a memória de Piert Fabel.


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8.4.06

Borges e o Farrapo Humano

la gota del tiempo que vacila





Dizem que Jorge Luis Borges, poucos anos antes de morrer, visitou Nova York para uma conferência e quis conhecer, apesar de cego, todos os bares por que passou Ray Milland no filme Farrapo Humano. Borges sabia de cor o nome de todos esses bares e nessa ocasião acabou conhecendo María Panero, estudante de medicina argentina, para quem declamou 5 sonetos feitos na hora para que ela os copiasse. Disse ele que vinha pensando naqueles poemas no avião que o levou de Buenos Aires a Nova York, e que ela seria a pessoa indicada para copiá-los. Os sonetos permaneceriam inéditos pois o autor não levou uma cópia e María não conseguiu enviar a ele a cópia que ficara consigo. Anos após a morte do autor, José Manuel Martell, especialista em Borges, confirmou a autoria ao ler os sonetos, argumentando no entanto que deviam ser rascunhos mentais dos anos 60 que o autor nunca quis publicar mas que usava como isca para conseguir alguma mulher por quem se interessava. Mais recentemente estes sonetos foram disponibilizados na rede pelo poeta colombiano Harold Alvarado Tenorio e aqui publico um deles:


Ya somos el olvido que seremos.
El polvo elemental que nos ignora
y que fue el rojo Adán y que es ahora
todos los hombres y los que seremos.
Ya somos en la tumba las dos fechas
del principio y el fin, la caja,
la obscena corrupción y la mortaja,
los ritos de la muerte y las endechas.
No soy el insensato que se aferra
al mágico sonido de su nombre,
pienso con esperanza en aquel hombre
que no sabrá quien fui sobre la tierra.
Bajo el indiferente azul del cielo,
esta meditación es un consuelo.



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Na foto, o escritor fracassado, vivido por Ray Milland no cinema, bebendo em seu bar favorito, o lendário Clarke's, na Terceira Avenida.


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7.4.06

"Quem escreve quer ser publicado. Mas não só", diz o Esplanar em post de 4 de abril sobre crítica literária. Vale conferir.


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bife de oião









- verbete do Dicionário do Nordeste, de Fred Navarro, 2004.


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4.4.06

Damaris Calderón




Jardim Inglês


Os jardineiros
têm uma rara vocação para a simetria
e recortam as palavras sicômoro,
salgueiro, abeto, carvalho.
Guardam as proporções
como guardam suas partes pudendas.
E exercem sem condescendência
a ordem universal
porque o homem
-- como o pasto --
também deve ser cortado.



Mescal

No fundo
de uma garrafa
de mescal
-- como ao final --
nos espera o verme.
Mastigo na terra seca
esse brancor
de cercas vivas
para saber
o que sabe
aquele que nos comerá.



Os Outros

Sobre mim
crescerá
o capim
que pisotearão
os cavalos
de Átila.



Damaris Calderón, poeta cubana nascida em 1967. Tradução minha para este blog.


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