22.10.06





gaudérias


avô meu grande avô, o de bombachas, costumava percorrer a estância tomando um verde. Me lembro dele num churrasco preto-e-branco enquanto percorro o calçadão do Leme ao Túnel Novo. A única herança que deixou, além da genética estampada na minha cara, foi essa foto de bolso e um revólver prateado, regalo do general Flores da Cunha. O revólver se perderia, roubado por um assaltante carioca décadas depois. Morreu sem que eu o conhecesse, ou lembrasse, quase cego, diabético, atropelado na capital quando atravessava a rua. Já meu outro avô, o paterno, o das lavouras de arroz arcaico, explodiu de infarto durante uma gargalhada na mesa do almoço sem que eu o conhecesse também. Dele não me sobrou nem a imagem. Subindo o Morro da Babilônia, à meia-guampa, sei que deveria evitar lembranças de muito contraste. O sol deve estar sempre atrás de quem filma, uma regra básica. Daqui não posso ver mais a praia. Meu coração de balneabilidades. Henry James dedicou certa vez 10 páginas só para descrever uma agência de correios, por isso poetas amadores como eu, de perspectiva ainda chucra, devem dar preferência ao detalhe. Ater-se à cuia e bomba de metal. Fazer menos história e mais bonomia. A linguagem é uma virgem que se deve transformar em prostituta universal, não o inverso. Automóveis entram e saem do túnel. Escrevo agora a mais de 3 metros do objeto. Não é uma distância ideal. Nódoas de família não se lavam nem com toda água do Camaquã.