15.9.06




sexta-feira: 20:22

ouvindo no carro Rêverie de Debussy, o Bussyk, meu compositor favorito depois de Satie. uma surpresa. ah, Tom Jobim, você fez igualzinho no piano o seu primeiro verso: "Olha, está chovendo na roseira..." reparem só.



21:51 segunda parada

well, parece que descobri a pólvora, hum? Tom Jobim faz uma "citação" de Debussy. só eu não tinha percebido. a 120 por hora pelas estradas esburacadas de Minas, minha memória é névoa. estou no laptop puglado sobre a mesa encardida do bar Duas Cruzes. rumo a Divinópolis. depois de passar dias olhando os pombos se coçarem no peitoril de minha janela em JF, decidi ser stalker de adélia prado. o que fazer em Minas se eu não acredito em Deus? buscar adélia prado. assediar os seus versos. lentas tomadas em sépia. dou um gole na cerveja. polícia militar rodoviária a 500 metros, leio na placa. está escuro. o bar já vai fechar. penso nos versos que fiz esta semana e enviei para o Valter:

Verlaine era verde.
Às três da manhã sua boca verde
cochichava no ouvido de Rimbaud:
"Venez, chère grande âme,
on vous appelle,
on vous attend!"
Mas Rimbaud era daltônico
e se importava com outras coisas.
Perdeu-se n'África e nunca mais escreveu.

Às vezes a poesia dá um nojo.


eu não tenho nojo - angustura - dos versos de adélia. luzia, estou indo para Divinópolis, para a rua Ceará. acelerada, pneumática. se ela não me receber, vou me instalar numa carrocinha de cachorro-quente na frente de sua casa. será que a poeta tem balanços na varanda? as noites seriam mais curtas em divinópolis? antes que o dia amanheça estarei chegando em BH. dali para divinópolis é chão. esqueço das horas. ouço bois que não precisam da noite para mugir. minha boca tem gosto de prego. e do banco do carona vazio. o Duas Cruzes tem um jardim de gerânios secos no fundo. duas sepulturas. uma TV ligada na rede minas. minha orelha coça e descubro que é carrapato. a estiagem traz dessas coisas. estou seca. previsão de chuvas para o fim de semana. adélia não vai me deixar ao relento. ela deve ser educada. vai me receber com café e biscoitos. bolo de fubá. talvez me mostre a igreja da praça. um poema inédito. uma rua de terra. um quarto com crucifixo na parede. uma ampla cozinha onde se conversa da vida alheia enquanto se come à farta. isto é Minas. um silêncio na alma. meus pombos estão sozinhos no décimo quarto andar. eu só preciso agora pagar a conta e pisar no acelerador.


23:19

consulto o mapa pela décima vez. tenho de seguir por congonhas para chegar a divinópolis. quem foi o filho da puta que me falou de BH? sinto uns tremores só de pensar no fantasma de aleijadinho. dizem que ele assombra as estradas. estou parada num trevo. consigo a conexão com dificuldade. a bateria não vai suportar. não sei a que horas chegarei em divinópolis. só sei que ela estará lá. é mais perto do que eu imaginava. poucos carros passam por mim a esta hora. todos me ultrapassando nas curvas pelo meio da pista. muitas carretas. o que é pior. espero chegar viva para adélia. não faz diferença. luzia nem sabe que existo.

23: 58

outra parada obrigatória. acidente na estrada. duas ambulâncias. um corpo de bombeiros. uma multidão em volta. não quero olhar as ferragens. teclo no banco do carona. cochicham dois morreram. mulher de mão seca, não sei o que dizer aqui. gostaria de escrever torrencialmente. mas minha vizinha do coração disparado emudece. às vezes penso que adélia é uma miragem. vou chegar na hora do catecismo, luzia.

sábado 00:39

london motel. beira de estrada. papel de parede verde. ventilador de teto. apartamento simples, 35 reais. café da manhã. 40 watts. janelas sem cortinas. chuveiro elétrico. o melhor da região. pelo menos o mais visível. sem sabonete. bíblia na cabeceira. faltando a página 109. apago o cigarro. boa noite.

------------