15.9.06



O escritor e eu


Imaginei a história de um escritor:

Infância adotada por anjos decaídos, poliomielite, batia e apanhava, jogado em cactos, cicatrizes, cagava nas calças, escaldado enquanto dormia pelo pai alcoólatra, que queria apenas fazer um escalda-pé, garotos riam, meninas choravam, porque ele era nojento e dizia a elas coisas sem cabimento como "posso te lamber?", "quero bater sua cara naquela parede", "você me belisca?". Nas aulas de francês se agravaria sua dislexia: só olhava para cima e para baixo, suspeitas de autismo.

Adolescência delinqüente, roubava doces de feira, levantava as saias das mulheres nas ruas, vestia os vestidos da madrasta e passeava pela casa com um copo de Martini seco na mão, dizendo "we'll always have Paris". Jogava sacos d'água pela janela de casa, agora apanhava mais e batia menos, porque sofria de asma, mas sonhava com a tuberculose que matou Álvarez de Azevedo. Mandava os mais novos fazerem coisas erradas e fazia tudo o que os mais velhos o mandavam fazer. Matava gatos amarrados pelo rabo e lançados pela janela. As garotas, dessa vez, lhe causavam repulsa e tesão, por isso chorava incompreensivelmente enquanto se masturbava, já que nenhuma delas queria chegar perto dele por causa do incrível cheiro de esperma coalhado que se desprendia das suas roupas e entranhas, já que raramente se trocava e nunca se limpava propriamente e vivia nos banheiros públicos a sacudir o próprio pau, até conseguir se livrar um pouco de si mesmo na latrina.

Foi quando começou a escrever suas primeiras grandes reflexões nas paredes dos banheiros: suas primeiras experiências literárias.

Com isso, se animou a participar do concurso literário da escola, mas foi expulso por ter adotado "Comando dos Putrefatos" como pseudônimo -- e o colégio nem mesmo era católico, era um colégio maçônico. Não desistiu. No ano seguinte se inscreveu novamente, dessa vez como "Coração Enjaulado", mas foi desclassificado logo na primeira eliminatória, tendo o primeiro prêmio, um teclado Cássio de última geração, sido dado a um garoto que fez um belo texto sobre como as borboletas morrem.

Juventude desinteressada, passava a maior parte das tardes e noites trancado em seu quarto bebendo e falando sozinho, quando não se cortando para saber, pela cor do seu sangue, se teria diabetes e morreria como John Fante. Não sabia de onde vinham as coisas que o abatiam (pois elas pareciam vir de todos os cantos), por mais que todo mundo em volta parecesse também não saber, mas como diabos eles conseguiam viver assim, tão bem, sem saber? Não entendia o primeiro movimento, então como poderia passar para o segundo?

Aos vinte e um se mandou num cargueiro, como voluntário da Cruz Vermelha, para Luanda, e pensou que diabos havia na Luanda, mas foi mesmo assim, porque pensar "que diabos" o fazia sentir bem, já que os santos e as boas atitudes e entidades de respeito o entediavam sobremaneira, além de negarem tudo aquilo que lhe gerava prazer e contentamento. Lá apostou tabaco nas cartas, retalhou as bochechas de alguns destemidos, cagou nos sapatos do capitão por este ter-se dirigido a ele como a um "carcamano de merda", só porque tinha que limpar o chão e usava dessa vez um bigode sem barba e vestia suspensórios, e também por causa do duplo t e do duplo c e do i no final do seu sobrenome. Mas ninguém descobriu que tinha sido ele, então foram todos praguejando limpar as latrinas, e o sabão em pó corroía suas mãos e cheirava a fênico. Depois brigou de mão duas vezes, a segunda lhe causando uma profunda perfuração no crânio, cuja cauterização o ambiente salubre marítimo acabou retardando, período durante o qual não precisou esmagar baldes de alho com as pontas dos dedos, nem senti-las queimar por semanas a fio. Simplesmente se deitava no convés, junto aos ratos e baratas e ao chorume dos lavabos e da cozinha, lendo livros de bolso com estórias policiais sobre mulheres frígidas, copos de uísque tilintando com gelo, homens carecas e falidos e detetives flácidos de olhos murchos que não conseguiam mais fazer o pau subir, por isso usavam lenços para enxugar a testa. Foi quando começou a escrever a sério.

Voltou para casa com seu primeiro livro escrito: "Palhaço de Bolso", com contos que lembravam sua infância e adolescência e a época em que seu pai pisava no seu pé e sua mãe jogava suas chupetas pela janela, comprando outras no final do dia, porque sofria de alternância súbita de humor, eufemismo de loucura. Era por fim um escritor. Começou então com a poesia, conselho de um amigo que disse: "você tem a cara triste, devia fazer poesia". Mas a palavra poesia lhe dava coceiras e arrepios, e por um tempo achou que isso fosse o certo, que fosse daí que viesse toda a poesia, mas não conseguia ler poesias, o que dirá escrevê-las.

De qualquer forma isso foi bom, porque nessa época se juntou com uma turma da pesada que seria o novo cenário, todos jovens e ricos fundamentalistas da simplicidade e concisão estéticas, mesmo que falassem sobre isso bebendo single malt escocês e comendo cogumelos no azeite com tomate e sal. Com um ano de convivência montaram um caderno literário chamado "Sacrílegos Sacripantas", para cujas tiragens alguns de seus textos eram aqui e ali selecionados. Mas o irritava o fato de serem sempre os textos sobre suas dúvidas, jamais sobre suas certezas.

Nessa mesma época, apesar de ter sido reconhecido por este seleto círculo de óculos e camisas de botão como um escritor de verve e ritmo, sentia-se miserável e pensava constantemente em se suicidar. Foi quando teve a idéia de escrever uma história na qual um sujeito pula de uma janela a fim de se matar, mas acaba recolhido no meio do trajeto por uma enorme ave azul, que o leva para um mundo distante que se revela pior do que o primeiro, já que o sujeito tem que rapidamente aprender a comer minhocas e voar, algo nada fácil quando não se têm asas. De qualquer forma, "Depois da Morte a Ave Azul" lhe rendeu muitos prêmios e belas mulheres e entrevistas e "o que pensa o mais novo escritor talentoso?" e "qual será agora o próximo passo?" e "o que você pensa sobre o último livro do Chico Buarque?" e "qual a influência de Raymond Chandler nas suas obras?" e "o que você tem a dizer sobre Raymond Radiguet?" e "o que falta para a nova geração despontar?"

Mas seu sofrimento, sua necessidade de saber e seu desprezo pela procura mantinham-no cada vez mais perto da parede, de modo que começou a largar mão dos cabelos e da barba e entrou feio pelo tonel de vinho. Foi quando conheceu sua única esposa, massagista à noite e sempre uma alcoólatra pela manhã, com quem teve um relacionamento turbulento como o de qualquer grande escritor. Diziam que ele era grande, que o próximo livro seria um estardalhaço, que deveria se livrar daquele babaca, seu editor, um chupa-sangue, que sua esposa tinha sido vista em tais e tais lugares, acompanhada de tais e tais tipos, e ele já não conseguia mais rir nem chorar. Apenas andava do quarto para o banheiro, do banheiro para a máquina de bater, e nada mais acontecia. Então, dali para o quarto outra vez.

Papéis eram espalhados pelo chão, afinal, um escritor precisa espalhar seus papéis. Começou a procurar mulheres pela rede de relacionamentos virtuais e a marcar encontros aos quais nunca comparecia. Preferia se masturbar de cinco a sete vezes por dia, como se fosse possível recuperar a infância que nunca teve, de modo que quando sua esposa voltava para casa do trabalho, tarde, malcheirosa, bêbada e furiosa, tentava assassiná-la com uma faca, dia-sim-dia-não, porque ela dizia que ele não era mais capaz de ter uma ereção honesta. Então os vizinhos tinham sempre que intervir batendo com um banco na sua cabeça até desmaiá-lo.

No fim de quatro anos nessa agitação, descobriu que sua esposa toda manhã tomava um copo d'água com sal para vomitar e que cozinhava suas almôndegas no sangue da própria menstruação. E os bancos na cabeça lançados pelos vizinhos já tinham-no metido na banheira a tarde toda, com dores lancinantes, todas as tardes, a falar sozinho e a cantar velhas tarantelas como "Pane e Vino" (la mente è potenza, il cuore è amore / la potenza è maschile, l'amore è femminile / la mente è pane, l'amore è vino).

Quando o inchaço na parte inferior, entre a cabeça e a nuca, tinha-se transformado numa pústula de sangue inchada e, pela gangrena, temiam que fosse acometido de uma hemorragia cerebral a qualquer momento, tratou de escrever seu célebre romance "Uma Puta -- Dor Na Nuca", em homenagem à sua esposa, outro sucesso de vendagens que lhe rendeu mais entrevistas e filmagens e garotos bêbados na sua janela com roupas rasgadas gritando como ele tinha salvado suas vidas, por mais que ele próprio pensasse em quem salvaria a sua, mas enquanto isso: "o que você acha que pode ser feito para se dar novos rumos à literatura mundial?", "qual a sua opinião sobre a literatura virtual?", "qual o seu método de escrita?", "e quanto ao comprometimento político?", "o que você diria para os jovens escritores que o estão assistindo agora?".

Foi quando morreu de cansaço, sem deixar filhos. Foi quando entendeu que era mesmo um palhaço. Que no fundo não era nada daquilo. Mas já tinha deixado seu rastro de dúvidas e rancor. Estava feito. Era aquilo que todos queriam: um fim onde encontrasse cada um seu próprio começo.

Depois olhei para minha própria figura de 23 anos, derrotada e inchada, diante do espelho do banheiro sobre a pia, o amolador de facas lá embaixo, na rua, tocando Celine Dion: my heart will go on.

Tentei chorar, tentei me debater, tentei sentir raiva, mas o que fiz mesmo foi abrir um sorriso que ficou entre o "meu deus, é isso?" e o "é impressionante como você não tem a menor chance".

Então apaguei a luz e não dormi.




Leonardo Marona, em conto inédito para este blog.


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