28.7.06




Os sinos das igrejas de Minas ainda batem uma vez a cada meia hora, seis vezes às seis horas, onze vezes às onze. E ao meio-dia ou meia-noite batem doze vezes. Todo dia. Toda madrugada. Não é para os nervos de qualquer um. Nas grandes cidades, todos os barulhos formam um só. Um imenso rugido ao fundo, indetectável, que dia após dia não damos atenção. Não ouvimos mais. Em Minas cada ruído é um só. Inacrescentável. Solitário. Metrificável ao ouvido. A folha que cai no quintal primeiro cai de pé, bandeia pro lado e por fim deita inteira. Essa queda final dura um segundo, mas você é capaz de ouvir cada movimento e, se for esperto, saberá até de que árvore partiu. Um boi mugindo, o tintim do padeiro que passa na rua, o cricri metálico das corujas acasalando no campanário, o cântico da missa, as quatro ferraduras do cavalo, o lamento sertanejo nos botequins, o último suspiro dos agonizantes -- Minas morre muito. Cada ruído é um só. O sino bate dez vezes com um intervalo de 8 segundos entre um dobre e outro. São dez horas. Meu coração ajusta seus batimentos ao tempo das badaladas. Não há pressa. Em Minas todo coração bate demorado.

---------