25.5.06




Não adianta insistir, eu não quero ver o código da vinci, nem ler o livro eu li. Que coisa mais tacanha essa sua. Pode ser, talvez um dia em que eu esteja de melhor humor. Tem coisa muito melhor de se ler e ver, não vou perder meu tempo com essa histeria. Mas que café fraquinho, porra. É, e não dão nem uns biscoitinhos. Que frio. Por que você saiu sem casaco? Em casa tava quente. (silêncio) Eu preciso comprar umas roupas presse frio, meu guarda-roupa tá um esculacho. É uma boa. (silêncio) Aquele ali não é o F.? Quem? Aquele de calça marrom com a gordinha. F.? Não sei, deixa ele virar de frente. Tá meio gordo pra ser ele. Ele não estava morando na Bahia? Não sei, a última vez que soube dele estava procurando emprego em São Paulo. Me passa o adoçante, café amargo. É. (silêncio) Vai fazer o quê hoje? Quem? Vocêêê. Ah, sei lá. V. vai fazer uma excursão, quer subir o Kilimanjaro, me chamou pra ir. Na Tanzânia? E que outro? Da Disney? E você vai? Não tenho grana. Os jornais não me pagam. Tá tudo atrasado, um saco. Vida de freela é foda. É. (silêncio) E também não tenho saúde pra fazer trekking. Um frio da porra, ficar subindo em pedra feito jumento. Nem pensar. Programa de índio. Deve ser legal. Ficar longe do mundo. Ih, não viaja, tá cheio de turista lá, não dá pra fugir da humanidade. Sempre tem alguém na cacunda da gente, buzinando buzinando. Só morrendo. É. (silêncio) C. me convidou pro lançamento do livro dele. Ah, é? Ele conseguiu? Legal. Você quer ir? Não sei, tem outros três amigos meus lançando no mesmo dia. Porra, eu também vou querer, tem mais escritor que leitor. Mais que livraria. Pode crer. Olha lá, ele está se virando. Hum, não é o F., não. Ainda bem, não tô com saco hoje de falar com ninguém, ficar trocando currículo. Blablablá. Tá fazendo o quê? E aí, cara? Tá com aquele projeto ainda? E o fulano? Por onde anda? Sempre o mesmo papinho. Estamos amargos hoje, heim? Ah, não enche o saco você também. (silêncio) Quer outro café? Daqui a pouco. Já decidiu em quem vai votar? Eu vou é torcer pra Croácia, quer saber? Puta merda, junho vai ser um saco. Penumbrismo total. O quê? Nada, esquece. Tô com fome. Pede um sanduíche aí, eu pago. Nunca aprendi a fazer almôndegas. (silêncio) Já comeu abelha frita? Abelha frita? É, culinária japonesa. Acho que é chinesa. Não, é japonesa. É chinesa. Ai, caralho. Já comeu a porra da abelha frita? Lógico que não. Nem eu. (silêncio) Só queria saber se é bom. Tá ficando cheio aqui. Gente perturba a paisagem. Perturba a temperatura do ar. E o que é que não perturba você? Vai pegar no meu pé agora? Enche a boca de sanduíche e me esquece. Ih, há quantos dias você não trepa? Até parece. Vamos mudar de assunto. Acho bom. (silêncio) Vou pedir mais um café. Ei! Me vê mais um café, por favor? Dois? Não, UM. Não precisa gritar com a garçonete. Ela parece surda. O sanduíche tá bom? Médio. Analfabetos funcionais. Isto é pior do que o buraco negro de Calcutá. Do quê você está falando? Nada não, come aí. Tá na hora de reinventar a merda. Que surto, cara. Quero o meu café agora. DOIS. (silêncio) Você devia ir pro Kilimanjaro, sabia? Pra quê? Pra sentar a bunda na boca do vulcão. Não ia ser desta vez, o vulcão lá é adormecido. Não se pode confiar nem na natureza mais. E não é? (silêncio) Quero fazer um livro de poesia oligofrênica. (silêncio) Vou adorar. Vai nada. Vou sim. Tá bom. Talvez um livro dentro de um livro dentro de um livro. Tipo um livro que dá em outro livro que dá em outro livro? Isso aí, mais ou menos. Como coelhos que saem da cartola? É, mas sem o mágico. (silêncio) Coelhos bibliomorfos para coelhos idiólatras. Aí já complicou. Já acabou de falar de boca cheia? Já. Agora toma esse café, vai. Teus dentes tão cheios de pão. Dá uma bochechada. Babaca.



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