4.2.06




Porque hoje não é sábado e Vinicius de Morais que se foda porque o calor é infernal e quero entrar neste shopping agora, acabei comprando um Rive Gauche no pré e uma bolsa tipo carteiro por 29 reais. O All-Star era presente. Cano longo. Eu sabia que não se fuma mais em shopping e havia fumado uns três depois que saltei do táxi, onde também não se pode fumar mas sentir a catinga do motorista pode. Parece que a fumaça engarrafa o trânsito nas artérias entupidas das madames e seus filhotes gordos que flanam pelas lojas. A polícia do Rio-Sul são seus clientes, que deduram quem fuma lá dentro aos seguranças. Os seguranças fazem pose de FBI no walkie-talkie. O shopping é uma Alfândega limpinha. Branca, caucasiana, de banho tomado. Quem não faz pegação no banheiro olha vitrines, dois compram, o resto leva os celulares pra passear. De nariz empinado. As funcionárias das lojas te olham de cima a baixo, estou de havaianas, mas quando puxo o checão, elas me oferecem cafezinho e água gelada. Eu devia estar acostumada. Garçons só me levam a sério depois do segundo uísque, sempre foi assim. Pois eu ia dizer que estava com fome. Colei a bunda numa boca, longe da praça de alimentação, e decorei o cardápio. Salada caesar. Pobre metido a chique adora salada caesar. É infalível. Não quero pegar pesado com meu estômago, peço uma também e fico namorando a bolsa nova. Alisando. Cheirando dentro. Peço uma long-neck. Testando o fecho. Ajustando a alça. Vão caber poucos livros. A carteira. Chaves. Moedas. Analgésicos, cigarros, isqueiro. Neosoro. Agenda, celular, canetas. A papelada amassada de sempre. Posso deixar a agenda em casa e botar mais um livro. Ou mais analgésicos. Ou livro nenhum e só analgésicos, empilhadinhos. No segundo gole a mulher na minha frente está me encarando. Uns vinte e poucos anos? Bonita de lado, de frente, menos. Da sua boca sai um canudo que desce até a lata de coca light. Lábios grossos. Dois piercings. Um metro e setenta e sete de trevas. As unhas estragam tudo, pintadas assim de vermelho. Há quem goste. Ela olha pra esquerda mas seus olhos não demoram. Voltam pra mim. Meu celular toca. Tenho de estar na editora às quatro. Eu sei. Já estou indo. E a salada não chega nunca?, você pergunta. Também acho. Perturbada, guardo o celular na bolsa nova, entre as bolas de papel. A mulher percebe e ri. Eu não tenho o que fazer e rimos juntas. Quando a segunda cerveja chega, ela já está em minha mesa. De lata e canudinho. Sorrindo, diz um nome qualquer, estuda não sei o quê numa universidade aí. Eu não presto atenção nessas coisas. A salada chega. Ponho de lado. Perdi a fome. Cruzamos as pernas. É, eu sou do Rio mas não moro aqui, digo sempre que me perguntam. Não diga? A família do meu pai é toda de Minas. Tínhamos uma fazenda lá, gado leiteiro. Hum, hum. Você não é professora, é? Uma mosca taxia no prato. Uma mosca num shopping? Vai morrer com esse frio. Não, não sou. Tá sozinha? Mais ou menos. Pausa. Quer fazer um programa? Programa? Que programa? Comigo, ora. Ah. Não sei, tenho compromisso agora. Posso te atender mais tarde. À noite. Anota o número do meu celular. Eu não sei. Pausa. Você prefere outra coisa? Posso chamar um carinha amigo meu, gente fina, universitário também. Não é isso. Eu não costumo pagar pra essas coisas. Deixa de bobagem, gata, você quer, não quer? Você vai gostar de mim. Olho no olho: 14 segundos. Terceira garrafa. Você bebe sempre assim ou está tensa? Eu bebo sempre assim. E quanto você costuma cobrar? Depende, 500, 300. Ah. Silêncio. Bom, vou deixar você comer. Me liga se quiser. A qualquer hora. Tá. Tchau. Tchau. 15:47. Uma salada caesar + 3 long-necks + 1 coca light, 34 reais, gorjeta incluída. Tem troco pra 100?


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