20.1.06




Ela chegou bufando do Jockey Club e colocou as pernas pra cima. Havia despejado as economias no quinto páreo e perdeu tudo. Tirou os sapatos e as calças vermelhas. Disse que o vermelho lhe dava azar e me pediu 1.000 paus com os olhinhos cheios d'água. Ia recuperar tudo no bingo aquela noite, eu ia ver. Tomou um banho, vestiu amarelo e ficou plantada na porta esperando. Dei-lhe 500. Era uma artista de talento. Famosa desde cedo, aos 20 anos pintava para a revolução. Aos 40, para comprar pó. Aos 60, tenta o destino nos jogos de azar. Todos os anos vai a Las Vegas. Perde umas 4 telas nas roletas. Odeia caça-níqueis. Diz que Mônaco perdeu o glamour e trabalha com cartas marcadas. Ela divide o apartamento comigo enquanto traduzo poemas de Li Shangyin. Fanática por Maiakovski e Rimbaud, diz que não entende poetas de gabinete. Mistura tintas de dia e embaralha cartas à noite. Antes de ela sair preparo um drinque para nós e lhe desejo boa sorte. Há dias longos e dias de haicai. Volto pro meu quarto e fecho a última estrofe.


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