29.6.05

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and in the end
we know the greatest
challenge is accepting
happiness and contentment


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Michael Bird


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26.6.05

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entrou-mo todo, enfim, como quem entra em casa



verso de Pedro Kilkerry


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21.6.05

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os meus não são feios
mas, por Deus, pés
eu vos odeio




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20.6.05

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há poemas que falam de livros
poemas que falam de vinhos
poemas que falam do amor em estado líquido
poemas que falam da cidade
poemas que ilustram dez virtudes essenciais
poemas de segunda-feira
poemas que lêem em voz alta
poemas da última palavra
poemas que vendem acarajé
poemas que não vendem livros
poemas que falam da vida de cangaceiros
poemas do cansaço
poemas de sexta-feira
poemas que falam em prosa
poemas que falam, falam, falam
e poemas que não falam
poemas sem filhos
poemas que não têm livros
poemas de poetas desdentados
poemas-poster
poemas sem poetas
poemas que falam de saudade
poemas sem memória
poemas para quem não gosta de poetas
poemas da terra, do povo, dos costumes
poemas para a aula de ginástica
o que são poemas esparadrápicos?
poemas das perdas, do táxi e do metrô
poemas que falam de animais
poemas de antologia, de esofagia
poemas de sabonete
poemas que falam do autor
poemas do redor
poemas decapitados onde
o subtítulo esclarece: poemas
poemas de mentes conturbadas
poemas do sorriso e da flor
poemas de estranhas experiências
poemas que falam alemão
poemas que ninguém relê
poemas maiores que este
poemas dos que não são poemas


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17.6.05

Fazer poético: lição de João Cabral


como domar a explosão
com mão serena e contida,
sem deixar que se derrame
a flor que traz escondida,

e como, então, trabalhá-la
com mão certa, pouca e extrema:
sem perfumar sua flor,
sem poetizar o poema.


João Cabral de Melo Neto, no poema "Alguns Toureiros", 1954-55.


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12.6.05

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Porque te tenho e não
porque te penso
porque a noite está de olhos abertos
porque a noite passa e digo amor
porque viestes a recolher tua imagem
e és melhor do que todas tuas imagens
porque és linda desde o pé até a alma
porque és boa desde a alma a mim
porque te escondes doce no orgulho
pequena e doce
coração couraça

porque és minha
porque não és minha
porque te vejo e morro
e pior que morro
se não te vejo amor
se não te vejo

porque tu sempre existes onde quer que seja
porém existes melhor onde te quero
porque tua boca é sangue
e tens frio
tenho que amar-te amor
tenho que amar-te
ainda que esta ferida doa como dois
ainda que te busque e não te encontre
e ainda que
a noite passe e eu te tenha
e não.



Mario Benedetti

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11.6.05

Conde de Lautréamont

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Para construir mecanicamente o miolo de uma história de adormecer, não basta dissecar asneiras e embrutecer poderosamente em doses repetidas a inteligência do leitor, de maneira a tornar paralíticas as suas faculdades para o resto da vida, pela infalível lei do cansaço; é preciso, além disso, com um bom fluido magnético, pô-lo engenhosamente na impossibilidade sonâmbula de se mexer, forçando-o a escurecer os olhos, contra o que lhe é natural, pela fixidez dos nossos. Quero eu dizer, para não me fazer compreender melhor mas apenas para desenvolver o meu pensamento, que ao mesmo tempo interessa e irrita por uma harmonia das mais penetrantes, que não acredito que seja necessário, para atingir o fim que nos propomos, inventar uma poesia inteiramente fora do caminho habitual da natureza, e cujo sopro nocivo pareça transtornar até as verdades absolutas; mas conseguir tal resultado (aliás conforme às regras da estética, se pensarmos bem) não é tão fácil como se pensa: era o que eu queria dizer. É por isso que envidarei todos os meus esforços para o conseguir! Se a morte detiver a magreza fantástica dos dois braços compridos dos meus ombros, utilizados no lúgubre esfarelamento do meu gesso literário, quero pelo menos que o leitor de luto possa dizer consigo mesmo: "Há que lhe fazer justiça. Cretinizou-me muito. Que não teria ele feito se tivesse podido viver mais! É o melhor professor de hipnotismo que conheço!"



Conde de Lautréamont, em Cantos de Maldoror, 1869.


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10.6.05

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A vida chega aqui
filtrada em pensamento
que não fere; no enlevo
tátil-visual de idéias
reveladas na trama
do papel e que afloram
aladamente e dançam
quatro metros abaixo
do solo e das angústias
o seu ballet de essências
para o leitor liberto.



Drummond, em fragmento de As impurezas do branco, 1973.

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8.6.05

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Diego Manuel, em O riso de Gardel, acrílico sobre tela.


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7.6.05

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Particeps criminis, partner in crime, parceiro no crime


"Como é que Sua Excelência, particeps criminis, julga desvencilhar-se da sua responsabilidade solidária simplesmente por assinar contra a obra comum o escândalo dessa palinódia com esgares de verrina?"


Rui Barbosa, em discurso no Senado Federal rebatendo as críticas do Conde de Figueiredo à reforma bancária que antes aplaudira e da qual, como banqueiro, se beneficiaria. O registro é de R. Magalhães Júnior, em seu Dicionário brasileiro de provérbios, locuções e ditos curiosos.


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6.6.05

Duas canções do tempo do beco


Primeira canção do beco


Teu corpo dúbio, irresoluto
De intersexual disputadíssima,
Teu corpo, magro não, enxuto,
Lavado, esfregado, batido,
Destilado, asséptico, insípido
E perfeitamente inodoro
É o flagelo de minha vida,
Ó esquizóide! ó leptossômica!

Por ele sofro há bem dez anos
(Anos que mais parecem séculos)
Tamanhas atribulações,
Que às vezes viro lobisomem,
E estraçalhado de desejos
Divago como os cães danados
A horas mortas, por becos sórdidos!

Põe paradeiro a este tormento!
Liberta-me do atroz recalque!
Vem ao meu quarto desolado
Por estas sombras de convento,
E propicia aos meus sentidos
Atônitos, horrorizados
A folha-morta, o parafuso,
O trauma, o estupor, o decúbito!



Segunda canção do beco


Teu corpo moreno
É da cor da praia.
Deve ter o cheiro
Da areia da praia.

Deve ter o cheiro
Que tem ao mormaço
A areia da praia.

Teu corpo moreno
Deve ter o gosto
De fruta de praia.
Deve ter o travo,
Deve ter a cica
Dos cajus da praia.

Não sei, não sei, mas
Uma coisa me diz
Que o teu corpo magro
Nunca foi feliz.



Manuel Bandeira


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4.6.05

A distância é um ouvido


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Hoy mi playa se viste de amargura
Porque tu barca tiene que partir
A cruzar otros mares de locura
Cuida que no naufrague tu vivir...

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Cuando la luz del sol se esté apagando
Y te sientas cansada de vagar
Piensa que yo por ti estaré esperando
Hasta que tú decidas regresar...



-- a música 'entreolvida' no chuveiro é La Barca
as imagens são de Philip Greenspun


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3.6.05

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Balalaica
(budto laiem oborvala
scripki bala
laica)
(s laiem oborvala)
oborvala (s laiem)
(láiki bala)
láicu bala
laica


ou


Balalaica
(como um balido abala
a balada do baile
de gala)
(com um balido abala)
abala (com balido)
(a gala do baile)
louca a bala
laica


-- Maiakovski, no poema "Balalaica", escrito em 1913 no verso de um retrato do poeta e que permaneceu inédito até 1961. A primeira versão acima é uma transliteração fonética. A tradução é de Augusto de Campos.


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