19.12.05

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I. Viver na insônia
sob o gesso das cicatrizes
enquanto o gelo se forma sobre a terra
num momento em que nada pode ser feito
para cumprir qualquer decisão

para saber a composição do fio
dentro do corpo da aranha
primeiros átomos da teia
visíveis amanhã

sentir o flamejante futuro
de cada palito de fósforo na cozinha

Nada pode ser feito
senão aos poucos. Transcrevo minha vida
hora por hora, palavra por palavra
contemplando a ira das velhas no ônibus
contando as estrias
de ar dentro dos cubos de gelo
imaginando a existência
de alguma coisa incriada
este poema
nossas vidas

II. Um homem dorme no quarto ao lado
Nós somos seus sonhos
Temos a cabeça e seios de mulher
o corpo de aves de rapina
Às vezes viramos serpentes prateadas
Enquanto ficamos acordadas fumando e conversando sobre a vida
ele se vira na cama e murmura

Um homem dorme no quarto ao lado
Uma neurocirurgiã invade seu sonho
e começa a dissecar seu cérebro
Ela não parece uma enfermeira
está absorvida em seu trabalho
e tem um rosto austero e delicado como o de Marie Curie
Ela não é/ podia ser uma de nós

Um homem dorme no quarto ao lado
Ele passou o dia inteiro
de pé, atirando pedras num lago escuro
que guarda a própria escuridão
Fora da moldura do seu sonho nós tropeçamos morro acima
de mãos dadas, tropeçando e guiando uma à outra
sobre a rocha vulcânica das cicatrizes.



Adrienne Rich, no poema "Incipiência". A foto é de minha autoria, o homem na foto dentro da foto é Dave Brubeck, em flagrante de 1956. O poema teve uma primeira tradução de Olga Savary, na qual me permiti fazer um ajuste fino.


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