14.11.05

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O mundo balança a cauda, focinho úmido. Não sei se quero diferente ou se deixo que suba no meu colo novamente. Preciso de você. Venha agora. Saí apressada e fui vê-lo no hospício de Barbacena. Encontrei-o no jardim atrás do estacionamento. Era como se sonhasse. Não usava mais pijamas. Seus olhos não me encontraram. Eu já não tinha nada dentro. Mostrou-me uma ferida no braço, Vê?, eu posso ser você. Era um bom jogador. Minha caricatura desbotou. Desarmada, sentei-me num banco. Onde está o cachorro? Enxotei-o. Por que o interesse? Ia levá-lo desta vez? Não respondi. Se ele pode ser eu, deve saber. Puxou do bolso um papel amassado e me entregou. Estiquei-o sobre a coxa. Após a minha morte não deixe que meus escritos sejam...uma mancha de café. Não dá pra ler o final. Exumados, escrevi exumados. E quem exumaria o que escreveu? Ele não respondeu. Por trás do bigode, sua boca se desacostumara de significados. Tem escrito muito? No quarto havia uma mesa, cama e pia. Nunca me pediu que o tirasse de lá. Vivia ainda nas ruas de Montevidéu, seu livro de maior sucesso. Fechou os olhos. Com pouco alcatrão no corpo, puxei um cigarro. Eu ainda tinha tempo para me ausentar. Quer fumar? Você sabe que eu não fumo. Tinha orgulho da saúde perfeita. Trouxe o livro que me pediu. Por que você só me traz livros que eu não escrevi? Por que gosta de me torturar? Abri o livro e folheei-o pouco a pouco. Minha mão úmida subindo e descendo lentamente. Ele embaralhava as letras com os olhos e escrevia outro livro só dele. Eu não precisava ler. Sabia qual dos dois escrevia cada página.


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