14.9.05




A posse do silêncio


Não, não te assustes! Eu não quero mais este reino dos céus nem um milímetro por século. Num dia tão cheio de sol, hoje estou de pé diante do teu susto. Sim, sou eu mesma, vê? Sei que a ti pouco importa que não seja eu propriamente dita, mas a que convencionei chamar de eu. E estou aqui agora nesta página tão dentro dela como um desenho há trezentos mil anos numa caverna. Escuta sem susto e sem sofrimento: este meu reino também é do teu mundo. Não é a via-láctea, ou o paraíso perdido. É o nada em cada um de nós, fluido e constante. O grande vazio de nós é o meu lugar de existir, e quando atravessares minha escuridão, te encontrarás do outro lado contigo. Ah, não me descompreendas, não estou tirando nada de ti. Se venho aqui, é porque estou querendo que eu reviva da parte humana mais difícil: que eu viva do germe do amor neutro. Não, não te assustes como estou assustada: não pode ser ruim ver a vida no seu plasma. Espera, espera que eu ainda continue um pouco. Estou falando da morte? não, da vida. Não é um estado de felicidade, é um estado de contato. Tenho avidez pelo mundo, mas ao mesmo tempo não preciso de nada. Não preciso sequer que uma árvore exista. Eu sei agora de um modo que prescinde de tudo, que prescinde de mim. Eu sei agora da perda de tudo o que se possa perder e, ainda assim, ser. Mas volto com as mãos vazias, volto com o indizível.



Clarice Lispector, em psicografia não autorizada, 2005.


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