11.6.05

Conde de Lautréamont

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Para construir mecanicamente o miolo de uma história de adormecer, não basta dissecar asneiras e embrutecer poderosamente em doses repetidas a inteligência do leitor, de maneira a tornar paralíticas as suas faculdades para o resto da vida, pela infalível lei do cansaço; é preciso, além disso, com um bom fluido magnético, pô-lo engenhosamente na impossibilidade sonâmbula de se mexer, forçando-o a escurecer os olhos, contra o que lhe é natural, pela fixidez dos nossos. Quero eu dizer, para não me fazer compreender melhor mas apenas para desenvolver o meu pensamento, que ao mesmo tempo interessa e irrita por uma harmonia das mais penetrantes, que não acredito que seja necessário, para atingir o fim que nos propomos, inventar uma poesia inteiramente fora do caminho habitual da natureza, e cujo sopro nocivo pareça transtornar até as verdades absolutas; mas conseguir tal resultado (aliás conforme às regras da estética, se pensarmos bem) não é tão fácil como se pensa: era o que eu queria dizer. É por isso que envidarei todos os meus esforços para o conseguir! Se a morte detiver a magreza fantástica dos dois braços compridos dos meus ombros, utilizados no lúgubre esfarelamento do meu gesso literário, quero pelo menos que o leitor de luto possa dizer consigo mesmo: "Há que lhe fazer justiça. Cretinizou-me muito. Que não teria ele feito se tivesse podido viver mais! É o melhor professor de hipnotismo que conheço!"



Conde de Lautréamont, em Cantos de Maldoror, 1869.


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