25.4.05

becominglessness


Subo lentamente os degraus da escada. Não tenho curiosidade de contá-los. Falando sério, entre nós dois, nunca tive curiosidade de nada. Rigorosamente nada. Muito menos da vida alheia. Nada herdei das pias matronas romanas. Nem as noções de datilografia de suas filhas, minhas mães. Maria teve um filho de quem se tornou filha, você sabe. E se Cristo tivesse batido com a cabeça na quina da manjedoura?

A metafísica dada não se olha os dentes.

Quando o coração acelera, prefiro calar-me.

Favela é um termo que surgiu no século 19, vem de favos de abelha. Você gosta de me ilustrar com essas coisas enquanto passamos rapidamente de carro pela boca banguela. Olhos azuis refrescam.

A beleza da vida está nos detalhes: quanto maior o meu saldo no banco, menos taxas pagarei, mais créditos obterei. Equalitas diversorum. Mas dinheiro não é sarampo, Danuza me disse.

Arrasto o corpo escada acima pelo tropismo da auto-expressão: "Minha terra dá banana e aipim. Meu trabalho é achar quem descasque pra mim."

Meus avós bebiam sangue enquanto as mulheres preparavam os bordados, a mesa, a sopeira fumegante, o pão, o vinho. Também nada herdei da Pomerânia. Quando nasci, já trazia o vício de peneirar lembranças, todos aqueles corpos se atraindo na razão direta das massas, minha alminha ali, ocupando espaço nenhum. E o mestre Voltaire:

"Toda religião quando não é loucura, é malandragem."

Quem tem um olho na panela e outro na chaminé é zarolho, parece que diz um ditado.

O mundo precisará fazer uma cirurgia de redução do estômago para que eu caiba nele, Clarice. Por enquanto tenho um projeto de estudo: o zapatismo na era intergalática. (Wanderléia faz propaganda de remédios genéricos.) De que serve la rivoluzione culturale no tecido eletrônico das novas lutas? As Irmãs Sandino vão ter de me explicar esses planos sem piloto. U.S. Bureau of Labor. Vão ter de me explicar direitinho o que é que eu faço com essas singularités, com o meu coração sozinho e sem tentáculos no meio de tanta swarm intelligence, smart mobs, webs of power.

Devo evitar a fadiga.
Bed-ins. Kiss-ins.

Hora do almoço: o problema das anoréxicas é que o seu espírito é gordo. O Geist. Sonho com anoréxicas num trem-fantasma.

Sinto que minha demência precoce começa a decolar, como se fosse isca de armadilha. Verlaine diria: "Venez, chère grande âme, on vous appelle, on vous attend." Mas não confio nos poetas. Rimbaud era daltônico: I é verde! U é vermelho! Regalem-se pois as formas e os movimentos que eu não vou traduzir ninguém. Não são os nervos que saltam depressa, são as pulgas. E pulgas não são nervosas. São pulgas. Aquela ternura saltitante mordendo mordendo. Tenho inveja das pulgas. Das histórias sem princípio meio e fim.

Minha terra é bacana e assim. Meu trabalho é achar quem goste dela por mim.

Metafísica não desce escada.


-------------------