6.3.05

Image hosted by Photobucket.com


Um dia para esperar

Aquilo que não existe, eu não temo. E também não me aborrece. Limpei minhas digitais na arma e guardei-a na gaveta da escrivaninha, de onde a retirara pouco depois de entrar naquela casa pela última vez. O que fui fazer lá não tem a menor importância, escrevo somente para me acalmar e ordenar as idéias. Se eu dissesse a verdade, ninguém acreditaria, continuariam achando que, na mais comum das hipóteses, eu tinha ido lá para me encontrar com um amante, o que ficaria bem próximo da verdade se eu quisesse, embora não tenha certeza. Somente uma amante rejeitada, uma mulher sob forte pressão emocional, cometeria tantos erros na hora de executar sua vingança. Portas e janelas sem sinais de arrombamento. Nenhuma indicação de roubo. Cama desfeita, lençóis amarfanhados. Cinzeiros cheios de guimbas com marcas de batom. Dois copos de uísque sujos e uma agenda repleta de nomes de mulheres ao lado do telefone sobre a mesinha de centro. CDs espalhados pelo sofá. Jornais e revistas empilhados nos cantos. Toalhas molhadas emboladas sobre encostos de cadeiras. Móveis e estantes empoeirados. Roupas penduradas na bicicleta ergométrica. Pingos secos de velas e café no tampo de mármore da mesa de jantar. Pia da cozinha abarrotada de louça suja. Piso e paredes grudentos. Panos de prato sebentos e queimados. Geladeira entupida de perecíveis perecidos. Garrafas vazias de água, cervejas e vinhos pela metade, cebolas, tomates e limões cortados semi-apodrecidos, crostas secas de ketchup e de sangue de carnes pela porta, ovos vazando, latas de óleo e azeite babando no armário, açucareiro e saleiro empedrados, formigas voltando para casa, formigas saindo de casa, moscas pousadas nas janelas de vidro embaçadas de pó e gordura, banheiro encharcado, pia e privada encardidas, pedaços de papel higiênico borrados transbordando da lata de lixo, melecas e fios de todo cabelo grudados nas paredes do box, sabonetes desmanchando, ralos entupidos, duas cuecas e uma calcinha manchadas penduradas na torneira fria, cesto de roupa suja cheio até a boca sem tampa, lenços de papel usados, meias e gravatas sobre a poltrona do quarto, mais roupa suja empilhada no chão do closet ao lado de sapatos, botas e tênis sujos de terra, seis pacotes vazios de batatas chips espalhados sobre o carpete, no criado-mudo um telefone sem-fio fora da base, duas cartelas de diazepínicos, um relógio digital piscando zeros, quatro pilhas vazando, um charuto fumado, uma esferográfica azul, papéis amassados, dois chicletes mascados e uma receita do médico, sob o travesseiro salivado dois controles remotos e um cotonete sujo, debaixo da cama um cinto, uma caneca derramando café, três camisinhas usadas e uma toalha de rosto manchada de ... porcos, mil vezes porcos. Como a raça humana é porca. E eu teria de limpar aquilo tudo num dia só e pela ninharia que ele me ofereceu antes de bater a porta de casa e me deixar sozinha com a sua imundície. Ele estaria de volta às sete da noite. Tudo bem. Eu não tinha pressa. Estaria esperando por ele para acertar as nossas contas.

---------------