23.2.05

Se alguém me perguntar o que estou fazendo de pé nesta esquina há tanto tempo, eu não saberia responder. Estou parada aqui porque a calçada acabou. Há uma rua atrás que cruza com a avenida à frente, por onde os carros deslizam. Vejo outras pessoas como eu. Elas esperam o sinal fechar. Eu poderia ir ao cinema, ver como é que a tal garota de um milhão de dólares faz para chegar até o final do filme. Poderia visitar o caixa eletrônico. Um amigo desempregado. Sentar na praça e comer pipoca enquanto finjo que falo no celular. Passar o resto da tarde numa livraria. Embora os livros já não me digam mais nada, eu ainda não sei disso. Poderia sair catando papel em busca de palavras que formassem frases. Dizem que Cervantes lia os papéis rasgados que encontrava pelas ruas. Já na Austrália, qualquer jogador de sinuca é mais respeitado do que os poetas. Não sei o que decidir. Por isso fico parada me lembrando dessas coisas aqui na esquina. Todos os caminhos acabam se cortando. Não adianta passar durex.

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