8.2.05




Impressões de Carnaval: A velha da boneca velha

Dizem os terapeutas que brincar com bonecas ajuda no desenvolvimento da criança. Pode ser. Eu tenho pavor de bonecas desde pequena. Eu já tive bonecas. Não sei como poderiam estar me ajudando a me relacionar com o ambiente se eu esquartejava a todas antes de abandoná-las de lado. Um dia descobri entre os guardados de minha vó a foto de um bebê. Perguntei a minha mãe quem era a criança. Ela disse que era a foto de um bebê morto, o primeiro filho de minha avó, que havia morrido de pneumonia por volta dos anos 20. Naquela época tinham o hábito de fotografar mortos antes de enterrá-los. Acho que desde então o meu pânico aumentou. Sempre acho que bonecas são crianças mortas. Tenho medo de todas. Bonecas de pano, de porcelana, de louça, de trapo, de papel, de borracha, origamis de bonecas, bonecas bebês, as barbies, anabeles, debbies, annies, emílias, bonecas de museu, bonecas fashion, industriais ou artesanais, grandes, pequenas, louras, morenas ou ruivas, coloridas ou da cor da pele humana, bonecas finlandesas ou suecas, as matriochkas, as bonecas country, bonecas baianas, as bonecas Kokeshi, as ore kugure, que são bonecas das indiazinhas bororos, qualquer boneca com trajes típicos, bonecas mecânicas e musicais, as bonecas falantes de Edison, bonecas bailarinas, bonecas infláveis, bonecas pedagógicas, terapêuticas e aromaterápicas. E agora principalmente eu tive um medo terrível daquela boneca velha no colo da velha guarda da Mangueira. Ó deus.