7.1.05



Os trabalhadores da morte


Joyce, James se emocionava com a marca marrom
de cocô na calcinha
(nem tão calcinha assim, naquele tempo)
da mulher amada.
Agora a mulher morreu
(a dele, a sua e a minha)
e aquela mancha marrom de bactérias
começa a tomar conta do corpo inteiro.
Elas atacam em turnos:
muca, muscina e califora, belos nomes,
dão início ao trabalho de destruição;
lucília, sarcófaga e onésia
fabricam os odores da putrefação;
dermestestes (afinal um nome masculino)
cria a acidez da pré-fermentação;
fiofila, antomia e necróbia fazem
a transformação caseínica dos albuminóides;
tireófiro, lonchea, ofira, necroforus e saprinus
são a quinta invasão, dedicada à fermentação;
urópode, tiroglifos, glicífagos, tracinotos e serratos
consagram-se à dissecação;
anglossa, tineola, tirea, atageno, antreno
roem o ligamento e o tendão,
afinal tenébrio e ptino acabam com o que restou
de homem, gato e cão.
Não há quem resista a esse exército
contido num cagalhão.


Rubem Fonseca, em "Olhar".