30.12.04



Um super 2005 para todos, daqui e d'além-mar. Um abraço forte e obrigada por me aturarem. Até já.




29.12.04

Sou de direita, mas tô na moda




"Não sou modesto em relação ao que eu faço como artista. Mas, sobre os rumos ou possibilidades do país, não vejo honestamente que contribuição eu possa dar. O que eu posso fazer é só constatar minhas perplexidades, meus receios diante desse quadro cada vez mais assustador. Como não se vê perspectiva de mudança a curto ou mesmo a médio prazo, a sociedade toda é levada a um certo conformismo, ou mesmo a um cinismo. Na alta classe média, assim como já houve um certo esquerdismo de salão, há hoje um pensamento cada vez mais reacionário, com tintas de racismo e de intolerâncias impressionantes."

"Ser reacionário virou de bom-tom. No meu tempo, as moças bonitas eram de esquerda, hoje são de direita. (risos)"


Chico Buarque, em entrevista à Folha de S. Paulo, 26 de dezembro de 2004. Citação garimpada no Letteri Café.


carta a Keats


o sino da igreja bate uma vez, sei que faz meia hora de alguma hora, pois bem, são 7:30, diz o relógio na tela do computador. estou sentada, sem camiseta, com uma leve calça de algodão, sem calcinha, meus pés estão descobertos e frios. o quarto está escuro. janelas fechadas. todos dormem na casa. tenho insônia pela manhã e volto a dormir mais duas horas depois. fumo um cigarro em jejum enquanto te escrevo estas palavras, batendo nas teclas. sobre a mesa um cinzeiro cheio de guimbas, canetas, uma xícara de café vazia, disquetes, cadernos pautados, um livro aberto que não estou lendo, "The Meaning of Wife", três dicionários de inglês, um Aurélio, um dicionário de sinônimos, um dicionário brasileiro de provérbios, locuções e ditos curiosos, o livro Promiscuidades de Naomi Wolf copidescado por mim em 1998 que não sei o que está fazendo aqui, uma borracha, fósforos Paraná, um isqueiro Bic amarelo, vários cds, um minicalendário assinalando dezembro, uma réplica do veleiro "La Couronne", um prato onde ontem comi um sanduíche de peito de peru defumado com queijo minas e alface no pão árabe, um porta-canetas do Mickey, dois bonequinhos Bananas de Pijamas. ouço o canto de passarinhos e maritacas. o pescoço está tenso. o nariz fechando. o estômago pede comida, a língua seca. a coluna levemente curvada, os pés apoiados no pé da cadeira. não uso jóias, não pinto unhas. uso óculos. tenho miopia num dos olhos, hipermetropia no outro e astigmatismo nos dois. meu cabelo comprido está preso por um elástico. a fumaça do cigarro embaça meus olhos castanhos meio rasgados. meu cachorro late lá fora. apago o cigarro. vou procurar um descongestionador nasal, volto já. e você, o que está vestindo?


28.12.04



E na contracorrente, a tsunami levou de quebra Susan Sontag, a "consciência crítica da América", a "dama negra" da literatura ianque, a mais européia dos escritores americanos, e de tantos outros adjetivos. Polêmica, alertou sobre o processo de emburrecimento do povo americano e chamou Bush filho de "serial killer", muito antes de ele se tornar presidente, quando ainda era governador do Texas. Não é nada não é nada, o povo americano fica um pouco mais burro.


A pena é livre mas o papel tem dono.


Samuel Wainer



E por falar nisso, a partir de 2005, estarei colaborando, com muito prazer, num projeto sem essa cara aí debaixo: Blog de Papel.


27.12.04



-- Eu não sei por que os jovens autores reclamam tanto. Nós, editores, estamos sempre atentos e abertos à colaboração. Apostamos nos novos talentos. Nossas portas estão sempre abertas à literatura de qualidade.


26.12.04

A porta é estreita/ o caminho é estreito/ a noite é interminável

Alberto Blanco, México



O fim das etiquetas

A mosca se levanta da mesa
e domina os quartos até o teto,
atravessa pontualmente o corredor
que comunica o mar com o espelho.

Penetrante na luz é o seu zumbido
Uma bolha a mais dentro da água...
navegando descobre entre os botes
a borda iluminada da toalha.

O fundo é sujo, o que ela vê, claro:
esta vida que flutua vacilante
com ar de papel, branco de luz,
já não lembra nada das palavras.

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Poema visto no ventilador de um hotel

Faz um calor dos diabos.
Ligo o ventilador
e começam a girar as pás...
Logo se espalha um suave vento
e as cortinas começam a dançar.
O centro do ventilador
é um espelho convexo,
um olho de peixe,
um capacete de ouro.

Ali vibram os reflexos
com o zumbido da máquina,
mas não saem do seu lugar.

Aumento a velocidade e as pás giram
até virar quase invisíveis
-- sobre uma gaze alvacenta --
mas os reflexos no centro
continuam sendo os mesmos.

Assim tem que ser com tudo -- digo para mim --
as superfícies se movem a grande velocidade
mas as formas que refletem não.

Passam os indivíduos de uma espécie,
mas a espécie continua a mesma.

Passam os homens de um povo,
mas o povo permanece.

Passam todos os poetas,
mas fica a poesia.

Passam nossos pensamentos,
mas alguma coisa, ou alguém,
está observando.
Segue observando.


(Este último poema teve tradução de Rodolfo Mata. "O fim das etiquetas", inédito no Brasil, é tradução deste blog.)




25.12.04



Talvez influenciado pelos efeitos do rapé, Nuno Guerreiro, do excelente Rua da Judiaria, considerou o Prosa Caótica um dos melhores blogs internacionais de 2004, ou melhor, de 5765, o que até impõe mais respeito e me assusta. Nem tanto, Nuno, mas valeu mesmo. Um grande abraço goy. A tela é de Marc Chagall, "Uma pitada de rapé", roubada do Nuno, lógico.


23.12.04



-- Hi, Merry Christmas.


22.12.04

Olhe fixamente para esta imagem que você vai ver o Papai Noel!!!




O Prosa Caótica deseja a seus leitores e amigos um Feliz Natal que não seja chato. O que já é uma felicidade. Voltaremos assim que as renas passarem. Um grande beijo a todos. Tim-tim.




20.12.04

Dois poemas





COGNAC


VEM, MEU COGNAC, meu licor d'amores!...
É longo o sono teu dentro do frasco;
Do teu ardor a inspiração brotando
O cérebro incendeia!...

Da vida a insipidez gostoso adoças;
Mais val um trago teu que mil grandezas;
Suave distração - da vida esmalte,
Quem há que te não ame?

Tomado com o café em fresca tarde
Derramas tanto ardor pelas entranhas,
Que o já provecto renascer-lhe sente
Da mocidade o fogo!
Cognac! - inspirador de ledos sonhos,
Excitante licor - de amor ardente!
Uma tua garrafa e o Dom Quixote,
É passatempo amável!

Que poeta que sou com teu auxílio!
Somente um trago teu m'inspira um verso;
O copo cheio o mais sonoro canto;
Todo o frasco um poema!


Machado de Assis, 1856.

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Daiane preta
Daiane boa
Daiane (nem) sempre de bom humor.

Imagino Daiane entrando no céu:
- Licença, meu branco!
E São Pedro, bem brasileiro:
- Licença o cacete. Trata de fazer logo um duplo twist carpado e um duplo twist esticado. E nada desse papo de "meus joelhos doem, acabei de operar". Se pisar fora do tablado, vai direto pro inferno.


Ruy Goiaba, 2004.




19.12.04

The good old times



Da esquerda para a direita, o ministro da Cultura Gilberto Gil, o deputado Bernard do Vôlei e a transexual Roberta Close em momento descontraído de outros carnavais. Uma pérola do passado garimpada do meu amigo muy Observador.


18.12.04

Duas versões d'O Meu Pipi


1) a portuguesa, original

Crítica de fodas

A foda que dei ontem devia estar preservada no Museu de História Natural. Será considerada a gambozina das fodas, uma vez que já muitos a quiseram dar, mas nunca antes tinha sido vista. Falo da pinocada que dei em crica virgem de 72 anos. Uma virgem de 72 anos, Pipi?? Pergunta o efeminado leitor, enquanto rapa os pêlos das pernas. É facto, rabichos. Tratava-se de uma anciã que, por espartana educação religiosa (se bem que, evidentemente, longe de padres), acasos da vida e um problema grave de sudação que repelia os mais temerários, mantinha intacta a cabaça com que Deus -- por chiste, não duvido -- marca todas as mulheres. Aliás, minto. A cabaça não estava intacta. Estava reforçada. Décadas de falta de uso alteraram a génese da membrana virginal que, de simples selo, garante de novidade, passou a lacre de chumbo, intransponível Cérbero que em vez de guardar o Hades, guardava o hás-de: da maneira como aquilo estava, era o "não hás-de foder nunca". Quem encostasse o ouvido àquela rata avoenga, lograria ouvir os latidos do cabrão do bicho tricéfalo, tal como num búzio se sente o mar.O hímen da velha não estava difícil, meus amigos, estava calcinado. Um homem normal precisaria de estar ano e meio sem foder, para ter o pau mais feito de sempre, 20 centímetros de força bruta, necessária para furar o contraplacado de sangue e crosta e muco vaginal que unia as paredes musculadas da greta. Felizmente, para o Pipi, bastou não bater punhetas nesse dia para ter madeiro suficiente para a perfuração. A broca entrou às 19h45. Às 19h48 estava a perfuração concluída. Em vez do tradicional sangue, saiu uma mistela verde. Digo eu: "Vamos lá a ver se não tem já a pachacha estragada, minha senhora. Isto devia ter começado a ser consumido por volta de 1945." E ela: "Como diz?" E eu: "NÃO SEI SE O PITO AINDA ESTARÁ BOM!" E ela: "Como diz?" E eu: "O PITO, O PITO! É CAPAZ DE JÁ ESTAR PASSADO!" E ela: "Escarranche-me mas é isso, jovem." Escarranchei. A velha sorria infantilmente. Digo infantilmente por duas razões: primeiro, porque era um sorriso germinal, novo, de descoberta; segunda, porque a velha não tinha dentes, e por isso ria como os bebés. No final, confessou-me que não se lembrava de ter tido uma sensação tão forte na vida -- tirando a trombose. É para momentos como este que nós, que andamos metidos nisto das cricas e do chavascal, trabalhamos. Vou só actualizar o meu curriculum e já venho.


2) a brasileira, em tradução de Mario Prata

Crítica de Fodas

A trepada que dei ontem devia ficar preservada no Museu de História Natural. Falo da pirocada que dei em xota virgem de 72 anos. "Uma virgem de 72 anos, Pipi?" Pergunta o efeminado leitor, enquanto raspa os pêlos das pernas. É verdade, bichinhas. Tratava-se de uma anciã que, por espartana educação religiosa (se bem que, evidentemente, longe de padres), acasos da vida e um problema grave de sudorese que repelia os mais temerários, mantinha intacto o cabaço com que Deus -- por gozação, não duvido -- marca todas as mulheres. Aliás, minto. O cabaço não estava intacto. Estava reforçado. Décadas de falta de uso alteraram a gênese da membrana virginal que, de simples selo, garantia de novidade, passou a lacre de chumbo, intransponível Cérbero que em vez de guardar o Hades, guardava o "há de": da maneira como aquilo estava, era o "não 'há de' foder nunca". Quem encostasse o ouvido naquela velha boceta, lograria ouvir os latidos do danado do bicho tricéfalo, tal como num búzio se sente o mar. O hímen da velha não estava difícil, meus amigos, estava calcinado. Um homem normal teria que estar há um ano e meio sem foder para ter o pau mais duro da sua vida, vinte centímetros de força bruta, necessária para furar o compensado de sangue e crosta e muco vaginal que unia as paredes musculosas da boceta. Felizmente, para o Pipi, bastou não bater punhetas nesse dia para ter um pau suficiente para a perfuração. A broca entrou às 19h45. Às 19h48 estava a perfuração concluída. Em vez do tradicional sangue, saiu um líquido verde. Eu disse: "Vamos ver se não tem a chavasca estragada, minha senhora. Isto deve ter começado a ser criado por volta de 1945." E ela: "Como diz?" E eu: "NÃO SEI SE A XOTA AINDA VAI ESTAR BOA!" E ela: "Como diz?" E eu: "A XOTA, A XOTA! É CAPAZ DE JÁ ESTAR PASSADA!" E ela: "Me fode, garoto." Fodi. A velha sorria infantilmente. Digo infantilmente por duas razões: primeiro, porque era um sorriso germinal, novo, de descoberta; segundo, porque a velha não tinha dentes, e por isso ria como os bebês. No final, me confessou que não se lembrava de ter tido uma sensação tão forte na vida -- tirando a trombose. É para momentos como este que nós, que andamos metidos nisto das xotas e da sacanagem, trabalhamos. Vou só atualizar o meu curriculum e já volto.
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Para quem não sabe, O Meu Pipi era um blog português que chegava a receber 4.500 acessos/dia. O Prosa Caótica foi um dos primeiros blogs, senão o primeiro, a mencionar O Meu Pipi no Brasil. Transformado em livro em 2003, é um dos maiores sucessos da literatura portuguesa. Seu autor continua anônimo. Na edição brasileira, apesar dos esforços do tradutor de fidelidade ao original, o texto perde bastante do seu saboroso humor lusitano. Ah, sim, o tradutor comeu a segunda frase do texto. Saudades do Pipi.


17.12.04





16.12.04




Com aquela cara de homem fingindo estar interessado no papo de uma mulher apenas porque está com vontade de comê-la, com aquela cara de mulher costurando e bordando pensamentos apenas porque está a fim de ser comida por ele, cheguei, caprichei, relaxei, lembrei tudo o que tinha aprendido em Kant e Hegel, repassei toda a teoria dos quanta, a morfologia dos contos de magia de Propp, o vôo do 14-bis, cheguei e não perdoei:

-- Tem fogo?

-- Betelgeuse, que vergonha! Você podia estar mais brilhante hoje. Mas como é que você poderia com todos aqueles proctores enfristulando você? Tenho andado tão triste desde que os churros mertriaram toda a tua tenoctília...

Ela me olhou com desprezo:

-- Os warhoos tomaram o poder em Achernar, e você não fez nada?

E me atacando começou a chutar minhas canelas, que não são de ferro, como todo mundo pode imaginar.

-- Pare com isso -- falei. -- Os warhoos caíram na nossa armadilha.

Ela parou. Afastou-se. E olhou para mim.

-- A atmosfera de Achernar é fatal para os warhoos. Eles só têm dois mil anos-luz de vida -- eu gritei.

-- Mas os strelitz vão miricondar todos os prosonômios de Khandar!

Quanto mais ela gritava, jurcs, yaraconds, nelmeiam, osks, mais longe ia ficando, até que eu a via como quem vê alguém, um ponto muito lá longe no começo de um infinito corredor, alguém aí?



-- montagem a partir de Catatau, de Paulo Leminski.


14.12.04



Comecei a escrever cedo e escrevia pouco. A porta do quarto fechada. Os cadernos do colégio abertos sobre a mesa, eu buscava palavras que meus pais não diziam. Quando eu não escrevia mais, ganhei uma máquina de escrever e meus pais morreram. A máquina ficou acumulando poeira no canto da mesa. Os cadernos cheios de fórmulas matemáticas, datas históricas, orações subordinadas. Um dia a máquina foi pro porão da casa e eu fui com ela. Sem prazer ou desprazer voltei a escrever. Os dias agora passam rápido. Comprei novos cadernos. A família cresceu para os lados e suas vozes e passos avançam por corredores e paredes. Eles não sabem que fico aqui escrevendo. Escrevo em silêncio no papel. A máquina fechada sobre a mesa, eu busco palavras que ela não diz.


13.12.04





qualquer coisa é radicalmente contra os radicalismos e, paradoxalmente, considera ridículo tal paradoxo. ridiculamente não vê nenhum paradoxo nisso. decididamente a favor do advérbio de modo.


Caetano Veloso, no "Manifesto Qualquer Coisa", anos 70.


10.12.04



Araras versáteis. Prato de anêmonas.
O efebo passou entre as meninas trêfegas.
O rombudo bastão luzia na mornura das calças e do dia.
Ela abriu as coxas de esmalte, louça e umedecida laca
E vergastou a cona com minúsculo açoite.
O moço ajoelhou-se esfuçando-lhe os meios
E uma língua de agulha, de fogo, de molusco
Empapou-se de mel nos refolhos robustos.
Ela gritava um êxtase de gosmas e de lírios
Quando no instante alguém
Numa manobra ágil de jovem marinheiro
Arrancou do efebo as luzidias calças
Suspendeu-lhe o traseiro e aaaaaiiiiiiii...
E gozaram os três entre os pios dos pássaros
Das araras versáteis e das meninas trêfegas.



Hilda Hilst


9.12.04



não é o meu país
é uma sombra que pende
concreta
do meu nariz
em linha reta
não é minha cidade
é um sistema que invento
me transforma
e que acrescento
à minha idade
nem é o nosso amor
é a memória que suja
a história
que enferruja
o que passou


Torquato Neto


7.12.04






caríssimos

tempo aqui tb horrível
previsões tempo piores ainda/estradas esburacadas/chuvachuvachuva
viagem int. Minas adiada
alguém sairá magoado nessa história
natal detestável se aproxima e penso em sumir
peitar 1 hotel beira de estrada s/telefone
s/serviço de bordo só cama/mesa/penico/papel e caneta
fechar janelas pq renas ñ passam mesmo p/aqui
ficar encarando chão queimado de guimbas
privada suja, talvez aprenda a escrever
chão de estrelas é papo de otário
pgmto editora atrasado/laudas ñ param de chegar
outra saga da história polonesa
entrego amanhã 1 Steinbeck todo revisto
tradução daquele jeito vcs sabem, suei
Steinbeck é indivíduo esforçado mas a história podia
se resumir a 10 laudas, ele esticou p/ 1000
ñ me venham c/ papo de literatura
editora me passa autores novos
"conserta esta merda aí", eles dizem
mas eu ñ altero uma linha autor nacional
só ortografia/concordância etc. tá louco? é rabuda
drummond traduziu proust, o proust brasileiro
é drummond, leia no original se quiser proust...
comi 1 pacote inteiro de biscoitos de chocolate
auto-indulgência e caguei preto/anilina pura
vão fazer o q dia 24? famíliafamília?
ñ quero ver ninguém preciso de "holding" -- espaço emocional,
diria minha amiga psiquiatra e louca, ela diz q frontal 0,5mg
é brincadeira de criança, babá de superego, mas evito
drogas pesadas, vcs sabem
só bebo cerva agora, estômago pediu concordata
scotch nem pensar, refina o sangue mas abre crateras
dio mio. a vida é uma petit merdeux
C. me ligou depois de séculos, voltou da Índia
onde só aprendeu posições p/ sexo: o parafuso de Arquimedes,
a cauda do avestruz, a curva do arco-íris,
a lamparina mameluca e, a q + a deixa ligada:
na ponta do minarete. fiquei rindo no celular, foi ridículo
detesto gente pendurada em celular
gente e celular provocam coágulos
fico por aqui
são 8:00 da manhã e tenho sono ainda
volto p/dormir + um pouco
escrevam ou liguem antes q eu suma
engulam rabanadas por mim
saudades mesmo
maira04ainda


5.12.04

O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.

O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.

O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.

O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.

Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo-morto mas que parecia uma usina.

O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.

O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.

O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.

O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.



João Cabral de Melo Neto, em fragmento de "Os três mal-amados", 1943.


4.12.04



Minhas feras adoram a carne dos homens.
Elas fazem a minha vontade quando
a justiça dos homens tarda.


Cleópatra


3.12.04





1.12.04



Quando conduzo sinto uma enorme vontade de fazer amor. Bom, talvez não seja bem amor mas é semelhante àquela paixão sentida pelo louva-a-deus fêmea quando devora lentamente o seu parceiro macho. É como sentir várias mulheres à volta de nós. Mulheres de ministros e secretários de estado. Todas, percebes. Velhíssimas por debaixo das suas máscaras Avon. Esposas de bem. Melhor que isso...oh meu Deus...estou quase a vir-me só de pensar nas virtudes de uma condução a 200. Se há um engarrafamento (na 2ª circular por exemplo), o meu caralho parece acompanhar o ritmo da marcha lenta, caindo um pouco. Depois, já na auto-estrada ei-lo que levanta e endurece só parando quando o leite se mistura com o sangue, o BMW esmagado contra uma árvore na curva da estrada...Adoro os fotógrafos junto ao meu crânio esmagado. Um deles enfia o dedo num dos meus derradeiros pensamentos como se estivesse a provar um pudim molotov.


Conduzo, Logo Venho-me