30.11.04




Você quer ser escritor?


Chegou o curso que vai ajudar você a melhorar a sua letra. Você poderá conseguir uma letra mais bonita. Neste curso você irá encontrar: a História da Caligrafia, suas origens e evolução através do tempo, Caligrafia Gótica Alemã, Ronde Francesa, Cursiva Inglesa e muitas outras. Exercícios práticos com várias sugestões para embelezar, através de uma bela caligrafia, o material escolar, de escritório, cartas, convites, artigos de jornal, testamentos, diários, poesias e outros, tudo ilustrado e explicado em detalhes. Seguindo a orientação didática de nosso curso, todo o material é ilustrado com centenas de fotos coloridas que enriquecerão o seu aprendizado. Temos ainda o passo a passo, fotos ou figuras coloridas, legendadas, que mostram em detalhe a posição correta para a confecção das letras, os exercícios musculares, grafomotores e de postura, como as letras são traçadas, conceito e técnicas de inclinação e alinhamento, o alfabeto diferenciado, a formação de frases, as técnicas de confecção de textos e de comercialização do seu trabalho. Enfim, trata-se de um curso que foi elaborado com muito carinho, trazendo até você o que há de melhor no Mundo das Letras. Ao matricular-se em nosso curso, você receberá de graça aulas práticas de datilografia e digitação, onde poderá aprender a posição correta dos dedos em relação às teclas, as várias utilizações dos papéis em relação à máquina, a elaboração de textos e exercícios de memorização, o funcionamento e a utilização do computador, instruções de uso e conservação da mesa, além de noções de ortografia. Com o curso você terá direito a receber, sem qualquer ônus, o material didático de apoio: lápis, borracha, régua, esquadro, faca Olfa, conjunto de canetas esferográficas e hidrográficas, tinta nanquim e papel pautado. O que está esperando?


29.11.04

faça um livro antes que os blogs acabem




um autor americano famoso ganha por palavra, incluindo artigos e preposições. um Wolfe escreve Wolfes. deve ser por isso que os americanos confundem grande livro com livro grande. aprendi com eles que a vida é um Mike Tyson e nós não passamos de um peso-pena. e que tudo é uma questão de achar a distância certa, a mentira certa. um escritor precisa saber mentir. faça um livro antes que você acabe.


27.11.04

Esperando Tzara




Esperando Picabia




Gianni Ansaldi, impressão digital sobre acrílico


26.11.04



O direito de passagem


Transitando com a idéia posta
em nada deste mundo

a não ser o direito de passagem
eu desfruto a estrada por

efeito de lei --
vi

um homem de idade
que sorriu e desviou o olhar

para o norte, além de uma casa --
uma mulher de azul

que estava rindo e se
inclinando para a frente

a fim de olhar o rosto meio
voltado do homem

e um menino de uns oito anos que
olhava para o meio da

barriga do homem
para uma corrente de relógio --

A suprema importância
deste inominado espetáculo

fez com que eu acelerasse
ao passar por eles sem palavra --

Por que me importaria o rumo?
e lá fui rodando sobre as

quatro rodas do meu carro
pela estrada molhada até

que vi uma moça com uma perna sobre
o parapeito de um balcão



William Carlos Williams


23.11.04

Guilherme Mandaro



meu amigo de infância continua emagrecendo
fala depressa
diz que a vida tá difícil
que mário continua exagerando
que ele vai à praia ali mesmo
enquanto a cerveja sobra no copo
alguma coisa sobra no papo
a noite apenas começa

-


20.11.04



Michel: Vamos, quero ficar com você.

Patricia: Não, até porque estou com dor de cabeça.

Michel: Não dormiremos juntos, só quero ficar com você.

Patricia: Não é isso, Michel.

(pausa)

Patricia: Por que você está triste?

Michel: Porque estou triste.

Patricia: Bobagem.

(pausa)

Patricia: Por que você está triste?

Michel: Porque não posso ficar sem você.

Patricia: Claro que pode.

Michel: Posso, mas não quero.

Patricia: Você parece criança.

Michel: Por quê?

Patricia: Não sei.

Michel: Ah, que pena. Amo uma garota que tem um pescoço bonito, seios bonitos, uma voz bonita, braços bonitos, rosto bonito, pernas bonitas, mas é... covarde.

Patricia: Como sabe que sou covarde?

Michel: Quando uma mulher diz que tudo está bem, mas não consegue nem acender um cigarro, é porque está com medo. De quê, eu não sei. Mas está com medo.

(pausa)

Michel: Em quê está pensando?

Patricia: Este é o problema. Não sei.

Michel: Mas eu sei.

Patricia: Não, ninguém sabe. Não estou pensando em nada. Gostaria de pensar em algo mas não consigo.

Michel: Você pensa na morte? Penso nela sem parar.

Patricia: Michel, diga-me alguma coisa bonita.

Michel: O quê?

Patricia: Não sei.

Michel: Então também não sei. Por que está me olhando?

Patricia: Vou olhar você até não poder mais.

Michel: Eu também.



-- do roteiro de Acossado, 1959.




Porque hoje é sábado


19.11.04



Tu ris, tu mens trop
Tu pleures, tu meurs trop
Tu as le tropique
Dans le sang et sur la peau
Geme de loucura e de torpor
Já é madrugada
Acorda, acorda, acorda, acorda, acorda

Mata-me de rir
Fala-me de amor
Songes et mensonges
Sei de longe e sei de cor
Geme de prazer e de pavor
Já é madrugada
Acorda, acorda, acorda, acorda, acorda

Vem molhar meu colo
Vou te consolar
Vem, mulato mole
Dançar dans mes bras
Vem, moleque me dizer
Onde é que está
Ton soleil, ta braise
Quem me enfeitiçou
O mar, marée, bateau
Tu as le parfum
De la cachaça e de suor
Geme de preguiça e de calor
Já é madrugada
Acorda, acorda, acorda, acorda, acorda


Chico Buarque, "Joana Francesa". Na foto, Moreau e Bardot.


18.11.04

rio de janeiro: relevo e violência



morroMORROmorroMORROmorroMORROmorro
morroMORROmorroMORROmorroMORROmorro
matamatamatamatamatamatamatamatamatamata
morroMORROmorroMORROmorroMORRO morro
morroMORROmorroMORROmorroMORROmorro
matamatamatamatamatamatamatamatamatamata
morroMORROmorroMORROmorroMORROmorro
morroMORROmorroMORROmorroMORROmorro
matamatamatamatamatamatamatamatamatamata
morroMORROmorroMORROmorroMORROmorro
morroMORROmorroMORROmorroMORROmorro



Bruna Beber


16.11.04

ALEA I -- VARIAÇÕES SEMÂNTICAS
(uma epicomédia de bolso)

Haroldo de Campos
1962/63


O ADMIRÁVEL o louvável o notável o adorável
o grandioso o fabuloso o fenomenal o colossal
o formidável o assombroso o miraculoso o maravilhoso
o generoso o excelso o portentoso o espaventoso
o espetacular o suntuário o feerífico o feérico
o meritíssimo o venerando o sacratíssimo o sereníssimo
o impoluto o incorrupto o intemerato o intimorato

O ADMERDÁVEL o loucrável o nojável o adourável
o ganglioso o flatuloso o fedormenal o culossádico
o fornicaldo o ascumbroso o iragulosso o matravisgoso
o degeneroso o incéstuo o pusdentoso o espasmventroso
o espertacular o supurário o feezífero o pestifério
o merdentíssimo o venalando o cacratíssimo o sifelíssimo
o empaluto o encornupto o entumurado o intumorato

N E R U M
D I V O L
I V R E M
L U N D O
U N D O L
M I V R E
VO L U M
N E R I D
M E R U N
V I L O D
D O M U N
V R E L I
L U D O N
R I M E V
M O D U L
V E R I N
LO D U M
V R E N I
I D O L V
R U E N M
R E V I N
D O L U M
M I N D O
L U V R E
M U N D O
L I V R E


programa o leitor-operador é
convidado a extrair outras
variantes combinatórias
dentro do parâmetro semântico
dado
as possibilidades de permutação
entre dez letras diferentes
duas palavras de cinco letras cada
ascendem a 3.628.800



Haroldo de Campos



14.11.04

Sonhei que eu era





e amante de



Ele no sonho, porém, dizia que era o inverso.
Assim, o clima entre nós não estava nada




Para quebrar o gelo eu lia um
poema tristíssimo do




enquanto ouvíamos



num vinil esbagaçado. Por fim ele amoleceu
e juramos amor eterno.

Depois de alguns



prometemos que a diferença de sexos
jamais embaçaria de novo o nosso amor.

Na próxima encarnação, seríamos, quem sabe,





11.11.04

Do roteiro de "Total Eclipse", 1995




Verlaine: O que você acha de minha esposa?
Rimbaud: Não sei. O que você acha dela?
Verlaine: Ela ainda é muito criança.
Rimbaud: Eu também.

(pausa)
Verlaine: (para o garçom) Dois absintos...
Rimbaud: Esse seu último livro...
Verlaine: Sim...
Rimbaud: ...não é lá essas coisas.
Verlaine: Não está falando sério.
Rimbaud: Puro lixo pré-matrimonial.
Verlaine: Não. São poemas de amor. Muita gente gostou.
Rimbaud: Não passam de uma mentira.
Verlaine: Não são uma mentira, eu amo minha mulher.
Rimbaud: Amor...
Verlaine: Sim.
Rimbaud: Isso não existe.
Verlaine: O que quer dizer?
Rimbaud: O que une as famílias e os casais, isto não é amor. É burrice, egoísmo, ou medo. O amor não existe.
Verlaine: Você está enganado.
Rimbaud: O interesse próprio existe, a união para proveitos pessoais existe, a complacência existe. Não o amor. O amor tem de ser reinventado.
Verlaine: Eu amo o corpo dela.
Rimbaud: Há outros corpos.
Verlaine: Não. Eu amo o corpo de Matilde.
Rimbaud: E a alma não?
Verlaine: Acho mais importante amar o corpo do que amar a alma, afinal a alma pode ser imortal. Terei muito tempo para a alma, enquanto a carne...
Rimbaud: (bufando)
Verlaine: O que foi? É o meu amor pela carne que me mantém fiel.
Rimbaud: Fiel. O que quer dizer com isso?
Verlaine: Sou fiel a todos a quem amei. Se amei um dia, amarei para sempre...e quando estou sozinho à noite ou pela manhã, posso fechar meus olhos e celebrar a todos.
Rimbaud: Isto não é fidelidade. É nostalgia. Não espere fidelidade de mim.
Verlaine: Aaah... por que está tão azedo comigo?
Rimbaud: Porque você precisa disso.
Verlaine: Já não basta saber que amo você mais do que ninguém? E que sempre amarei?
Rimbaud: Ah, cale essa boca, seu bêbado choramingas.
Verlaine: Diga que me ama.
Rimbaud: Ah, pelo amor de Deus.
Verlaine: Por favor, é importante para mim, diga...
Rimbaud: Você sabe que gosto de você.
Verlaine: Fiz umas compras hoje de manhã. Comprei um revólver.
Rimbaud: E pra quê?
Verlaine: Para você, para mim, para todos.
Rimbaud: Espero que tenha comprado munição suficiente pra todo mundo.



(trad. MP)


8.11.04

Salvador Dalí, visto por Buñuel



Durante a guerra da Espanha, Dalí por várias vezes manifestou sua simpatia pelos fascistas. Propôs até à Falange um monumento comemorativo bastante extravagante. Tratava-se de fundir, misturadas, as ossadas de todos os mortos da guerra. Em seguida, a cada quilômetro, entre Madri e o Escorial, erguer-se-iam uns cinqüenta soclos sobre os quais seriam colocados esqueletos feitos com as ossadas verdadeiras. Esses esqueletos iriam aumentando de tamanho. O último, chegando ao Escorial, atingiria 3 ou 4 metros. Como se pode imaginar, o projeto foi recusado. Em seu livro, A vida secreta de Salvador Dalí, ele se referiu a mim como um ateu. De certa maneira isto era mais grave do que uma acusação de comunismo. Um tal Prendergast, representante dos interesses católicos em Washington, começou, na mesma época, a usar sua influência junto aos meios governamentais para que eu fosse despedido do Museu [de Arte Moderna de Nova York]. (...) Depois de minha demissão, um dia marquei um encontro com Dalí no bar do Sherry Netherland. Ele chega, muito pontual, e pede champanhe. Furioso, em vias de agredi-lo, digo-lhe que é um canalha, que estou na rua por sua culpa. Ele me responde com esta frase que jamais esquecerei: "Escrevi esse livro para erigir um pedestal para mim. Não para você." Recolhi minha bofetada. Com a ajuda do champanhe -- e das reminiscências, do sentimentalismo -- nos separamos quase amigos. Mas a ruptura era profunda. Eu só tornaria a vê-lo uma vez mais. (...) Um dia, em Montmartre, vou vê-lo em seu hotel, encontro-o de peito nu com um curativo nas costas. Pensando sentir um "percevejo" ou qualquer outro bichinho -- na verdade era uma espinha ou verruga -- ele cortara as costas com uma lâmina de barbear e sangrara abundantemente. Ele então contou muitas mentiras, embora fosse incapaz de mentir. Quando, por exemplo, para escandalizar o público americano, escreveu que um dia, visitando um museu de história natural, sentiu-se violentamente excitado pelos esqueletos de dinossauros a ponto de se ver obrigado a "sodomizar" Gala [sua mulher] num corredor, isso era evidentemente falso. Mas ele é de tal modo fascinado por si mesmo que tudo o que diz o toca com a força cega da verdade. (...) Quando foi a Nova York pela primeira vez, no início dos anos 30, foi apresentado aos milionários, de quem já gostava muito, e convidado para um baile de máscaras. A América inteira estava na época traumatizada pelo seqüestro do bebê Lindbergh, o filho do famoso aviador. A esse baile Gala compareceu com uma roupa de criança, o rosto, o pescoço e os ombros manchados de sangue. Dalí dizia apresentando-a: "Ela está fantasiada de bebê Lindbergh assassinado." Isso repercutiu muito mal. Tratava-se de um personagem quase sagrado, de uma história em que não se podia tocar sob pretexto algum. Dalí, censurado por seu marchand, rapidamente recuou e contou aos jornais, numa linguagem hermético-psicanalítica, que a fantasia de Gala inspirava-se, na realidade, no complexo X. Era um travesti freudiano. (...) Quando penso nele, apesar das recordações de nossa juventude, apesar da admiração que ainda me inspira atualmente uma parte de sua obra, me é impossível perdoar-lhe seu exibicionismo ferozmente egocêntrico, sua adesão cínica ao franquismo e sobretudo seu ódio declarado pela amizade. Numa entrevista, há alguns anos, declarei que ainda assim gostaria bastante de tomar uma taça de champanhe com ele antes de morrer. Ele leu essa entrevista e disse: "Eu também, mas já não bebo."


Luis Buñuel, em seu livro de memórias Meu último suspiro, 1982.


7.11.04

André de Leones




INT. LANCHONETE - DIA.

O lugar está praticamente vazio. JEAN e FABIANA estão sentados a uma mesa qualquer. Tomam suco. Jean folheia um livro grosso.
FABIANA
- Odeio ler. Prefiro ir à praia.

JEAN
- Aqui não tem praia.

FABIANA
- Pra você ver o quanto minha vida é sacal.

Jean sorri sem desviar os olhos do livro, de tal forma que não se sabe se ele ri do sarcasmo de Fabiana ou de algo que tenha lido.
FABIANA
- Você sabe, eu divido minha vida em fases.

JEAN
- Todo mundo faz isso.

FABIANA
- Não como eu faço.

Breve silêncio. Ela toma um grande gole de suco. Ele continua concentrado em folhear o livro.
FABIANA
- Quer saber como é?

Novo silêncio. Após um momento, Jean fecha o livro e a encara.
JEAN
- Diz aí.

FABIANA
- Ok, obrigada. É o seguinte: eu divido meus dias, todos eles, todos os dias da minha vida, em duas categorias: "na praia" e "longe da praia". Pensando nos dias que passei na praia e nos dias que passei longe da praia, concluí que amo os dias que passei na praia e alimento sentimentos que variam entre tristeza e ódio puro pelos dias que passei, ou passo, longe da praia. Levando-se em conta que, em dezessete anos de vida, passei um total de cento e vinte e três dias na praia, dos quais treze dias foram ainda dentro da barriga da minha mãe, já grávida de mim em sua lua-de-mel, bem, dá pra imaginar que tipo de sentimento eu tenho pela joça da minha vida em geral.

Silêncio. Fabiana toma outro gole de suco. Jean sorri.
JEAN
- Eu... eu nunca fui muito fã de praia.



- Em  Hoje está um dia morto.

4.11.04

Numa manhã de abril, o dr. Orlando da C. M. chegou cedo na clínica para aplicar o psicotécnico. Escrevam sobre suas impressões de infância, ele disse. O que lhes vier à cabeça, não precisa elaborar. Têm 20 minutos e depois me entreguem. Mais não disse. Baixei os olhos e fiquei um tempão olhando para a folha em branco. Tudo o que queria era caprichar na caligrafia

--- "eu era pequena e não sabia que tinha de ser brasileira, branca, católica e mulher. gostava do mar e de fronhas limpas. e de ver a água escorrendo pelo ralo. matava formigas e queria saquear supermercados. me impressionava com os cérebros de boi no açougue e ameaçava jogar-me de qualquer janela porque achava que ia voar. não gosto de matemática. só queria roupas desbotadas. amava minha mãe quando apanhava dela e quando ela apanhava do meu pai. tinha fascinação pelo revólver do meu tio e pelo saxofone do vizinho, mas só podia brincar com a cadela da vizinha. minha irmã era a melhor aluna. eu era a mais bonita. toda sexta-feira santa me carregavam para beijar os pés de Cristo. me apaixonei por uma judia mas namorei um gordinho ruivo. odeio gente pão-dura. ou sovina, me ensinou a professora. não gosto de charadas. fugia das marcas que meus pés deixavam na areia. fazia xixi com frequência para sentir o impacto do chuveirinho do bidê. quando crescer vou ser médica, cardiologista. o senhor já teve caxumba? quando passo na frente de espelhos só vejo meus cabelos, minha boca, meus dentes, meus braços, minhas mãos, meus peitos. o resto embaça. acho a vida meio sem graça. tenho medo da morte. por isso já quis ser freira, guerrilheira, um milionário, uma rainha, um pássaro. já quis ter a boca enorme pra poder tocar trompete. sou desafinada. minha coleção de quadrinhos eu escondia no fundo do sofá. depois que aprendi a ler eu cantava qualquer música de trás pra frente. numa aula de redação fiz meu primeiro poema porque me pediram. era mais ou menos assim:

Librium Valium Rivrotil
Oceano Atlântico
Dalmane Paxipam Verstran
Oceano Pacífico
Xanax Serax Centrax
Oceano Índico
Quaalude Halcion Doriden
Oceano Ártico

agora acabou, falta um minuto só. o senhor aceita um biscoito de chocolate?"

Coloquei o papel na mesa do dr. Orlando e fiquei ali, esperando. Ele leu porque devia ser muito curioso e depois me encarou. Os olhos arregalados. Eu estava sem dúvida muito bem maquiada naquela manhã.


3.11.04

Teu desejo é que os objetos se mantenham em silêncio. Talvez teu único desejo seja que os objetos se mantenham em silêncio. Mais tarde pensarás "desejo que os objetos e as aparências se mantenham em silêncio" e enquanto pensas irás deslizando na escuridão.

Mas agora estás de pé, frente à pia da cozinha. Embora agora estejas de pé, frente à pia da cozinha, é possível que estejas aí há algum tempo. Ou que tenhas acabado de chegar e ficado simplesmente aí. Não tem importância. Poderias estar de pé frente à pia da cozinha escutando música. Mas não há música. Quando quer que tenhas chegado, ou depois, não colocaste música. Se houvesse música não estarias aí, de pé, olhando para baixo. Pensar na música como algo que, se existisse, soaria tão distante que o sentido de sua presença não poderia nunca chegar até aqui. Pensar no contrário da música. Pensar em um homem parado frente à pia da cozinha em silêncio. Pensar no que o homem vê e em seu desejo de que os objetos se mantenham em silêncio. Pensá-lo de tal modo que também as aparências se mantenham em silêncio. Pensar que de qualquer modo não tem importância.

(Uma ação qualquer, que pudesse ser silenciosa. Que pudesse estar sendo controlada por outros motivos, nos quais não faria falta refletir longamente. Ou que fosse tão insignificante que não faria falta refletir longamente. Uma ação na qual as aparências se mantivessem em silêncio: se estivesses de pé, frente à pia da cozinha, bastaria que -- num momento que poderia ser qualquer outro -- caísse uma gota de água da torneira. Ou nem sequer isso. Daria no mesmo se ficasses a imaginá-la. Ou nem sequer isso. Embora nada acontecesse, esse acontecimento poderia a tudo desconcertar. Tal a fraqueza de teu álibi.)


Aníbal Cristobo


1.11.04



Estou fritando ovos e converso comigo mesma. Amanhã é dia dos mortos e não sei se B. telefonará para irmos ao cemitério. Meu deus, eu não sei conversar com gente morta. Não é coisa que se aprende na escola ou em livros de filosofia. Aprendemos a chorá-los e a levar flores. Mas quem disse que gostam de flores e de gente lamurienta e viva ciscando em volta de seus túmulos? Talvez eu pudesse distraí-los. Botá-los a par das novidades. Das últimas descobertas da ciência. Das últimas guerras. De uma mudança nos hábitos. Do fim das baleias. Se o Messias voltou afinal. Se o mundo acabou. Se os extraterrestres chegaram. Eu poderia conversar muito e ninguém se importaria de ver-me falando sozinha. Nos cemitérios podemos ser loucos sem chamar atenção. Dizer-lhes que ainda não descobriram a vida eterna mas que falta pouco seria sacanagem da minha parte. Penso então numa piada, na história de um filme que eles não viram, numa música. Sim, uma música. O que um morto gostaria de saber? Adoço meu café e o sol tremelica na janela da cozinha. Por que Deus não sai daqui e os deixa tão sozinhos?