14.12.04



Comecei a escrever cedo e escrevia pouco. A porta do quarto fechada. Os cadernos do colégio abertos sobre a mesa, eu buscava palavras que meus pais não diziam. Quando eu não escrevia mais, ganhei uma máquina de escrever e meus pais morreram. A máquina ficou acumulando poeira no canto da mesa. Os cadernos cheios de fórmulas matemáticas, datas históricas, orações subordinadas. Um dia a máquina foi pro porão da casa e eu fui com ela. Sem prazer ou desprazer voltei a escrever. Os dias agora passam rápido. Comprei novos cadernos. A família cresceu para os lados e suas vozes e passos avançam por corredores e paredes. Eles não sabem que fico aqui escrevendo. Escrevo em silêncio no papel. A máquina fechada sobre a mesa, eu busco palavras que ela não diz.