16.12.04




Com aquela cara de homem fingindo estar interessado no papo de uma mulher apenas porque está com vontade de comê-la, com aquela cara de mulher costurando e bordando pensamentos apenas porque está a fim de ser comida por ele, cheguei, caprichei, relaxei, lembrei tudo o que tinha aprendido em Kant e Hegel, repassei toda a teoria dos quanta, a morfologia dos contos de magia de Propp, o vôo do 14-bis, cheguei e não perdoei:

-- Tem fogo?

-- Betelgeuse, que vergonha! Você podia estar mais brilhante hoje. Mas como é que você poderia com todos aqueles proctores enfristulando você? Tenho andado tão triste desde que os churros mertriaram toda a tua tenoctília...

Ela me olhou com desprezo:

-- Os warhoos tomaram o poder em Achernar, e você não fez nada?

E me atacando começou a chutar minhas canelas, que não são de ferro, como todo mundo pode imaginar.

-- Pare com isso -- falei. -- Os warhoos caíram na nossa armadilha.

Ela parou. Afastou-se. E olhou para mim.

-- A atmosfera de Achernar é fatal para os warhoos. Eles só têm dois mil anos-luz de vida -- eu gritei.

-- Mas os strelitz vão miricondar todos os prosonômios de Khandar!

Quanto mais ela gritava, jurcs, yaraconds, nelmeiam, osks, mais longe ia ficando, até que eu a via como quem vê alguém, um ponto muito lá longe no começo de um infinito corredor, alguém aí?



-- montagem a partir de Catatau, de Paulo Leminski.